Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

Os sete pecados capitais segundo Paul Thomas Anderson


De “Jogada de Risco” a “Vício Inerente”, o diretor norte-americano dirigiu sete filmes. Além de apresentar esta filmografia fundamental, encontrei um pecado capital para cada criação de PT Anderson.

GULA: “Jogada de Risco” (1996)

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Quem percorre essa internet, já se deparou com as extraordinárias imagens de pizzas colossais, calabresas com batata frita gratinada, em frente a um franzino nordestino de apetite voraz. Essa é a definição tradicional do pecado menos capital, prazer pela quantidade e qualidade de comida, ou como explicou o Papa Gregório I, “quem procura iguarias para satisfazer um maligno senso de gosto”. Antes de acusar seu amigo gourmet de condenação infernal, saiba que essa gula decaiu no deleite do catolicismo, e hoje o pecado representa algo mais amplo: querer mais do que merecemos. Quem quer aqui é o taciturno Sydney (Philip Baker Hall), que depois de matar o pai do gigante feliz John (John C. Reilly), decide resolver seu remorso e abraçar o recém órfão. “Jogada de Risco” é o filme menos bom de PT Anderson, e é certamente o mais modesto, demonstrando como um bom diretor não deve pecar por gulodice na primeira tentativa.

LUXÚRIA: “Boogie Nights: Prazer Sem Limites” (1997)

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“O seu poderoso instrumento o tornou famoso”, é o peculiar título chinês de Boogie Nights, resumindo bem o protagonista do filme, o instrumento de Eddie (Mark Wahlberg), conhecido no mundo pornô como Dirk Diggler. O caminho para a fama e a desgraça de Eddie é um exemplo paradigmático de luxúria no cinema, retratada na obsessão em sexo e drogas que leva o ingênuo ator ao extremo de se prostituir na rua. O filme tem um leque extenso de personagens que personificam o pecado, desde Floyd Gondolli (Philip B Hall) que afirma gloriosamente “eu gosto de prazeres simples, manteiga na bunda e chupas na boca, mas isso sou eu”, ou Jack Horner (Burt Reynolds) que motiva Eddie com a frase, “tenho a sensação que por detrás desses jeans está alguma coisa maravilhosa querendo se soltar”. Estava mesmo, e seria o primeiro filme sensação de PT Anderson.

INVEJA: “Magnólia” (1999)

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Se o objetivo fosse encontrar todos pecados num único filme, “Magnólia” levaria as sete estatuetas. Por onde começar? As canções desoladoras de Aimee Mann, o Urso de Ouro, o único papel que Tom Cruise consegue desaparecer de Tom Cruise, os monólogos de John C. Reilly, as referências bíblicas, e claro, a chuva de sapos. No roda vida das personagens cíclicas está o concurso televisivo, onde Donnie Smith (William H. Macy) foi estrela, e depois substituído por outro e outro participante, levando a crer a inconveniência dos seus dentes e uma inveja devoradora que apenas cirurgia oral consegue resolver. O ciúme ferve sobretudo em Linda Partridge (Julianne Moore), mulher troféu de Earl (Jason Robards), pela descoberta de um novo pretendente à fortuna do produtor. Que ninguém a julgue, quem não teria inveja de Tom Cruise nos anos 90?

IRA: “Embriagado de Amor” (2002)

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Existe maior feito que tornar Adam Sandler bom ator? Num filme com pudins e um harmônio como protagonistas, Sandler demonstra sensibilidade inaudita, intercalada com acessos de ira rompantes. Entre querer quebrar tudo, e realmente quebrar existe uma fronteira, que este personagem atravessa por ímpeto, incorporando o pecado da fúria que contamina as almas da frustração masculina. “Embriagado de Amor” foi o antídoto perfeito à pretensão bíblica de “Magnólia”, uma curta e bizarra comédia romântica onde o olho de PT Anderson balança ao lado de Barry Egan (Sandler), empresário especializado em desentupidores de vaso sanitário. O cenário é trágico-cômico, se desenrolando o enredo em volta do insólito encontro de Barry com o harmônio, numa genial cena surrealista do diretor. Na história da ira fica também Philip Seymour Hoffman, gritando o melhor “Shut up!” do cinema, e sim, nessa competição está concorrendo Schwarzenegger em “Um Tira no Jardim de Infância”.

