Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

TERROR! O cinema assustador da consciência social


“Corra!” entra em cartaz, o novo capítulo de um enredo pouco conhecido no cinema, o terror como ferramenta de consciência social.

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Casey: Quem está ai?

Voz:  Você nunca deve dizer ‘Quem está aí?’, você não vê filmes de terror? Sabe que isso é um prevejo de morrer. Se bem que você poderia sair daí e investigar o barulho estranho.

(Pânico, 1996)

Investigar o barulho estranho é a forma correta de resumir qualquer filme de terror. Normalmente está escuro com uma aragem ligeira, talvez chuva, um gato passa, e o herói involuntário pisa sempre na direção proibida, ali debaixo da cama, começa vendo um VHS amaldiçoado, ou visita a casa dos pais da namorada. Este último cenário é a premissa de Corra, onde o estranho não é somente o ranger do soalho na casa dos sogros, mas sobretudo uma janela aberta para entender o momento de tensão racial nos EUA.

Chris, o protagonista negro, é namorado de Allison, menina branca de berço de ouro. A visita aos sogros podia ser uma versão Ku Klux Klan de Entrando Numa Fria, com cruzes ardendo e toda essa parafernália racista, porém, o diretor e roteirista Jordan Peele entende a questão racial como algo mais profundo e intrusivo que os extremos. A família de Allison é liberal, amorosa, e promete inclusive que se fosse possível, continuaria votando em Obama. Quando o nosso herói finalmente relaxa, surge o inevitável barulho estranho, fascinante e invulgar, hipnotizando Chris a mergulhar na herança social do país repartido.

Corra não é um caso isolado, existe um espólio deste cinema com consciência social, mesmo que isso não seja imediatamente perceptível. Segundo alguns teóricos de O Iluminado - e acredite que existem muitos teóricos, basta assistir O Labirinto de Kubrick - o diretor norte-americano imaginou o filme como um instrumento de simbologia sobre o genocídio dos povos indígenas pela mão do homem branco imperialista, representado por Jack Nicholson. O ano passado, A Bruxa passou despercebido pelas salas de cinema brasileiras, uma teorização na forma que a religião e o extremismo nos afeta como sociedade, desenvolvendo a mesma preocupação social que em 1973 aterrorizava adolescentes (O Exorcista e O Homem de Palha). Nestes cenários breus de sustos e arrepios, se propagam as questões que não surgem em dias risonhos. Será que existe um convívio real entre uma sociedade laica e religião? E lembra do sucesso de Cisne Negro, com Natalie Portman incorporando a complicada relação com o envelhecimento e doença, tratando o tema de forma mais sutil que Cronenberg em A Mosca.

Corra é um filme de terror, nesse formato inverossímil alguns autores decidiram explorar nossos maiores medos e enfrentar o estranhamento que é viver. Neste nicho, existem três principais temáticas que são a obsessão do cinema de terror como consciência social: Sexo; Família; e Capitalismo. De Hitchcock a Ridley Scott, a sociedade é dissecada e invadida por fantasmas, zumbis, alienígenas, e restantes máscaras servindo para nos enxergarmos ao espelho. A sociedade é a nossa criação mais bela, e como dizia Francis Bacon, “não há beleza perfeita que não contenha algo de estranho nas suas proporções”. Resta seguir as trevas e enfrentar essa estranheza, ou nas palavras do famoso boneco: “Oi, meu nome é Chucky, quer brincar?”.

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SEXO

Poucos filmes podem se orgulhar de ser verdadeiramente de ruptura. Exemplos populares são O Cantor de Jazz, o primeiro “falado”, ou O Nascimento de Uma Nação, o grande épico racista dos anos 10. Se me permite, vou juntar a esse time seleto Halloween: A Noite do Terror, obra-prima de John Carpenter, o inaugural vislumbre de uma adolescente de seios grandes fugindo do assassino mascarado. Hoje parece trivial, ou como Sidney Prescott explicou em Pânico, “qual é o objetivo de um assassino estúpido perseguindo uma mulher de mamas grandes que não sabe atuar e está sempre subindo escadas quando devia estar saindo porta fora”. O objetivo é sexo. Em Halloween, o mero pensamento em planejar a primeira experiência sexual faz surgir um assassino, demonstrando em pequenos sustos a culpabilidade e vergonha de arriscar o ato. Corrente do Mal é ainda mais engenhoso, transformando o assassino numa doença sexualmente transmissível, bem mais didático que qualquer aula de sexo seguro.

O terror do sexo tem a suas origens mais óbvias em Sangue de Pantera, o clássico dos anos 40 onde Simone Simon não consegue consumar o casamento, arriscando se transformar numa pantera. O risco é fatal e feroz, interligando o ato de prazer com uma explosão incontrolável de violência. Quem se lembra de Carrie, a Estranha, a menstruação convertida num violento banho de sangue. Ou no recente Grave (ainda sem estreia brasileira), onde um trote de faculdade enfrenta a identidade com sexualidade, resultando em efeitos colaterais de canibalismo.

