Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

Tudo o que você precisa é amor, e um calendário de 1967

Há 50 anos tudo mudou na música popular e como forma de combater as amarguras da incerteza, sugiro que siga um calendário de 2017 nostálgico, onde cada mês vai ouvir um álbum de 1967.


Tudo o que você precisa é amor. Sim, em 2017 isto não se aplica, precisa sobretudo de uma conexão 4G. Mas em 1967, tudo o que você precisava era amor. Love love love, e para não deixar barato, convinha ter inclusive uma boa dose de ácidos e calças boca de sino (idealmente com miçangas). Há 50 anos tudo mudou na música popular, efeméride suficiente para esquecer seu futuro 2017 e seguir um calendário nostálgico. Aqui, cada mês vai ouvir um álbum emblemático de 67 no dia que foi lançado, e ainda se informar nos únicos feriados que importam (pode ir avisando o patrão).

Janeiro: "The Doors" - The Doors

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O ano começou com a proclamação do seu final. Este é o fim, sussurrou o profético Jim Morrison. Lançado dia 4, o primeiro álbum dos Doors serviu de introdução para 12 meses de deboche alucinógeno que tomaria de assalto a música popular, convidando o povo a quebrar a barreira e mergulhar no outro lado, onde um cavaleiro de calças de cabedal comanda a orgia de órgão diabólico, guitarra flamenca e imagine-se, bossa nova. Groovy!

Fevereiro: “Surrealistic Pillow” - Jefferson Airplane

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No primeiro dia do mês, as rádios de 67 anunciavam que um comprimido faz você maior, e o outro menor. E os que sua mãe dá, não fazem nada. “Surrealistic Pillow” dos Jefferson Airplane não é só um imprescindível do psicodelismo, mas o responsável direto pela cena de São Francisco, que 50 anos depois continua sendo a Meca para os roqueiros de cabelo desgrenhado. No mais, lembra o que o rato disse, alimenta a cabeça!

Feriado: 12 de Fevereiro, dia do Preso. Celebre o dia que Keith Richards e Mick Jagger foram presos numa rusga policial, e conforme a tradição, coma um chocolate Mars em família (entendidos, entenderão).

Março: "The Velvet Underground and Nico" - The Velvet Underground and Nico

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Tecnicamente, é o álbum dos The Velvet Underground com a participação de Nico, lançado em 12 de Março. Mas todos sabemos que é o álbum da banana. No embrião de Andy Warhol, Lou Reed e John Cale desenvolvem o paradigma para o rock marginal, povoando canções pop de traficantes, sadismo, heroína e botas de couro. Qualquer amigo vestido de preto com tiques nervosos vai lhe garantir que este é o melhor álbum de todos os tempos. Talvez tenha razão.

Abril: "I Never Loved a Man the Way I Love You" - Aretha Franklin

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No 10 de Abril, ela soletrou para todos entendermos. R-E-S-P-E-C-T. O primeiro single de "I Never Loved a Man the Way I Love You" catapultou Aretha Franklin para o topo das tabelas. Ao lado de "Do Right Woman, Do Right Man”, as duas poderosas canções romperam o conceito de música soul, e coroaram a rainha de todos nós. Ainda não entendeu quem? Passo a soletrar: A-R-E-T-H-A.

Maio: “Are You Experienced” - The Jimi Hendrix Experience

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Eric Clapton ligou em segredo para Pete Townshend. Estava francamente preocupado. Jeff Beck, mais fatalista, decidiu que seria melhor procurar outra carreira. No dia 12 de Maio, “Are You Experienced” de The Jimi Hendrix Experience, aterriza como uma bomba na nata de Swinging London, pegando em todos os truques dos colegas londrinos e apimentando com um toque de maldade sensual. No fim do ano fazia explodir o resto do mundo.

Feriado: 1 de Maio, dia do Ácido. Sente a brisa e tome um ácido com seu melhor amigo nesta data comemorativa, lembrando o dia que Paul McCartney confessou em entrevista televisiva que todos os Beatles já tinham embarcado na moda.

Junho: “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band” - The Beatles

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O que declamar sobre “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band” que ainda não foi escrito? Que saiu dia 1 de Junho e serviu como o testemunho definitivo de uma geração? A capa revolucionária e inclusiva de Peter Blake? A narrativa solta que termina no orgasmo orquestral de "A Day in the Life"? Que foi a última vez que os Beatles ditaram o percurso da música popular? Que George Martin toca o cravo em "Fixing a Hole"? Desculpem, não vou perder meu tempo.