AVAREZA: “Sangue Negro” (2007)

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É oficial. O próximo filme do diretor vai ser o último na carreira de Daniel Day-Lewis, e isso devia ser obviamente a única coisa no “In Memoriam” dos Óscares. O filme vai se chamar “Phantom Thread” e o excitamento seria o mesmo se não fosse o último papel do ator, já que é o reencontro da dupla de “Sangue Negro”, o genial épico sobre a avareza e a concepção do American Dream. Seja ou não seu favorito, esta é a obra-prima de PT Anderson, nomeado para oito estatuetas e o melhor tratado cinematográfico sobre avidez desde que Oliver Stone escreveu a frase “avareza, na falta de melhor palavra, é bom, avareza é certo, avareza funciona” (“Wall Street: Poder e Cobiça”). O sovina é Daniel Plainview (Day-Lewis), um explorador de petróleo que engole uma cidade, criando uma rivalidade financeira e ideológica com o teimoso padre da região (Paul Dano). Quem vence, o pecado ou Deus? A resposta é complexa, e difícil de expressar em pensamento linear, ou como Daniel sugere, “ isto é um canudo, está vendo? Agora o meu canudo atravessa a sala e começa a beber seu milkshake. Eu..bebo..seu... milkshake!”

SOBERBA: “O Mestre” (2012)

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No velhinho seriado do Super-homem, tem aquela famosa sequência: “É um avião! É um pássaro! Não, é o Super-homem!”. Neste caso seria qualquer coisa como: É um filme sobre a cientologia! É uma reflexão dos EUA pós-guerra! Não, é “O Mestre”! No fundo é isso tudo, e é sobretudo uma demonstração de técnica imbatível por três atores no auge da carreira, Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman e Amy Adams. “Eu sou acima de tudo um homem, um homem desesperadamente inquisitivo , assim como você”, se apresenta Lancaster Dodd (Hoffman) a Freddie Quell (Phoenix), dando o primeiro passo numa relação complexa entre pupilo e mestre, religião e ateísmo, germinando uma tensão que só falta expressar sexualmente. A soberba pertence a Lancaster Dodd, personagem baseado em L. Ron Hubbard (criador da cientologia), que carrega seu orgulho e altivez sobre todos os terrestres, incapazes de entender a única verdade. Se quisesse ser soberbo, garantia que este é o melhor filme do diretor. Felizmente não sofro desse pecado capital.

PREGUIÇA: “Vício Inerente” (2014)

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Tomás de Aquino defendia que a preguiça é o pecado mais opressivo, tirando totalmente nossa capacidade de fazer o bem. Mas o que é “o bem” nos tumultuosos pós-anos 60, com a autoridade tradicional em cheque e as mentes de percepções alteradas? Outro Tomás, o Pynchon, escreveu como ninguém nesses tempos incertos, e apesar de não tirar o mérito ao pecado, tinha a tese que o futuro da humanidade é viver eternamente nessa preguiça, tornando relativa qualquer concepção de “atividade do bem”. “Vício Inerente” foi o primeiro filme adaptado da obra de Pynchon, e segue o preguiçoso Doc Sportello (Phoenix), detetive que vive numa nuvem de marola, que penetra a sua e nossa visão, com o enredo seguindo a perspetiva de alguém que tem dificuldade de assimilar a sequência dos dias passando. Aqui foi onde PT Anderson (e Phoenix) mais se divertiu, talvez a sua única comédia, sobretudo se pensarmos que no estado de preguiça inebriada de Doc Sportello, ele estava mesmo tentando fazer o bem. Como diria o outro, bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.


Luis de Freitas Branco

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