blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

o sonho da casa própria na hungria comunista

O segundo filme do diretor Bélla Tarr é poderoso e desconfortável docudrama sobre a desumanização da Hungria subjugada pela União Soviética.


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Em 1979, o diretor húngaro Bélla Tarr dirigiu seu primeiro longa, antes de frequentar escola de cinema. Longe de apresentar o requinte formal de seus filmes futuros, Családi Tüzfészek não é menos poderoso ao apresentar uma espécie de docudrama sobre os efeitos devastadores da falta de moradia na Hungria comunista, forçada ao jugo soviético.

Uma tradução para o titulo seria Ninho Familiar. Se ninho conota aconchego e proteção, o realismo social de Tarr constrói um apartamento para dois onde coabitam três famílias aparentadas. Iren e sua filha vivem no apartamento do sogro do marido, enquanto o último serve o exército. O operário de meia-idade e sua amarga esposa não escondem de Iren o estorvo que representa à família. Quando o marido retorna, Iren tenta conseguir um apartamento, mas descobre que isso apenas seria possível dentro de no mínimo dois anos. A tensão aumenta, porque o sogro a acusa de infiel. Diante da intolerável situação em casa, a jovem decide partir com a filha para viver em dilapidado edifício invadido por outros sem-teto.

A montagem de Családi Tüzfészek justapõe as cenas como se foram quadros separados, que acrescentam novas dimensões aos tristes problemas pessoais causados pela falta de condições dignas de existência e pelo autoritarismo pseudocoletivista da Hungria, que em 1956, tentara sem sucesso rebelar-se contra a URSS. A pediatra recomenda ar puro e ambiente saudável à garotinha de Iren, para logo em seguida, assistirmos à cena onde o burocrata que trabalha no setor de distribuição de moradias diz à mãe que seu sonho de um canto próprio está longe de ser realizado e acrescentar que é pago para lhe dar aquela informação e não para condoer-se dos problemas dos requerentes. Em outra cena, descobrimos o real motivo da implicância do lascivo sogro com relação a Iren.

O tom documental de Családi Tüzfészek se faz sentir de diversos modos. Algumas cenas parecem mais depoimentos, uma vez que as impotentes personagens não estão efetivamente realizando trocas dialógicas. A câmera quase penetra nas personagens de tão próxima, causando intimidade, mas também desconforto. É como se o diretor enfiasse na nossa goela abaixo o desespero, os dedos besuntados de gordura e as lágrimas pingando do nariz das personagens. Esses closes tão próximos são especialmente claustrofóbicos no início, para que o espectador sinta o abarrotamento do minúsculo apartamento.

Em alguns momentos, pode-se mesmo ouvir o barulho da câmera, reforçando o caráter documental da obra. O austero branco e preto da filmografia realça o cinzento daquelas vidas despedaçadas.

Apesar de se notar que a não conexão entre as cenas reflete a falta de maestria do estreante diretor e também de certa propensão a criar personagens masculinos porcos e femininos algo mártires, Családi Tüzfészek é instigante. Duro de ver em seu rigor inexorável, não é boa pedida pra quem quer uma família de filme da Disney.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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