Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

Fleet Foxes. Antes do novo disco, é hora de descobrir o que cantam esses engomadinhos de Seattle


No dia 16 de Junho é lançado “Crack-Up”, o terceiro disco da banda talismã do indie folk, sendo hora de finalmente entender o significado por debaixo das vozes angelicais

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Entre na viagem. “Helplessness Blues”, último disco dos Fleet Foxes, foi lançado em 2011. Nessa altura, Barack Obama chocou o mundo anunciando a morte de Bin Laden, para seis anos depois um MC paulista de sobrancelha listrada resolver que está tudo favorável. Dilma Rousseff tomou posse como a primeira mulher Presidente do Brasil, para seis anos depois... bem deixa pra lá, acho que já nos entendemos, seis anos é muito tempo. A boa notícia é que a espera terminou, e dia 16 de Junho os Fleet Foxes vão finalmente revelar “Crack Up”, o álbum mais aguardado da temporada. Como forma de suster as expectativas, dissequei as letras de Robin Pecknold, e descobri que debaixo daquela voz angelical o compositor está sempre cantando sobre os mesmos temas, mais especificamente, oito: solidão, geografia, pastoral, existencial, meteorologia, assassinato, irmandade e morte.

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1.Solidão

Cazuza nos perdoe, mas o maior abandonado é definitivamente o senhor Pecknold. Em dez canções o vocalista chora saudade como um verdadeiro português. Vejamos o arquétipo de uma canção Fleet Foxes, White Winter Hymnal de 2008, primeiro single de sucesso, quase um passo a passo em Power Point para esses Mumford e filhos que se propagam por aí. Tirem notas: 1: Voz solitária fantasiada de alguém no fundo do poço; 2: Surge um coro, e ainda uma banda completa, que de olhos fechados juramos ser Crosby, Stills & Nash; 3: O vocalista relembra sua condenação e retorna ao papel de voz reclusa. No final completa o círculo, samsara ao estilo budista, e Robin fica novamente sozinho, uma condenação que ensombra a restante discografia.

O mantra da solidão teve seu embrião em Innocent Son, última do EP “Sun Giant”, onde escutamos que o desespero vem da impossibilidade de reencontrar um amor perdido. Só anos depois, em 2011 com “Helplessness Blues”, o protagonista começa recordando friamente o passado sofredor (veja Bedouin Dress, Sim Sala Bim ou Lorelai), e chega à conclusão desesperadora que o sucesso da banda lhe custou a estabilidade emocional. A suplicia recorrente é “one day at Innisfree”, uma libertação total sem remoer “the one that got away” (sim, esta última é da Katy Perry).

2.Geografia

“And you will go to Mykonos” é um conselho francamente distribuído entre homens gays malhados, mas é uma sugestão inverossímil para os Fleet Foxes começarem seu mapa-múndi de canções. Porém é mesmo com Mykonos, single bombástico de 2008, que a banda nos convida a visitar a ilha grega, prometendo um refúgio espiritual, uma espécie de férias com o povo dos lotófagos (“And you will go to Mykonos/With a vision of a gentle coast/And a sun to maybe dissipate/Shadows of the mess you made”). Próxima paragem? Uma viagem a Montezuma, uma casa de Brighton (English House) e ainda uma baldeação “to the blue ridge mountains, over near Tennessee” (Blue Ridge Mountains), onde Sean, irmão de Robin, pode se rejuvenescer entre os pinheiros da floresta. No novo álbum já está anunciada I Should See Memphis. Será esta música mistério uma excursão a Graceland, entre os telefones de ouro e carpetes do Rei Elvis?

3.Pastoral

Qualquer fã já foi confrontado com o estereótipo que as canções da banda são todas sobre fazer as artes ouvindo rouxinóis. Uma afronta! Todas não, pelo menos Meadowlarks e mais algumas. “My meadowlark, sing to me”, pede em total êxtase, uma felicidade que para nós só é comparável ao dia que a Netflix libera o seriado e temos a frigideira lotada de sorvete. Para Robin, a vida em campo é somente de acontecimentos épicos, seja o rouxinol na manhã de inverno ou a chegada das folhas no sopé do riacho (Drops In The River). No estado de espírito pastoral só existe a harmonia e paz serena prometida pelos românticos de outrora. A canção estandarte é The Shrine/An Argument, um freak out de oito minutos, onde mergulhamos de tal forma no sonho romântico, que passamos a ser um maçã fresca entre outras, perdida no pomar (“Sunlight over me no matter what I do/Apples in the Summer all cold and sweet/Everyday a'passin complete” e “Carry me to Innisfree like pollen on the breeze”).

4.Existencial

Promessas foram feitas, e Robin explicou em entrevista que este “Crack Up” vai ser o grande álbum existencial. Será recheado da tradicional reflexão sobre como vamos envelhecer, estilo Someone You'd Admire? Ou as grandes questões da humanidade, o sentido das coisas e outros enigmas indecifráveis? Isso também já foi feito, no Blue Spotted Tail, a única vez que os Fleet Foxes cedem ao momento de “agora vou fazer uma música para tocar em acústico na fogueira”. “Why do I do all this waiting then? Why this frightened part of me that's fated to pretend?”, se questiona inocentemente, terminando no fatídico “Why is life made only for to end?”. Qual será o propósito da nossa existência? Uma coisa já aprendemos com Helplessness Blues, não somos únicos, somente um floco de neve na tempestade (“I was raised up believing I was somehow unique/Like a snowflake distinct among snowflakes”), envelhecendo para se tornar em alguém irreconhecível (“Someday I'll be like the man on the screen”). O segundo álbum toca sempre no amadurecimento e distanciamento de cada um da banda, havendo um em específico que já estava de de malas feitas (o taciturno Josh Tillman, agora playboy Father John Misty).

5.Meteorologia

Depois de confundir o nome com Fleetwood Mac, a primeira música que ouvi de Robin foi Sun Giant, pelo horário da manhã, explicando que estamos na primavera, como um colorido gráfico meteorológico. A introdução ao álbum foi igualmente explicativa (Sun It Rises), em sing-along de trabalhadores rurais, anunciando o nascer do sol (“Sun risin' over my head/In the morning when I rise”).

6.Assassinato

Debaixo da beleza de cada uma das guitarras, oboés e harpas vintage, existe um segredo terrível nesta discografia. São três canções sobre assassinato! Elementar, como diz Sherlock Holmes, os culpados são White Winter Hymnal, English House e Tiger Mountain Peasant Song.

7.Irmandade

A irmandade é assunto sério para Robin, nos confessando sempre uma eterna preocupação com o caçula Sean, seja em Blue Ridge Mountains ou He Doesn't Know Why. Até agora, a única música revelada de “Crack-Up” é Third of May/Ōdaigahara, mais uma epopeia de oito minutos, desta vez sobre Skyler Skjelset, o guitarrista da banda. Além de ser o mais engomadinho, Skyler é também o BFF de Robin, e segundo o senhor Pecknold esta nova canção conta “sobre a distância entre nós ao longo dos anos que fizemos turnê, o sentimento de ter coisas por resolver e uma relação não correspondida que nos pesa psicologicamente”.

8.Morte

Basta, não falemos de morte. Completamente desnecessário relembrar The Plains/Bitter Dancer e Your Protector. Já sei, porque não ouvir o som do rouxinol?

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Luis de Freitas Branco

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