blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Retorno aos assassinos mascarados dos anos 80

A Netflix brasileira disponibilizou a primeira temporada de Slasher, que pode agradar a fãs dos assassinos mascarados dos anos 80, como Jason Vorhees e Michael Myers.


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A expansão das plataformas de produção e exibição de programas de TV significa pluralidade de conteúdos (tomara!); públicos menores, porque mais segmentados, e escassez de superproduções. Expectadores terão que se acostumar com produções mais modestas e elencos pouco ou não conhecidos. A fartura de opções na era do compartilhamento de arquivos faz com que muita gente desconheça a maioria do disponível. E cada vez mais canais produzem suas próprias séries, caso do a cabo norte-americano Chiller, especializado em horror e suspense, que, entre 4 de março e 15 de abril deste ano exibiu os 8 capítulos de Slasher.

Tendo como marco fundador Halloween (1978), de John Carpenter, os filmes slasher são um subgênero do terror envolvendo um assassino serial com máscara ou fantasia que vai coletando vítimas, até sua identidade ser revelada pelo protagonista (geralmente uma mulher, a final girl) que, após fugir o filme inteiro, acaba “matando” o vilão. As aspas justificam-se porque a possibilidade de fazer mais dinheiro com continuações implica que os serial killers frequentemente reviviam ou não morriam de verdade. O auge dos slasher films foi a primeira metade dos anos 1980, que empilhou cadáveres em Sexta-Feira 13, Dia dos Namorados Macabro, Natal Sangrento e tantas outras.

Slasher começa na noite do Halloween, de 1988, quando um mascarado executa um casal na pacata e pequena Waterbury. Décadas depois, Sarah, filha dos mortos, retorna á propriedade para exorcizar seus demônios pessoais e, no dia seguinte, o Executioner começa a atacar novamente. Sabe-se que é um copycat, porque o assassino original está na penitenciária e, numa vibe Hannibal Lecter, ajudará Sarah a descobrir e combater essa versão 2.0, que baseia sua matança nos Sete Pecados Capitais (luxúria, gula, avareza, ira, soberba, vaidade, preguiça).

A verba limitada dá a impressão de que algumas tomadas são como filminhos feitos por fãs, abundantes no Youtube pra qualquer tipo de filme de horror/sci fi. A música incidental composta de teclado num ronronar ameaçador às vezes empresta suspense a cenas que não têm nenhum, como uma simples refeição. Para matar tempo – a mini poderia ter seis capítulos de boa – certas cenas são alongadas ou até desnecessárias, impregnando o ar com cheiro de encheção de linguiça.

Malgrado esses defeitos, Slasher faz um decente serviço para fãs de slashers clássicos, safra 80’s. Se o formato série liquefaz a tensão, permite que cada vítima tenha sua vida pregressa retomada, assim, entendemos como cometeu o pecado capital que lhe custou a vida. Para os conhecedores das convenções do subgênero, intuir a identidade do Executioner não será difícil. Algumas mortes são divertidas e até bem gore, embora criatividade seja preferível à nojeira. Se houvesse mais grana, talvez houvesse mais mortes mirabolantes como a da serra elétrica. A produção se esforça para cumprir todas as cotas existentes. Nos primeiros 15 minutos somos apresentados a casais biétnico e gay, chefa asiática e capítulos adiante a casal lésbico. Só faltaram deficientes e americanos-nativos. Waterbury é um buraco que ninguém conhece, mas tem espaço para galeria de arte que vive cheia e até restaurantes de luxo.

A melhor série slasher continua sendo Harper’s Island, produção de 2009, do canal CBS, mas Slasher fez mais bonito com aparentemente menos recursos do que as atuais Scream ou Scream Queens.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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