blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Sangue, suor e...pus

Sem alterar a mitologia criada por Sam Raimi no cult classic The Evil Dead, as duas temporadas de Ash Vs. Evil Dead trazem farto horror, humor, rock'n'roll e, claro, o impagável Ash!


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Em 1981, jovens entusiastas de cine (d)e horror lançaram produção de baixo orçamento que reviraria estômagos, praticamente inauguraria um sub-subgênero, catapultaria o diretor Sam Raimi ao superestrelato dirigindo filmes “sérios” i.e. de grande orçamento para Hollywood e revelaria ator/personagem ícone, na pele do babaca Bruce Campbell/Ash Williams; basta assistir a uma dessas convenções para fãs de horror no Youtube para constatar como Bruce encarnou Ash.

Uma Noite Alucinante: a Morte do Demônio, como traduzido no Brasil, circulou no underground por anos, juntando público cult fiel, entusiasmado de ver o festival de meleca exagerada e temperada com humor, tudo de gosto muito duvidoso. The Evil Dead é uma das poucas franquias onde o horror não é aguado pelo humor. Jovens vão passar o fim de semana numa cabana isolada na floresta. Lá acham o Necronomicon Ex-Mortis, livro sumeriano encadernado em pele humana e escrito em sangue, que desperta demônios ao ser lido. Não demora para a carnificina começar. The Evil Dead não é legal apenas porque inovou o horror, mas em aspectos técnicos e narrativos Raimi esbanja criatividade e hormônios jovens a mil.

Duas sequências e uma refilmagem não mataram a sede de sangue e pus dos fãs. Segundo Campbell, esses o tem infernizado há anos por mais Ash, mais Evil Dead. Pois na noite do Halloween de 2015, o canal estadunidense Starz começou a saciar essa síndrome de abstinência com os dez capítulos de meia hora de Ash vs. Evil Dead, que tiveram o envolvimento de todo mundo do original e a adição de delícias trash como a neozelandesa Lucy Lawless, de fama mundial pelo papel-título na série Xena, Princesa Guerreira.

Praticamente unanimidade entre críticos, Ash vs. Evil Dead é deleite do começo ao fim; não há falhas. Roteiro e produção não mexem com a mitologia original; tudo é como na franquia The Evil Dead. A trilha sonora é rock setentista para reforçar que Ash não caminhou no tempo; o carro é vintage (nome hip para lata-velha); as armas que usa são iguais e o ritmo é a alucinante sucessão de demônios aparecendo, Ash picotando-os com sua serra elétrica, fazendo algum gracejo e bora lá para o próximo diabo.

Bem à moda Ash, ele estupidamente conjura os habitantes das profundas e a diversão começa. Em época de inclusão televisiva, ele tem dois ajudantes; um latino e uma judia e envolve-se com uma policial negra. Porém, Ash é herói, mas não exemplo, então não há que temer diluição no gore e no humor (auto-)depreciativo. Ao arrombar uma porta, ele solta para a companheira: “se quiser, posso te arrombar também”. Esse é o tão querido Ash babaca; como resistir à simpatia arrogante?

Um dos segredos de The Evil Dead e, consequentemente, da série, é o exagero, que tinge tudo de humor e irrealidade. Os jorros de sangue na fuça do espectador e dos personagens acabam sendo quase engraçados e a insuportabilidade ashiana rende boas risadas e permite certa identificação pós-moderna com o herói – liberado da necessidade de ser apolíneo – no sentido que qualquer zé-ruela pode ser um.

Entre outubro e dezembro deste ano, a Starz exibiu a dezena de capítulos da segunda temporada. Em time aclamado e vencedor não se deve mexer, por isso, os roteiristas trataram de manter a alucinante zoeira, mas adicionaram história pregressa para Ash, que retorna à cidade natal e encontra seu pai (Lee Majors, o Homem de Seis Milhões de Dólares, dos anos 70!). No meio da temporada há certo declínio de interesse, mas nada tão sério a ponto de comprometer o show e colocar em risco a já garantida terceira temporada.

O Necromicom some e Ash, Pablo, Kelly e Ruby partem em seu encalço, passando por um manicômio abandonado, necrotérios e finalmente, retornando à cabana na floresta onde tudo começou, numa viagem que não se restringe apenas à dimensão geográfica. Jorros, jatos, explosões de fluidos corporais de toda espécie tingem a tela e a cara de todos de vermelho, marrom e amarelado. A sequência do ataque de um demônio a Ash no IML é tão grotesca que é praticamente impossível não gargalhar. Mais exagerada que a fornada inicial, o tom histérico de Ash vs. Evil Dead realmente não amedronta, porque destituído de suspense; esse horror vai mais no nojo e em fazer rir. A trilha-sonora incorporou a importância que a década de 1980 ganha e o leque expande do rock de arena do Journey à baba aeróbica de Olivia Newton-John.

Se seu estômago é forte e seu senso de humor não se ofende facilmente com piadas politicamente incorretas, Ash Vs. Evil Dead vai te agradar.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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