Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

Let It Go. As grandes cagadas (e mijadas) da história da música


Apresento o derradeiro capítulo do xixi cocô na história da música, desde os bruxos que queriam roubar urina a David Bowie ao “terrorista da bosta”, Mike Patton.

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Sentado no banheiro, esperando algum posicionamento intestinal, quantas vezes refletiu se os ídolos estariam naquele momento na mesma posição ingrata? Apesar de haver a chance que um Mick Jagger sente no trono de cerâmica, se for apresentada a possibilidade de aliviar suas necessidades no grande palco, o entertainer nunca perde o momento de imortalizar seu nome (mesmo que em tons castanhos). Essas cenas escatológicas são um capítulo não contado da história da música, e como já adivinhei que está ansioso em saber todos os detalhes escabrosos, segue sem demora as grandes cagadas e mijadas pela ordem da natureza: número um (xixi) e número dois (cocô).

NÚMERO UM

Segundo Beyonce, rainha da sinuosidade, o segredo é parar com os alimentos processados, glúten, laticínios e bebidas alcoólicas durante 22 dias. Para o Thin White Duke, personagem de David Bowie em meados de 70, a dieta perfeita se restringe a cocaína, cigarros, leite e claro, cocaína. Nos dois casos existem efeitos colaterais. Se no primeiro vão ser 22 dias sem nutrição equilibrada e carência de proteínas, no segundo vai entrar num trem bala de descontrolo eufórico, com paragens intermitentes na estação da paranoia. O músico inglês já conhecia este caminho e em 76, no auge do seu consumo de pó, vivia num apartamento de Los Angeles rodeado de parafernália do oculto, seja ele um ritual satânico, tabuleiro ouija ou qualquer livro de Aldous Huxley. O seu maior medo eram bruxos, e não era propriamente Harry Potter que aterrorizava, mas um gênero de feiticeiro que segundo Bowie queria lhe roubar a urina (claramente casa Slytherin). Para o Thin White Duke só existia uma cura: esconder e preservar toda a sua urina na geladeira. Eram os “Golden Years”, e segundo testemunhas, teve ainda uma fase de guardar esperma e unhas dos pés.

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Em “Só Garotos”, livro de memórias de Patti Smith, a cantora revela seu eterno amor adolescente pelos cabelos de Brian Jones e Arthur Rimbaud. Aos 16 anos ficou vidrada com a imagem desgrenhada do poeta francês e comprou de imediato “Les Illuminations”, a compilação editada pelo decadente Verlaine. “Tudo muito interessante, mas como é que isto vai dar em xixi?”, pergunta agora o caro leitor. Calma. Acontece que Patti trabalhava numa fábrica onde eram proibidas as leituras, tanto pela gerência como pelos funcionários, que encaravam qualquer livro como algo a desconfiar, ou no mínimo, comunista. Arrogante e destemida, adivinhando seu futuro punk, Patti chegou um dia acompanhada de Rimbaud. Resultado? (sim, é agora a parte escatológica) Os colegas pegaram na jovem e enfiaram a cabeça dentro de um vaso mijado, que deixou Patti completamente ensopada. A descarga emocional chegou uns anos depois, com a dylanesca Piss Factory, lado b do seu primeiro single.

Na história das grandes mijadas da música, o momento mais celebrado pertence obviamente a Ozzy Osbourne. No dia 19 de Fevereiro de 1982, no seu estado habitual de embriaguez descontrolada, Ozzy passeava cambaleando no centro histórico do Alamo (San Antonio, Texas), e porque não, usando um vestido da então namorada, Sharon Osbourne. Apesar de ter sido naquele mesmo palco que os texanos aguentaram durante 13 dias o cerco de exército mexicano em 1836, essa resiliência não inspirou o ex-Black Sabbath, cedendo às vontades da bexiga e mijando o monumento histórico. Preso e solto após uma multa, foi oficialmente proibido de tocar em San Antonio durante dez anos. Apesar dos contornos quase míticos desta mijada, o príncipe das trevas podia estar somente a seguir os passos dos seus ídolos The Rolling Stones, que tiveram em 1965 um despejo de urina igualmente midiático. Nos tempos em que ser cabeludo era sinônimo de alguma viadagem diabólica, Mick Jagger e companhia eram os alvos preferidos do escárnio britânico. Numa dessas ocasiões foram proibidos de entrar num posto de gasolina em plena Londres, e decidiram fazer justiça com as próprias mãos, isto é, pegar nos instrumentos e urinar a parede do estabelecimento. A performance resultou numa multa leve e outro momento ideal para Andrew Oldham (manager da banda) propagar imagem de arruaceiros do rock.