Apesar da importância de Halloween, a verdadeira tábua rasa foi mesmo Psicose, o mergulho perfeito do cinema nas preocupações freudianas de violência sexual e maternal, habitado por pessoas humilhadas pelo dinheiro e impotência, que acabam se expressando da forma mais exterior e brutal possível: uma sucessão de facadas. A questão aqui é como nos definimos socialmente pela sexualidade, e se temos coragem de encarar nossa própria estranheza. Veja Audição, o extremo desta questão, o filme explorador da depravação e tortura sexual, um mote desenvolvido depois de forma mais extenuante e gráfica em Jogos Mortais e A Centopéia Humana . E sim, A Centopéia Humana é mesmo esse filme que você está pensando, e se não conhece esse objeto de arte cinematográfica, fique na ignorância.

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FAMILIA

Superada nossa fase de prepotência sexual, quem sabe casados e com um filho a caminho, os medos de vida ganham contornos verdadeiramente assustadores. Imagine, quase que acabou de aprender a passar a roupa e agora está com um recém-nascido entre mãos, que todos explicam ser a maior e única responsabilidade. Eraserhead desenvolve esta conjuntura de terror de forma genial, inspirado em experiências reais de David Lynch. No lado materno, O Bebê de Rosemary segue o mesmo caminho, enquanto no Orfanato uma mãe tenta decifrar a maternidade retornando ao seu momento de nascimento.

Quando o filho cresceu e já superamos os nossos sustos existenciais, desaponta um moleque que mal reconhecemos, estranhamente familiar e ao mesmo tempo, sempre distante. Em Babadook, a mãe vive rodeada de tristeza e saudade, sentindo-se culpada pela solidão e isolamento do filho, que encontra somente no sobrenatural algum afeto (tal como no popular Os Outros). Sobre esta alienação e distanciamento, se superam pela originalidade o sueco Deixa Ela Entrar e o francês Os Olhos Sem Rosto (1960).

Porém, nenhum terror familiar consegue se equiparar à perda do filho, e este cinema sugere que apenas um sentimento catártico vai fazer retornar do estado inebriante de melancolia. Mama e o excelente Inverno de Sangue em Veneza operam neste contexto delicado, entre o desespero da perda e um casamento que respira pela vida. Ninguém retratou melhor esta agonia que Lars von Trier em Anticristo, e claro, o exemplo mais popular é Sexta-Feira 13 com - ALERTA SPOILER - a mãe assassina de um campista que afinal está vivo e se vinga decapitando pessoas de machete.

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CAPITALISMO

Citar Thomas Piketty é fácil. Complicado é criticar o emergente capitalismo moderno com um xenomorfo a explodir do peito ensanguentado e uma mulher fugindo de calcinha. Mas Ridley Scott é o cara, ou pelo menos era em 1979, quando fez sua melhor criação, Alien o Oitavo Passageiro, um astuto série B que além de aterrorizar, consegue ser um filme do seu tempo, estreando no momento da eleição de Margaret Thatcher. No universo de Alien, a “Empresa” responsável pela embarcação não poupa a custos humanos, e só tem olho no cifrão, quase adivinhando os anos Reagan (aproveitando, esteve nos cinemas a última versão de Ridley Scott, Alien: Covenant). Se a bordo de Nostromo não é imediatamente evidente o julgamento ao capitalismo, tente Arraste-me para o Inferno de Sam Raimi. Nesse, uma analista de crédito nega empréstimo a uma velhinha por vaidade, com a particularidade dessa velhinha ser bruxa, resultando numa sequência de pragas cômico-trágicas, com destaque para a grande cena de vômito inesquecível.

No ano passado, Invasão Zumbi comprovou uma regra fundamental de qualquer filme de mortos-vivos, além do canibalismo e dificuldades motoras, estes seres servem na perfeição para analisar a humanidade falha, nossos feudos capitalistas e governos autoritários. Esta parte da história do cinema está amplamente documentada, começa com George A. Romero em A Noite dos Mortos-Vivos, o bê-a-bá do filme zumbi, um espelho apocalíptico dos conflituosos anos 60, de Vietname a adolescentes liberados. Só depois, com Despertar dos Mortos e Dia dos Mortos, Romero entregou uma visão mais completa do poder alegórico dos mortos-vivos, chocalhando hipnotizados em vitrines de shopping, e enredos onde o ser mais terrível é sempre o homem. A obra-prima do gênero é Extermínio de Danny Boyle, uma miragem terrível de desolação e derrota da Grã-Bretanha, cada vez mais real nestes tempos de Brexit.

Um detalhe de Despertar dos Mortos resume bem o cinema escondido de consciência social. O personagem negro, Peter, é o herói de serviço que mata dezenas de zumbis ao longo do filme, e seu maior adversário não é um canibal tosco, mas um sulista branco que rejeita a presença do negro na história. Este é um detalhe menor do filme, somente em Corra! temos a tensão racial protagonizando o terror cinematográfico. O trocadilho do dia é mesmo seguir no corre-corre, e em direção ao cinema mais próximo.


Luis de Freitas Branco

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