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Blog de crônicas e livros

Amanda Callian

Apenas alguém que leu demais para apenas continuar lendo, e em uma tarde qualquer, decidiu escrever algo que não começasse com "Era uma vez...".

A prisão que criamos por Bukowski em Cartas na Rua

Bukowski é visceral. Seu texto impacta até os mais inertes. Não há nada de morno em seu discurso. É aquele tipo de autor que você ama ou odeia. E a verdade é que ele vai estar pouco interessado nisso. Ele escreve, parafraseando-o, para salvar-se e não para salvar o mundo.


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A primeira frase do livro já desperta interesse no leitor: "Tudo começou com um erro.". As melhores histórias começam assim. O mais peculiar sobre “Cartas na Rua” é seu toque autobiográfico. O autor passou realmente parte da vida trabalhando nos Correios.

Nesta história temos o retrato da amargura de estar preso a um emprego desconfortável como carteiro substituto apenas para seguir vivendo. Repleta de ironia e sarcasmo, a publicação é do ano de 1971, primeiro romance do autor então com seus 51 anos.

Henry Chinaski aparece como seu alter ego, com narrativa fluída descrevendo pensamentos de uma mente pessimista e conformada com a realidade. Construída de maneira controversa e feita através de palavras embriagadas que denotam como vai direto ao ponto, sem preocupações em escolher o que utiliza para expressar o que tem a dizer. Resumidamente Bukowski não era de meias palavras.

Apesar da rotina maçante, o personagem principal sempre encontra meios furtivos de sair dela. Uma vida parte boêmia e parte dando duro. Tem uma perspectiva interessante sobre o trabalho. Destrinchar o que existe na filosofia obscura embutida em suas palavras, é como tentar traçar um paralelo entre a insanidade e a genialidade.

A passagem mais marcante que permite uma boa analogia é a dos periquitos engaiolados. Estes possuem o que podemos colocar como abrigo, e junto com ele comida, água, tudo o que é indispensável para sua sobrevivência. Em frente, fora da gaiola, está o desconhecido representado pelo céu infinito, que podemos desbravar.

Retrata a multiplicidade de escolhas que temos ao sair da zona de conforto na qual nos aprisionamos. Um questionamento, um momento de parar e refletir sobre o que estamos fazendo, onde estamos, onde queremos ir, o que gostamos e reparar se estamos felizes ou apenas seguindo o fluxo no qual nos colocamos como correto, o esperado. Lembrar onde está nosso sonho e quando tivemos nosso momento de flow mais recente.

Ele nos mostra sua simples filosofia que irá tomar para si no decorrer dos acontecimentos encadeados. A hesitação dos animais diante da possibilidade de ir além é inerente ao ser humano. Toda a confusão daquelas mentes limitadas os aproxima.

A poesia de Bukowski serve de apoio quando o assunto é não saber o que esperar. Do seu livro “O Amor é um Cão dos Diabos” publicado em 1977, 6 anos depois do que dá tema a este artigo, extraímos o poema “don’t forget/não esqueça” a seguir:

“Há sempre alguém ou algo esperando por você, algo mais forte, mais inteligente, mais maldoso, mais amável, mais durável, algo maior, algo melhor, algo pior, algo com olhos como o tigre, mandíbulas, como o tubarão, algo mais louco do que louco, mais são do que são. Há sempre algo ou alguém esperando por você enquanto você coloca seus sapatos ou enquanto você dorme ou como esvazia uma lata de lixo ou cuida do seu gato de estimação ou escova os dentes ou comemora um feriado. Há sempre alguém ou algo esperando por você. Guarde isto totalmente em sua mente assim quando isso acontecer estará tão pronto quanto possível. Enquanto isso, um bom dia para você se você ainda estiver aí. Eu penso que eu estou—Eu acabei de queimar meus dedos no cigarro.”

Abandonar o lado seguro nem sempre é o caminho mais fácil a ser percorrido. O principal tema de inspiração é não resumir-se e consumir-se apenas em um papel de assalariado criado pela nossa sociedade. Descobrir quem é, sua história, e encontrar seu propósito são alguns dos valores que norteiam a vida.


Amanda Callian

Apenas alguém que leu demais para apenas continuar lendo, e em uma tarde qualquer, decidiu escrever algo que não começasse com "Era uma vez...". .
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