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“Quando eu penso nos Beatles”, revelou Bob Geldof à Q Magazine em 2010, “penso em urina”. A consequência mais infame de toda a Beatlemania foi possivelmente o fedor a urina dos shows da banda, quando as fãs histéricas não se aguentavam entre cada yeah yeah ou chocalhar de cabeça mop top. “Lembro-me de olhar o chão do teatro e ver um rio de mijo a passar nos corredores, elas estavam literalmente se mijando de excitação!”, contou Geldof. Se nesses shows as únicas vítimas eram os carpetes, no Festival Reading (Inglaterra) persiste até hoje uma bizarra tradição de jogar garrafas de xixi para algumas bandas sorteadas. Entre os alvos estão bandas como Bring Me the Horizon, My Chemical Romance, Run the Jewels e Panic! At the Disco. Estes últimos, tiveram uma garrafa que alvejou a cabeça do vocalista e resultou numa pequena contusão. Mesmo assim, ele encarou o momento como “um bom presságio”.

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O palco e o xixi são parceiros históricos, e nos momento áureos teve os B-hole Surfers a encharcar um taco de baseball de urina e tentar bater na plateia; o vocalista dos Blind Melon a mijar do palco para cima dos fãs; ou ainda o clássico membro dos The Almighty Defenders a mijar na boca do colega, que depois cuspiu a oferta na plateia (chegou, como diria Lulu Santos, como uma onda). Um caso ainda indefinido nesta fantástica parceria está nos Motley Crue. A banda de LA tem agora um processo aberto em tribunal, após terem decidido ignorar os seus quase 60 anos e carregado pistolas de água com a própria urina. Alegadamente, uma banda chamada Raskins pagou um milhão de dólares para fazer a abertura dos Motley Crue (!?) e sofreram um bullying agressivo no backstage, tendo sido todos encharcados com as ditas pistolas. Certamente é caso para definir nas mais altas instâncias.

NÚMERO DOIS

“Tu eres excremento, pero el excremento puede convertirse en oro”. O pensamento alquimista pertence a Alejandro Jodorowsky, um crente nas capacidades esclarecedoras de qualquer prática humana, incluindo a defecação. Outro alquimista, também decidido em transformar metais (e percussão) em puro ouro, foi Fela Kuti, que sofreu na pele (e intestinos) a capacidade esclarecedora do el excremento. Em 1975, no auge do afrobeat, o nigeriano e a turma do Africa 70 fizeram germinar uma autêntica revolução musical, social e política, ancorados numa batida tensa, com letras de ataque direto ao governo opressor da Nigéria. Na sua casa, conhecida como “República Kalkuta”, Fela tornou-se o inimigo público número um, sendo rotineiramente preso e torturado. Numa destas visitas surpresa, a polícia nigeriana surpreendeu o compositor de baseado na mão, que reagiu da forma mais sensata: comeu o beck. Numa competição de sensatez, a polícia teve a ideia genial de levá-lo para a prisão e esperar que o cocô fosse prova em flagrante. Após uns dias na prisão (real e de ventre), o aclamado herói do povo foi salvo por um prisioneiro em plena evacuação no banheiro. Os dois brincaram de amigo secreto e trocaram as prendas, obrigando a polícia a inocentar o excremento do compositor. Imaginem “À Espera de um Milagre”, mas com um cagão em vez de Michael Clarke Duncan. Ou nem precisam de imaginar, o compositor faz o relato inusitado em “Expensive Shit”.

