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Literatura e Cinema

Beatriz Biella Martins

"A literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, molda-a aos seus desígnios".
Oscar Wilde

Casmurro ou Dom? Dom Casmurro?

Afinal, o que é a literatura e como lidar com ela?
É um bicho de sete cabeças ou não é?


A literatura não é, pedagogicamente pontuando, uma disciplina isolada e particular; para acontecer ela depende não só de um esforço e gosto, mas também e principalmente de outras matérias que trazem para a realidade do aluno um universo do qual ele já está inserido há tempos, só ainda não tomou ciência. O “trabalho” de ler um texto deve ser feito de forma compartilhada.

Para a relação autor-leitor ficar mais clara, temos como objeto de estudo do artigo a ser lido a obra Dom Casmurro, uma das mais enigmáticas de Machado de Assis, publicada em 1899, integra a trilogia, junto com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891)

As outras obras que compõem a trilogia haviam sido divulgadas em periódicos e com Dom Casmurro isso foi diferente, pois ela começou a aparecer nas livrarias do Rio de Janeiro. À priori, temos a impressão de que o público a acolheu com o interesse no famoso relato de um amor desenganado e assim, parece superficialmente que a obra não avança. Para Halen Caldwell (1960), a obra incide sobre a natureza do ciúme que impregna Bentinho, o Dom Casmurro titular da fala e da visão do mundo da narrativa; o que nos remete então ao questionamento mais enigmático sobre a obra: Capitu traiu ou não?

O questionamento levantado, do porquê escrever um romance a respeito, se ele transfere a decisão sobre a culpa ou inocência ao leitor traz à tona o principal, perante aos olhos contemporâneos: residir na validade do texto, de forma com uma particular eficácia estética, valorizando a saída para o narrador, autonomia como instaurador de um universo próprio, remissão à necessidade verbal como fonte do ser.

Ler Dom Casmurro requer um esforço das duas partes, pois, como a maioria das obras, a narrativa presente é o único ato libertador possível, ou seja, ler nos transporta para outro universo. Para Barthes a arte de Machado de Assis faz-nos ver um duplo Dom Casmurro, uma dupla Capitolina e um Escobar ambíguo. A obra, por ser um texto literário e, assim, polivalente, falqueia muitas entradas. O cerne, pelo visto, constitui o ponto de vista do narrador, que se propõe viver, pela escrita, o vivido: “deste modo” – diz – “viverei o que vivi”, no capitulo dois. A partir desta anotação sobre o capitulo dois, podemos levantar a seguinte observação: o autor relata, nada mais nada menos, do que a realidade, porém, em muitos momentos faz mistérios sobre fatos que em nossa cabeça, durante a leitura, já temos certeza, mas como Barthes afirma, nem tudo é claro na vida ou nos livros.

Toda a galeria de personagens, coada por uma sensibilidade, busca projetar-se na consciência dos destinatários da mensagem, os leitores, completando-se o circuito da informação. Ou seja, a mensagem é transmitida através do discurso e texto, porém, depende também do leitor para que essa informação se concretize.

Para Lucas (2014), Dom Casmurro é um romance considerado filosófico, a obra se amolda a esta natureza; tem-se a relativa independência de certos capítulos, concentrados em determinadas alegorias, sejam morais ou filosóficas; observador em comentários do próprio Machado de Assis em capítulos únicos, como ele finaliza o capítulo Um soneto afirmando: Perde-se a vida, ganha-se a batalha / Ganha-se a batalha, perde-se a vida. (Págs. 95 e 96). Machado de Assis se torna magnifico e grandioso, talvez, por possuir um senso perfeito do processo literário, isto é, ele dialoga com seu leitor, articulando um enredo enquanto medita sobre a realização deste na sua forma verbal, até mesmo zombando do leitor, por exemplo em Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Prefere a anedota à reflexão”. O processo do relator, em Dom Casmurro, é de observador também, pois ele fraciona-se em várias partes e apela para a colaboração de todos os envolvidos, inclusive do leitor que tantas vezes é colocado como apostrofado. Um dos objetivos deste relator na obra é comover e deleitar o leitor, realizando para isso, o processo de enunciação, constantemente lembrando. Ora, enunciar é também viver – tempo e texto fluem no mesmo leito existencial.

Aqui cabe a seguinte anotação: em 2013, quando fiz uma entrevista para o departamento de Revistas Científicas da PUC-SP fui questionada sobre a diferença entre um livro e uma revista, não soube responder, porém, fui elucidada pela seguinte resposta: o tempo é o que difere um do outro; o tempo de leitura é essencial e pontual tanto para a revista quanto para o livro acontecerem.

Ana Maria Machado, em seu texto Alguns equívocos sobre leitura aponta justamente o erro que cometemos ao apresentar um texto em uma sala de aula, uma obra ou o que quer que seja.

A obra machadiana Dom Casmurro – Ed. Paulus, 2002 apresenta traços dos dois regimes de leitura, que, segundo Barthes são: direto à anedota, onde uma particularidade curiosa ou até mesmo jocosa acontece à margem dos eventos mais importantes e divulga pouco sobre as personagens da obra, incialmente, à exemplo disso Machado de Assis demora para descrever como é a personagem Capitu, anteriormente fazendo capítulos sobre Tio Cosme e D. Glória de forma individual e por outro lado, também temos a leitura que não deixa passar nada; ela pesa, cola-se ao texto como afirma Barthes e mesmo com assíndetos Machado consegue linkar os capítulos através de frases como (...) mas tudo cabe na mesma ópera (p. 17, cap. IX) e depois inicia o capítulo X até mesmo conversando com o leitor, criando uma relação próxima com o mesmo.

O professor, ao escolher uma obra para leitura de seus alunos, deve levar em conta a faixa etária, pois através disso, ele conseguirá escolher obras as quais tenham alguma relação próxima com a realidade dos alunos, fazendo com o que o texto se torne prazeroso, para então, inserir outras obras como Dom Casmurro, não mostrando mais sob a ótica da obrigatoriedade. O que MACHADO (2009, p. 51) afirma é que a educação pressupõe a presença do outro (ainda que eventualmente a distância, em videoconferência ou em texto escrito), frisando que a leitura é também uma forma de estar presente, uma superação dos limites da presença física, uma ampliação de oportunidade de diálogo.

O prazer de ler Machado de Assis está no jeito que Dom Casmurro é escrita, com todas as figuras de linguagem que o autor se vale, como por exemplo a ironia. Pode acontecer também como BARTHES (2010) afirma: Não é a pessoa do outro que me é necessária, é o espaço.


Beatriz Biella Martins

"A literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, molda-a aos seus desígnios". Oscar Wilde.
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