Feriadão: 16, 17 e 18 de Junho, dias do Festival. O Monterey Pop juntou o crème de la crème de 67 num mesmo palco. Em homenagem, passeie de miçanga e coroa de flor ou simplesmente, ande nu em casa.

Julho: "Smile" - The Beach Boys

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Sorria. Essa era a mensagem que Brian Wilson nos queria deixar. No caminho, estava seu gênio conturbado, ao lado de uma dose considerável de alucinogénios, que não deixou o compositor dos Beach Boys lançar o magnum opus que iria destronar os Beatles. Nunca mais foi o mesmo. No dia 24 de Julho, sobrou apenas "Heroes and Villains" como a introdução ao “Smile” que nunca teve, isto é, até nos sorrir finalmente em 2011.

Agosto: “The Piper At The Gates of Dawn” - Pink Floyd

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A esta altura do ano já conhece a história. Rapaz toca guitarra. Rapaz toma LSD. Rapaz enlouquece. Este é um dos mantras de 67. O protagonista desta vez é o lisérgico Syd Barrett, que desconstrói o pop britânico em pequenos trechos de rima chapada, e longas dissertações adivinhando o futuro progressivo. “The Piper At The Gates of Dawn”, de 5 de Agosto, são uns Pink Floyd. No fim do ano, com Syd machucado e Gilmour saindo do banco de suplentes, já são outros Pink Floyd.

Feriado: 27 de Agosto, dia do Manager. Honrando Brian Epstein, manager dos Beatles, é hora de recuperar todas as notas fiscais e organizar a vida financeira. Vale mencionar que não deve abusar do comprimido, pode resultar em sono letal.

Setembro: “Something Else by The Kinks” - The Kinks

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Na vitrine das boutiques, se vendia a Grã Bretanha colorida da nova aristocracia pop. Para os Kinks, eternos céticos, era a Inglaterra de sempre, povoada de céus cinzentos, chá da tarde, cigarros de enrolar e transeuntes procurando oportunidades nos classificados. “Something Else by The Kinks”, lançado dia 15 de Setembro, repudia a Swinging London, e defende que a beleza londrina sempre existiu, bastava ver pôr do sol na estação de Waterloo.

Feriado: 17 de Setembro, dia do Portas Fora. Seja ordinário, e não comprometa seus princípios, celebrando o dia em que os Doors tocam “Light My Fire” no Ed Sullivan Show, e são expulsos pelas referências ao estado chapado.

Outubro: III Festival de Música Popular Brasileira

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Ah, mas isso não é um álbum! Pois é, mas também não era um país democrático. Em plena ditadura militar, a Record mobilizou o Brasil no III Festival de Música Popular Brasileira, com um insólito esquenta na passeata contra a guitarra elétrica. O palco estava montado, e as prestações são parte do folclore nacional. O sorridente Caetano, sem lenço e sem documento; o taciturno Chico, nas voltas do nosso coração; e o rei da brincadeira (é Gil) com o rei da confusão (é Os Mutantes). O tempo rodou num instante.

Feriado: 18 de Outubro, dia da Imprensa. Acorde cedo e compre o jornal, ajudando na causa do jornalismo e celebrando o dia que saiu a primeira edição da Rolling Stone.

Novembro: “Forever Changes” - Love

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Não se deve julgar os álbuns pela capa. “Forever Changes” ilustra os cinco Love nas cores psicodélicas do verão do amor, imagem imediatamente reconhecível como um clássico para qualquer velhaco melómano. No entanto, “Forever Changes” não teve data de lançamento, ou sequer uma tournée de apresentação. Aqui está o ano idílico atingido seu fim, narrado pelo lirismo paranoico de Arthur Lee, que antecipa a morte da inocente geração anestesiada. Era quase Dezembro.

Dezembro: “Their Satanic Majesties Request” - The Rolling Stones

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Se Sgt. Peppers é o lado bom da força, “Their Satanic Majesties Request” é o lado negro. O objetivo era o mesmo, criar um álbum conceitual que refletisse as questões da época. Mas isto são os Rolling Stones, e por muito boas intenções que tivessem, nunca conseguiriam compor um álbum profetizando flores e amor. Lançado dia 8 de Dezembro, o resultado é uma miscelânia maldosa de ritmos africanos e meias canções com mellotrons e dulcimers, sendo a definitiva ressaca de um ano histórico.

Feriado: 10 de Dezembro, dia Otis. A única forma de lembrar a morte do gigante Otis Redding é chorar e sofrer como um verdadeiro cantor soul. É preciso mais provas que acabava o verão do amor?


Luis de Freitas Branco

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