Um dia alguém vai fazer justiça a Mike Patton e escrever uma longa tese sobre a sua complexa relação com as próprias fezes. O vocalista dos Faith No More, autoproclamado como o “terrorista da bosta”, caga diariamente e torna (como ensinou Jodorowsky) essa oportunidade em ouro. Por agora falemos apenas dos greatest hits. Em 1991, na infame digressão conjunta com Guns N' Roses, Patton urinava por norma no equipamento de Axl Rose, e chegou mesmo a abrir um suco de laranja, defecar um pouco lá dentro e devolver selado ao vocalista. Em 30 anos de banda, todos os membros de Faith No More foram numa altura ou outra, alvo de fezes. “Uma vez estava num quarto de hotel, caguei, enrolei numa bola e escondi dentro de um secador de cabelo”, explicou Patton. “A próxima pessoa que usou ficou cheia de merda quente na cara! Não é mesmo rock'n'roll?”

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Na última cerimónia dos Óscares, o documentário “Amy” foi aclamado vencedor. O grande esnobado foi o extremamente pertinente e atual, “The Day Dave Matthews Band Pooped on Chicago” (traduzido para, o dia que Dave Matthews Band cagou em Chicago). O filme dramático e baseado em jornalismo investigativo, conta o momento tenebroso que a banda despejou no rio da cidade quase 400 quilos de esgoto, diretamente do caminhão da turnê. Por azar, uma barca que fazia uma visita arquitetônica e urbanística da cidade passou em baixo da ponte no exato momento da evacuação. Segundo a lenda, algumas pessoas estavam olhando atentamente (e de boca aberta) para a estrutura da ponte. Aliás, foi nas lendas que começou esta coisa de mesclar cocô com música. Nenhum historiador da cagada musical pode esquecer o mito que Frank Zappa entrou numa competição com Captain Beefheart para ver quem é mais nojento, e venceu de imediato comendo suas fezes em palco. “Eu estava em Londres num show em 67 ou 68, e um músico chegou e disse, você é fantástico, quando ouvi a história de comer cocô em palco eu pensei, esse é que é o cara!”, contou anos depois Zappa. “Expliquei que nunca comi cocô em palco, e ele ficou mesmo depressivo, tipo como se eu lhe tivesse quebrado o coração.”

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Tradicionalmente, o palco para este tipo de prática é o vaso. Mas a história demonstra que não é sempre assim. Em Reading (sim Reading outra vez! Fujam de Reading!), o vocalista da banda de mathcore The Dillinger Escape Plan, conseguiu engendrar uma forma genial de insultar quem tocava a seguir. Defecou numa sacola e esfregou um pouco pelo corpo, com a punchline: “hoje vocês vão ver muita merda no palco, então melhor ver mais um pouco.” Palmas. Os Fat White Family foram ainda mais longe, e quando se viram obrigados a tocar no Mercury Lounge em Manhattan (onde segundo a tradição tem de se lutar na plateia para chegar aos camarins), decidiram caminhar cobertos de cocô. Resultou. Mais palmas. Porém, no underground punk a meta atingir continua sendo GG Allin. Ele cagava no palco por norma, como quem chega para o bis. Em 85, num show perdido por Peoria (Arizona), o solo do intestino foi especialmente marcante. Depois de passar o dia anterior tomando laxante e aguentando a “canção” dentro de si, rompeu finalmente em palco, jogando notas por toda a plateia aterrorizada. O último show midiático envolvendo número dois foi em 2010, quando um pombo não identificado (devia ser crítico musical) cagou nas cabeças dos Kings Of Leon, conseguindo atingir a boca do baixista. Será que o pombo, encarnado uma última vez pelo Espírito Santo, fez um favor ao mundo?


Luis de Freitas Branco

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