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Blog de crônicas e livros

Amanda Callian

Apenas alguém que leu demais para apenas continuar lendo, e em uma tarde qualquer, decidiu escrever algo que não começasse com "Era uma vez...".

Afinal, Maquiavel era bom ou mau? Um paralelo com a política em House of Cards

O atemporal “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel serve para levantar a discussão sobre a influência de seu opúsculo nas atitudes do antagonista Frank Underwood em House of Cards. Seria este a personificação do adjetivo maquiavélico? Com um conteúdo disruptivo publicado após sua morte, a obra chegou a entrar no índex de livros proibidos pela igreja católica. Seu livro ficou reconhecido pela posteridade como um dos tratados políticos mais fundamentais.


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O atemporal “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel serve para levantar a discussão sobre a influência de seu opúsculo nas atitudes do antagonista Frank Underwood em House of Cards. Seria este a personificação do adjetivo maquiavélico? Com um conteúdo disruptivo publicado após sua morte, a obra chegou a entrar no índex de livros proibidos pela igreja católica. Seu livro ficou reconhecido pela posteridade como um dos tratados políticos mais fundamentais.

Jaques Rousseau afirmou que Maquiavel, fingindo dar lições aos Príncipes, deu grandes lições ao povo. Seu pensamento foi admirado por personalidades históricas tais como: Benito Mussolini, Francis Bacon e Napoleão Bonaparte. Sua obra, publicada há mais de cinco séculos tem papel fundamental na construção do entendimento do Estado e das relações de poder ainda hoje.

A leitura de “O Príncipe” requer uma preparação, uma camada de responsabilidade para investigar e questionar suas afirmativas e aplicabilidade nos dias atuais. Além disso, é importante ressaltar que é uma leitura densa, fator que deve ser considerado, pois o público-alvo era os burgueses letrados do século XVI. Na realidade, ela é mais bem compreendida como um relato de uma relação cultural, acordado dentro de um determinado contexto político, descrevendo um processo. Este é um dos motivos pelos quais sua obra é sempre tão atual. No sistema feudal, os príncipes terem poderes absolutos ocorria com frequência.

A leitura de seu texto pode ser uma ferramenta para galgar o poder, ou, como o próprio autor afirmava, um caminho para o Inferno quando quem o ler alcança-lo: “Alguns pensam que eu deveria ensinar aos homens o caminho do céu. Mas eu preferiria ensinar-lhe o caminho para o inferno, assim eles saberiam como desviar-se dele”. Como quase tudo na vida, a definição do malefício é o uso que se dá. Um carro pode ser um meio de transporte ou uma arma.

Nascido na Florença de 1469, em pleno movimento Renascentista, Maquiavel escreve sua obra-prima: “O Príncipe”, em 1513. No interior de seus 26 capítulos originais, e em 168 páginas pretende instruir como príncipes, sobretudo os mais novos, podem usar seu povo, sua influência, seu exército, e seu capital seja seu intuito conquistar ou até mesmo defender reinos como forma de conquistar e manter o poder. Seu autor foi um cortesão italiano da época. A obra foi dedicada ao magnífico Lorenzo de Médici (na época o Duque de Urbino) e escrita depois da dissolução do governo republicano e o retorno da família Médici ao poder. Maquiavel chega a preso acusado de conspiração e é perdoado pelo papa Leão X e se exila para escrever suas obras. Em sua defesa, Maquiavel afirma que sempre foi honesto e que sua pobreza era testemunho desta sua honestidade. Diz-se que foi escrito para impressionar o príncipe e conseguir um emprego. Não se sabe se sua obra foi entregue a ele ou mesmo lida.

A respeito de sua descendência, era filho de membros da antiga nobreza florentina, com pai advogado. Ocupou posições na chanceleria e em uma repartição pública. Para escrever o livro, imagina-se conversando durante horas com os homens do passado (da corte) questionando a razão de suas ações. Diz que dedicou-se durante 15 anos ao estudo da arte de governar e obteve experiência à custa dos outros. Falece em 1527, aos 58 anos, sem ter seu cargo pretendido. Devido ao contexto no qual a obra é produzida, podemos ver que Maquiavel na verdade pode ser considerado o que chamamos hoje de cientista social que realizou um trabalho utilizando-se do empirismo.

