blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Kate Bush retorna com álbum ao vivo impecável

O registro da elogiada temporada de espetáculos no Apollo Theater, em 2014, é fascinante atestado do talento da inglesa, que reproduz no palco as filigranas de seu trabalho em estúdio.


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Kate Bush fez apenas uma turnê em sua carreira. A Tour Of Life - de 2 de abril a 13 de maio, de 1979 - foi sucesso de público e crítica com sua mistura de música, magia, dança e leituras. Até então, ninguém utilizara a tecnologia wireless no palco, permitindo que cantasse enquanto dançava. Exaustão e a morte de um técnico são possíveis razões para que desde então a mulher mais importante da história da música britânica apresente-se ao vivo apenas esporadicamente, quase sempre para promover álbuns, cada vez mais raros a partir de 1989. Longe dos palcos, Bush trancou-se em estúdios e produziu grandes e complexos discos. Conforme esses rareavam, suas aparições públicas também. Seu feroz sentido de privacidade, aliado à densidade da obra, originaram toda sorte de rumores em tempos onde celebridades se expõem cada vez mais. Kate Bush enlouqueceu; está morbidamente obesa; Kate Bush bebe.

A mística e o respeito são tão vastos, que quando Bush anunciou série de 22 espetáculos no Hammersmith Apollo Theatre, em Londres, em 2014, os ingressos esgotaram-se em minutos. No dia da abertura, 26 de agosto, fãs ansiosos na porta do teatro, não poucos vindos do exterior. Celebridades foram constantes durante a temporada de concertos. A imprensa saudou Before The Dawn como a Segunda Vinda; o crítico musical da BBC ainda não conseguia conter o entusiasmo na manhã seguinte, no programa Breakfast.

Prometeu-se CD/DVD de experiência, mas até agora só recebemos o primeiro formato. Before The Dawn foi lançado em CD triplo dia e não é aconselhável para quem busca um Greatest Hits Live. Não há nenhum trabalho dos quatro álbuns iniciais, o que significa que Wuthering Heights e Babooshka estão ausentes e mesmo dos álbuns que tiveram canções executadas, nem sempre as mais conhecidas estão na setlist.

Tecnicamente, Before The Dawn é irrepreensível. Felizmente a tecnologia permite que sons de estúdio sejam fielmente transpostos para o palco e para uma artista como Bush isso faz diferença. Ressaltando o trabalho em equipe, o álbum vem creditado para The K Fellowship. A Confraria K tem músicos do calibre de David Rhodes (guitarra) e Omar Hakim (bateria), mas quem manda é The Venerable Kate Bush, como dizem alguns setores da imprensa de sua terra natal. Ela controla sua carreira desde o início dos 80’s e Rhodes afirmou que no primeiro contato telefônico Bush já sabia o que queria.

Talvez por nunca ter feito turnês, sua voz continua perfeita; um tiquinho mais grave, mas é de esperar de uma mulher de 54 anos à época. Quem sabe não tenha sido excelente ideia deixar para trás a estridente Wuthering Heights? Assim, a manteremos na memória com aquela voz de menina, para a qual foi composta.

Consoante com a teatralidade do espetáculo – codirigido por Adrian Noble, ex-Royal Shakespeare Company – os CDs são nomeados como atos. O 1 traz canções “soltas” que não fazem parte de narrativa maior. Bush esnobou grandes sucessos, mas não foi boba quanto à ordem. Abrindo com a trinca Lily, Hounds Of Love e Joanni (um tantinho mais rápida que no álbum de 2005), a cantora ganha a plateia, que, verdade seja dita, provavelmente aplaudiria histérica se ela lesse uma receita de bolo. Artista e público estão extáticos, dá gosto ouvir. Running Up That Hill é tão idiossincrática, daquelas canções reconhecíveis no primeiro acorde, que seria estupidez mudá-la. Kate sabe que fãs a querem o mais próximo possível da experiência que arrepia desde 1985 e é assim que está em Before The Dawn. A plateia urra microssegundos após o músico botar o dedo no teclado. Extraordinário. A surpresa foi a introdução de Never Be Mine, ausente de qualquer noite de apresentação no Apollo. Significa que há material ensaiado e não usado e que pode ser lançado ou vazado?

O Ato II é a suíte The Ninth Wave, lado B de Hounds Of Love (1985). Constituída por curtas faixas interconectadas, é odisseia sônica em variados ritmos (tem até “sambinha japonês”), cheia de efeitos de estúdio. A misteriosa letra sobre a noite de uma náufraga, com alucinações e visões do passado e do futuro gerou inúmeras interpretações, que vão até para o lado da reencarnação. The Ninth Wave é atestado do controle que Bush sempre teve sobre sua direção artística. Não era para qualquer um ocupar lado inteiro de um LP com complexo trabalho conceitual, arriscando não vender muito. The Hounds Of Love chegou ao topo das paradas inglesas.

A responsabilidade para levar isso ao palco era enorme, mas nada se perdeu dos detalhes dos arranjos. A adição da faixa Little Light realça a agonia da mulher apavorada em alto-mar. Se há alguma “reclamação” é a presença da faixa dialogada Watching Them Without Her, que funcionou bem no espetáculo teatral, mas quebra o fluxo emocional para o público da plataforma apenas sonora. Relatos dão conta de que quando Kate desferiu o doce “Little light shining/Little light will guide them to me/My face is all lit up” ao piano, na abertura de And Dream Of Sheep, muitas lágrimas escorreram. Ouvir o ACT II explica perfeitamente o porquê e ao final ouvimos uma plateia que não cabia em si de encantamento.

O Ato III traz a suíte A Sky Of Honey, de Aerial (2005). Os madrigais de cordas e teclados, a profusão de pássaros e sinos, o estouro do flamenco – nessa sinestésica história de um dia ao ar livre – é tudo tão bem executado que mesmo quem não pôde ver o show intercala momentos de puro abandono na fluidez melódica, de pasmo por tanta expertise, de frenesi quando os violões espanhóis irrompem e a plateia explode em palmas. Irretocável e de encher os ouvidos como na versão de estúdio. De quebra, a inédita Tawny Moon, cantada pelo filho Bertie: a canção é linda, a voz do menino de 16 anos ainda precisa maturar. Encerrando, Cloudbursting, apoteose bombástica para uma plateia em transe que ovaciona espetáculo memorável.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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