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Amanda Callian

Apenas alguém que leu demais para apenas continuar lendo, e em uma tarde qualquer, decidiu escrever algo que não começasse com "Era uma vez...".

Crueldade e Obediência: o caso do cãozinho do carrefour

Como o caso do cãozinho do Carrefour, a história do julgamento de Adoplh Eichmann e o experimento de Milgran se interligam para tentar explicar o lado obscuro do fenômeno social da obediência.


sausage-2678326_960_720.pngNa quarta-feira do dia 28 de novembro circulou pelas redes sociais a notícia de que um cão veio a óbito nas dependências do hipermercado Carrefour em Osasco. O fato causou comoção não só entre os internautas e acabou viralizando para fora dessas redes, reverberando em notícias nos principais veículos de informação tanto televisivos quanto impressos.

A princípio, informações davam conta de que o cachorro havia sido espancado e envenenado dentro do estabelecimento pelo segurança do local. A partir daí, houve uma mobilização para que o caso ocorrido na Avenida dos Autonomistas em Osasco tivesse um desfecho justo. O cãozinho havia sido abandonado no próprio hipermercado há aproximadamente uma semana. Conta-se que alguns funcionários o assistiam em relação a comida e água. Porém, a mando de seu superior responsável, o segurança do local teria espancado o animal a pauladas por conta de uma visita diretores da matriz na unidade. Diz-se que o ocorrido foi no período da manhã e o segurança foi liberado antes de seu horário para manter sua integridade a respeito da repercussão entre outros funcionários. Foi então que houve um pedido de socorro para o Centro de Controle de Zoonozes (CCZ) de Osasco. No chamado constava que o cão havia sido atropelado para justificar o estado no qual ele se encontrava (além dos vômitos causados por tentativa de envenenamento). Acontece que o cão não aguentou os graves ferimentos e faleceu.

Diante do ocorrido houve imagens publicadas em redes sociais, nas quais é possível ver o cachorro com patas traseiras feridas, além de manchas de sangue no chão do estabelecimento. O delegado do caso e deputado estadual, Bruno Lima, afirmou que possuem algumas testemunhas que confirmam o ato cruel e que identificaram o autor do crime. “Infelizmente a dor que o animal sofreu não temos como apagar e também a sua vida trazer de volta, mas seremos sua voz e lutaremos em seu nome”, declarou.Um inquérito foi instaurado para saber o que realmente aconteceu. O artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (nº 9.605/98) tem como crime as práticas de abuso, ferir ou mutilar animais domésticos, silvestres, nativos ou exóticos. Caso haja condenação, o indivíduo pode pegar uma pena de detenção de três meses a um ano, além de multa. Ativistas e a sociedade em geral tem se unido e protestos nos quais pedem boicote ao hipermercado e que este, além do segurança, responda judicialmente pela crueldade animal. Existe uma petição online que já conta com mais de 109 mil assinaturas em prol da justiça no caso. Na página oficial do Carrefour nas redes sociais a repercussão está gigantesca. Os usuários cobram um posicionamento e reforçam o repúdio pelo acontecido. Nas postagens da marca, também é possível ler o posicionamento deles a respeito do caso: “A rede informa que repudia veementemente qualquer tipo de maus-tratos. Esclarece ainda que, preventivamente, afastou a equipe responsável pela segurança do local no dia da ocorrência até que a rigorosa apuração em curso seja concluída e as devidas providências adotadas. Reforça também que, assim que notou a presença do animal nas dependências da loja, o acolheu, oferecendo água e comida, até que a equipe do Centro de Controle de Zoonoses de Osasco chegasse ao local para o devido atendimento.”

Houve ainda uma nova versão divulgada que inclui o fato de que a morte não tenha sido causada pelo segurança, mas sim pela utilização do enforcador no momento do socorro ao animal, versão esta que foi refutada pela Zoonoses de Osasco que diz que prestou atendimento ao animal acreditando que ele havia sido vítima de atropelamento. Informaram ainda que apenas dois dias após o episódio chegou a denúncia de que na verdade o cão teria sido espancado e envenenado, e não atropelado. O órgão alega ainda que a administração municipal vai acompanhar o inquérito policial que foi aberto para apurar o caso e que só será possível afirmar com clareza o que aconteceu com o cão após a conclusão das investigações.

