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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

O dia mais importante do rei juan carlos, de espanha

Em 1981, militares tentam dar um golpe para derrubar a monarquia espanhola e reinstaurar a ditadura. Um eficiente telefilme espanhol mostra o papel decisivo do monarca espanhol para contornar a situação.


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Depois de décadas de terror franquista, a Espanha viu-se livre do Generalíssimo em 1975. Previamente escolhido pelo ditador, o Rei Juan Carlos assumiu o trono e seu governo foi referendado popularmente em 1978. Em 23 de fevereiro de 1981, enquanto o país ibérico engatinhava de volta à democracia, um grupo de militares tomou reféns todos os membros do Parlamento. A ação do monarca foi decisiva para frustrar o golpe: em um discurso na TV, Juan Carlos defendeu sem reservas a ordem democrática. Depois disso, sua popularidade explodiu, até entre comunistas, inimigos históricos da Monarquia.

A TV Espanhola (TVE) produziu caprichado telefilme em 2 partes sobre o episódio. Roteirizado por Helena Medina e dirigido por Silvia Quer, 23F: El Dia Más Difícil del Rey (2011) segue a linha de The Queen (2006), de Stephen Frears, humanizando a figura da família real espanhola. Eles choram, comem, amam os filhos, portanto são iguais a qualquer um. Em época de celebridades-joão-ninguém, de dificuldade em perceber abstrações e da falácia da morte da luta de classes é preciso cotidianizar tudo.

Contada sob o ponto de vista do Rei Juan Carlos, a minissérie mescla o político e o pessoal de forma muito competente. Os golpistas usavam o nome do rei para granjear apoio. Ao ser informado disso, um dos dilemas de Juanito (viu como ficamos íntimos de Sua Majestade?) é o temor por sua família caso o palácio fosse invadido, quando o monarca desmentisse os rebeldes. Mas, como a realeza nunca larga o osso, a Rainha Sofia mostra-se valente e disposta a enfrentar o que viesse.

O roteiro é criativo para incluir o infante Príncipe Felipe na trama e receber uma lição do que é o ofício de rei. Prometendo ajudar o filho em uma redação escolar sobre a profissão que deseja desempenhar quando adulto, Juan Carlos deixa o menino assistir a todo o desenrolar dos fatos, para que tenha dados para falar sobre a profissão que já fora designada a ele desde o nascimento.

Filmado prioritariamente em interiores e repleto de diálogos, 23F: El Dia Más Difícil del Rey dribla o tédio potencial com diálogos crispados, criando um verdadeiro thriller de câmara.

Os antidemocratas são representados como reacionários que são, porém, nunca como porcos ignorantes, característica que assolou muito da produção de cine e teatro ao longo de décadas. O roteiro pede que simpatizemos com o Rei, claro, mas os militares golpistas têm seus motivos, ainda que desprezíveis para amantes da liberdade, igualdade e fraternidade.

E como não ficar ao lado de Juanito, segura e nuançadamente interpretado pelo almodovariano Lluís Homar? Aliás, o elenco é composto predominantemente por atores de meia-idade. Ótimo ver isso nesta era de silicones e bíceps jovens.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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