Tido como manipulador, e de ética relativista, Maquiavel pode ter sido mal interpretado. Reflexo disto é a expressão “maquiavélico”, advinda de seu sobrenome, utilizada para indicar maldade, malícia, comportamento inescrupuloso. Na realidade, ele compreendeu o espírito de sua época de forma singular, retratando as relações sociais estabelecidas. Descreveu as regras, ou a falta delas, nos jogos de poder que eram praticadas ao seu redor. Esta “dança das cadeiras” em busca do poder, os atos dos poderosos em relação aos humildes, suas articulações existiam até mesmo antes de seu nascimento e continuarão a existir enquanto houver política.

É importante observar que Maquiavel foi tido como o primeiro a entender que o poder não foi concedido por Deus, mas que é temporal. Suas frases célebres, tais como “É melhor ser temido do que ser amado”, e “tudo deve ser feito para atingir seus objetivos, desde que o rei esteja bem. Não importam quais meios foram usados”. A última ficando mais conhecida como: os fins justificam os meios. Ademais mostra a noção de que o príncipe deve não somente vigiar e ter cuidado com as desordens atuais, bem como com as futuras a fim de evitar com toda a cautela, porque previstas a tempo, facilmente lhes pode apaziguar, mas esperando que se avultem, o remédio não chega a tempo e o mal já se tornou incurável.

O livro contém as virtudes e os vícios intrínsecos ao comportamento dos governantes. Sugestões sobre moralidade e sobre a ética. Sobre a semelhança entre a fortuna e a mulher, conclui que o homem corajoso, ao invés de cauteloso, vencerá e terá ambas. Sobre a fé, diz que o homem que se permitisse influenciar pela fé, misericórdia, humanidade e integridade relacionada com a religião, estaria arruinado.

Frank Underwood (Kevi Spacey) almeja o poder a todo curso. Personagem ambicioso entende a política como um palco para bajulações e alianças, que devem ser feitas corretamente para crescer e atingir suas metas. Chega a afirmar que de todas as coisas as que tem alta consideração, regras não são uma delas. Utiliza, portanto, discurso maquiavélico. Para Maquiavel, a autoridade vem da habilidade do Príncipe de jogar com as oportunidades para manter seu poder adquirido, mesmo que a partir do crime. Sua visão é a de que o governante deve ter a astúcia da raposa e a força do leão. Portanto vale dissimular, ainda que suas mentiras jamais devam ser reveladas, pois isto implica na perda de credibilidade. Aqui o importante não é ser, mas sim parecer, ou seja, é necessária apenas uma virtude aparente. Por isso Underwood afirma que: "Nós não somos nada além daquilo que escolhemos revelar". Ele age sempre no fim em benefício próprio, sem importar-se com a moralidade.

Em House of Cards “os fins justificam os meios”. Na política de Underwood, alguns são mortos tratados apenas como cartas fora do baralho e para Maquiavel: “as violências devem ser feitas todas ao mesmo tempo, a fim de que seu gosto, persistindo menos tempo, ofenda menos”. Na sua ânsia por conquistar cada vez mais poderio, Frank pensa que “a estrada para o poder é coberta por hipocrisia… e baixas. Remorso, nunca”. Sua política passa longe da ética e é sedenta pelo pode, ele concorda implicitamente com a idéia de Maquiavel de que "Aquele que constrói sobre o povo constrói sobre a lama", uma idéia mais antidemocrática, porém sobre a qual ele realiza seu governo.

Sem sobra de dúvidas, os roteiristas da série beberam na fonte de Maquiavel, inclusive quando afirma que a “guerra não se evita, se adia”. Isto é colocado em prática, quando a guerra na série é tida apenas como mais uma carta na manga para manter as relações de poder. Quem sabe, Maquiavel não seria o livro de cabeceira deste grande líder da ficção?


Amanda Callian

Apenas alguém que leu demais para apenas continuar lendo, e em uma tarde qualquer, decidiu escrever algo que não começasse com "Era uma vez...". .
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