Além da revolta, casos como esse fazem refletir a respeito da crueldade humana. Trazendo o questionamento: até que ponto as pessoas são capazes de chegar por acreditarem estar simplesmente seguindo ordens? O que remete ao estudo do lado obscuro da obediência investigado no experimento de Milgram -Stanley Milgran ( 1933 - 1984), doutor em psicologia social - que inicialmente queria responder o porquê dos soldados nazistas continuaram a cometer as atrocidades conhecidas tendo ciência da desumanidade de seus atos. Isto explora a relação das pessoas com a questão da autoridade. O experimento feito em Yale consistia em duplas de voluntários nas quais um fazia o papel do professor e o outro fazia o papel do aluno que errava várias questões de propósito. O que fazia o papel de professor, deveria aplicar um exercício de memorização no aluno. Caso o aluno errasse, ele deveria receber um choque que ia de 15 até 450 volts aplicado pelo professor através de um aparelho com os botões indicando as voltagens. Na medida em que os choques eram aplicados, muitos “alunos” pediam para parar e para sair do experimento, no entanto, quem fazia o papel de professor continuava pois era incentivado por autoridades da dita pesquisa. E do outro lado, um cúmplice do grupo dos cientistas fingindo dor. As principais críticas em relação ao estudo foi com a questão ética dele, já que muitos participantes acharam a experiência conflitante e altamente estressante.

Neste caso, não era uma simples pergunta a respeito do que fazer em determinada situação, mas sim, criar a situação e deixar que a interação fluísse: de um lado, conforme já dito, um recebendo os choques e os participantes do lado oposto infringindo a dor sem saber que era encenação. Foi concluído que para que atos malignos fossem feitos um dos principais requisitos seria isentar a responsabilidade da pessoa pelo ato e dar à outra pessoa em comando. Não houve nenhum tipo de coação, apenas o fato do cientista que conduziu o experimento demonstrando autoridade. Isso fez com que 66% das pessoas fossem até os níveis mais altos de choque (450V). O que o experimento concluiu foi que os nazistas não eram um bando de psicopatas, mas que foi identificado uma das constantes do comportamento social: a prontidão para obedecer à autoridade.

Nenhum dos participantes pediu para checar como ficaram os alunos no final do experimento. Foi feito[ um filme](https://www.youtube.com/watch?v=V6z-0L-fQKI) de Michael Almereyda sobre esse experimento que desenrola em paralelo o julgamento de Adoplh Eichmann, um dos principais organizadores do holocausto, que alegou obediência e que estava apenas seguindo ordens sem nunca ter parado para questionar. O seu recurso, publicado em 2016, não contradiz esta situação: "Existe a necessidade de desenhar uma linha entre os líderes responsáveis e as pessoas como eu que foram forçadas a servir como meros instrumentos nas mãos dos líderes", escreveu Eichmann. "Eu não era um líder responsável, e, como tal, não me sinto culpado." Eichmann foi enforcado depois de um longo julgamento, com recursos e pedido de clemência.

Um questionamento importante que trazemos para o mundo contemporâneo é a de como isso ainda está entranhado em nós de diversas formas e o quão importante é questionar o que fazemos e sobre o livre arbítrio. É importante ressaltar que tanto o experimento quanto o julgamento foram extremamente chocantes e polêmicos, tanto quanto o caso que vimos tão recentemente no hipermercado e Osasco. O que nos remete a questão: se o experimento fosse feito hoje, teria o mesmo resultado?


Amanda Callian

Apenas alguém que leu demais para apenas continuar lendo, e em uma tarde qualquer, decidiu escrever algo que não começasse com "Era uma vez...". .
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