blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

O horror nos tempos das redes sociais

Amizade Desfeita é um filme de horror mediado inteiramente pelas telas de computadores. Se a narrativa perde um bocado da possibilidade de assustar, por outro lado, torna-se formalmente interessante.


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Passamos cada vez mais tempo em frente a telas de PC e/ou smartphones, fazendo com que as interações sociais assumam outros contornos, certamente estudados por sociólogos e filósofos. A migração das mais tradicionais telonas cinematográficas e telinhas televisivas para os monitores computacionais e celulares não passa despercebida pelo cine e pela TV. Emm 2014, um dos melhores episódios da sitcom Modern Family foi todo em conversas num chat e o slahser film The Den uniu o subgênero dos found footage films ao mundo cibernético.

Ano passado, Amizade Desfeita (Unfriended, no original em inglês) juntou found footage film e slasher de fantasma numa narrativa bastante rigorosa formalmente, que utiliza apenas a tela de um computador. Criatividade nota 9, mas o resultado padece um pouco, porque o medo jamais se concretiza por estarmos numa mediação de terceiro grau: estamos vendo através de uma câmera algo gravado por outra(s) e isso dilui o bom do horror.

Há um ano, Laura Barns cometera suicídio depois que alguém postou um vídeo, onde a adolescente aparecia em situações vexatórias. Incitada a se matar em tudo quanto é rede social, ela seguiu os conselhos e o fez também para o mundo ver. Amizade Desfeita trata do lado mais destruidor do cyberbullying numa idade tão insegura, numa era quando se vive o risco, mas também o fascínio, de que nossa intimidade seja exposta. A rigor, trata-se de uma fábula sobre a extinção da privacidade.

Na noite de aniversário de seu passamento, cinco de seus amigos estão sozinhos em casa – slashers basicamente são sobre os perigos de jovens sem supervisão/proteção adulta -, mas online, conversando eletronicamente entre si. Via Skype, alguém começa a ameaçar, chantagear, revelar segredos, jogar um contra o outro, à medida que os elimina. Será o fantasma de Laura? Lógico que é.

Como sabemos que é found footage film, que tudo se passará na frente das câmeras de PCs - restritivas de movimento e escopo – e que a não ser que o roteirista tenha se drogado em demasia, a única entidade lógica para causar toda a comoção só podia ser o espírito de Laura se vingando via cyberspace, Amizade Desfeita carece de suspense para saber o que vai acontecer. Sobra o como acontece, mas nesse quesito o enredo também não é tão interessante, devido à restrição imposta pelas regras de filmagem que queriam tudo registrado pelas câmeras dos notebooks. Sendo assim, a atenção recai quase toda na forma, trunfo de Amizade Desfeita.

O roteiro de Nelson Greaves e a direção de Levan Gabriadze utilizam os ruídos, interfaces e possibilidades de sítios onipresentes nas vidas de bilhões: Facebook, Youtube, Instagram, Google. Múltiplas janelas abertas, conversas paralelas, exigindo do espectador atenção e vista boa para ler muito chat, nessa história que também se autoimpõe ser mostrada em tempo real. Tudo interessante, mas não dá para criar muito pavor com tanto tempo gasto com transferência de arquivos ou vídeos carregando.

Amizade Desfeita ficará datado tão celeremente quanto muda a rede, mas mesmo que não seja grande história de horror, sempre valerá a pena: agora para constatar a perícia formal dos realizadores e no futuro, como curiosidade arqueológica sobre como aqueles primitivos seres de 2015 se comunicavam.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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