blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Deus salve as rainhas

O segundo semestre de 2016 foi da Realeza inglesa: as rainhas Victoria e Elizabeth II ganharam séries-biografias. The Crown e Victoria tiveram graus bem diferentes de produção e divulgação, mas coincidem no respeito à Monarquia mais conhecida do planeta.


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Nenhuma família captura a imaginação e curiosidade como a da realeza britânica, uma soap opera da vida real. Fonte de gastos, mas também de renda para a outrora poderosa Inglaterra, os Royals são capitaneados por Elizabeth II desde 1952, década quando o Império desmoronava, a inflação era alta e o smog matou milhares em Londres, em dois ou três dias. Tudo isso é tematizado perifericamente na primeira temporada de The Crown, cujos dez episódios a Netflix liberou dia 4 de novembro. Caracteristicamente nessas representações, ficamos mais interessados sobre quem será o futuro secretário particular de Sua Majestade. E tem que ser assim, porque Lilibeth não tem poder para lidar com a inflação; ela não governa; o Primeiro-Ministro o faz em seu nome.

Filha do Rei George VI – aquele que o Discurso do Rei escondeu a simpatia por Hitler – Elizabeth só se tornou monarca, porque seu tio (também fã do Führer) abdicou do trono para se casar com uma divorciada ianque. No complexo labirinto protocolar da nobreza isso não é pouca coisa. Elizabeth foi catapultada de uma situação de anonimato para a de sucessora direta, significando que seria a chefona da Casa de Windsor. Teria que sacrificar sua vida e identidade pessoais em função do cargo de Rainha da monarquia mais famosa do planeta. O que sentia, pensava ou acreditava como indivíduo tinha que ser anulado em função da tradição e do mais adequado para a nação, constituição, igreja anglicana. Teria que aprender a demonstrar nada, a não opinar e engolir o grande sapo de não ter autonomia sequer para eleger seu secretário pessoal favorito.

É esse processo de aprendizagem que o roteiro de Peter Morgan – o mesmo d’A Rainha (2006) – reitera. Por não poder agir livremente, Elizabeth II é péssima personagem dramática, que necessita de emancipação para poder atuar como bem entenda, ou pelo menos dar a ilusão de que é como bem entenda. Presa a convenções e tradições e andando na corda b(o)amba – para que serve a Monarquia, efetivamente? – a monarca ainda por cima nem pode dar vazão ao que sente. Pesadelo para um roteirista, mas é por isso que Morgan batizou a série de A Coroa e não de Elizabeth II. A personagem central é a Monarquia; todas as pessoas em função dela são instrumentos para a sua manutenção. Com pompa e circunstância, a Monarquia reifica tudo.

A Princesa Margareth não pôde casar com quem quis e nem sua irmã pôde sancionar o casamento. Se o fizesse correria o risco de destruir a Monarquia. The Crown é bastante respeitosa e reiterativa com relação a isso e cabe ao espectador pensar que Margareth poderia ter largado os privilégios de ser Real, como seu tio o fez. Difícil, mas é uma sinuca de bico diferente do que ser mulher pobre no interior da Síria sob constante ataque.

Caso não se queira imaginar que algumas daquelas vidas poderiam ser distintas, resta mergulhar no brutal mundo do decoro e polidez palacianos e desfrutar da requintada produção, que não poupou verba. Tudo é irretocável; do vestuário à louça. Fãs de The Queen reconhecerão várias cenas semelhantes em locação e o turismo para a Escócia provavelmente se fortalecerá.

Buckingham Abbey

Com muito menos alarde internacional, a ITV exibiu os oito episódios iniciais de Victoria, entre agosto e outubro. Com especial de Natal gravado e promessa de segunda temporada, a primeira foi da ascensão ao trono ao primeiro parto. Vitorianos podiam ser recatados e fixados em morte, mas sua rainha pariu nove vidas. Príncipe Albert não negava fogo.

O longo reinado de Vitória é um dos mais simbolicamente importantes na história da Grã-Bretanha. O império atingiu seu apogeu e começou a decair durante seus mais de 60 anos no trono. Foi ela quem começou a “milenar” tradição dos casamentos reais como espetáculos públicos; quem instituiu Buckingham como moradia Real; quem popularizou o branco como cor preferencial para noivas e todo um longo esquema de cores para luto, após a morte prematura de seu amado Albert; quem transformou a Família Real de uma máquina extravagante de gastos em clã com deveres cívicos; quem popularizou paparicar animais de estimação e passar férias na Escócia. Ainda hoje vitoriano é adjetivo de conservador, moralmente severo, até mesmo hipócrita.

Não faltariam incidentes para a ITV fazer seu novelão aristocrático, mas decidiu deixar de fora o tifo de Sua Majestade, a invasão de Buckingham por dois desconhecidos, o fato de que Victoria teve que dividir um quarto com sua mãe mesmo vivendo em casas gigantescas. Imagine quanta pena eriçada isso não geraria. E sem problema inventar, supor que aconteceu, porque Victoria não está muito preocupada com a “verdade”.

Para não relembrar que a Casa de Windsor se originou no que hoje é a Alemanha, a Rainha não tem sotaque teutônico, apenas seu consorte. Na vida real, Edward Oxford não atirou contra Sua Majestade numa das vezes em que esta desafiadoramente saía para ver seus súditos, mas apenas ia visitar a mãe, que não vivia em Buckingham (mas claro que para uma série fica mais fácil que seja assim).

O roteiro de Daisy Goodwin e Guy Andrews não deixa de lado o estrondoso sucesso da ITV, Downton Abbey. O cozinheiro apaixona-se pela aia Marianne Skerret, proveniente de casa de má reputação. A verdadeira Sra. Skerret era de linhagem nobre impecável. Para que apelar assim, quando já há tanto material?

Nada disso estraga a série, apenas recomenda-se que se assista sem a costumeira crença de que se apareceu na tela foi desse o jeito que aconteceu. Não faria mal à Victoria deixar de ser apenas soap opera de época e explicar alguns usos e costumes que não são “por acaso”. Quando o cãozinho Dash ganha retrato só dele, a ideia não era apenas eternizar o animal, mas criar a imagem de uma monarca mais próxima dos comuns; foi a Rainha Vitória que iniciou essa tendência. Aliás, a série nem se deu ao trabalho de mencionar a famosa pintura.

Se você não tiver paciência para oito capítulos ou quiser guardar um resumo desta temporada para assistir antes de que a segunda comece, basta pegar o filme A Jovem Rainha Vitória (2009). Em cerca de hora e quarenta, terá tudo e um pouquinho mais do que acontece em Victoria, sem sua downtonabbeyice. E com roteiro de Julian Fellowes, o homem por trás de...Downton Abbey.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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