blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

The Mission lançou seu melhor álbum em décadas

Another Fall From Grace soa como o elo perdido entre o The Mission e o Sisters Of Mercy. Parece gravado em 1986, mas com produção atual.


TheMission.jpg

Depois do choque punk de 1977, um subgênero lúgubre se desenvolveu no hemisfério norte, mormente no Reino Unido. Influenciadas por Velvet Underground, Nico, Doors, glam rock e Sex Pistols, bandas como Bauhaus, Cure, Siouxsie And The Banshees, Joy Division pesaram em letras, sonoridade e maquiagem sombrias. Logo a imprensa começou a falar em gothic rock. Embora esses grupos não aceitem o rótulo, todos apresentavam algum(ns) elemento(s) básico(s) do estilo: baixo grosso, teclados e guitarras gélidas e sobrepostas, letras dignas de desespero Romântico, vestimentas e maquiagem pretas/cadavéricas.

No começo dos 80’s, a meca gótica era o clube londrino Batcave e a cena contava com bandas tipo Southern Death Cult (mais tarde, o hard rock The Cult), Sex Gang Children, Alien Sex Fiend, Cocteau Twins (fase inicial), Fields Of The Nephilim e no continente nomes como o holandês Clan Of Xymox e o alemão Xmal Deutschland.

Um dos góticos mais bem-sucedidos comercialmente foi o The Sisters Of Mercy, que sob o despotismo de Andrew Eldritch, estreou numa grande gravadora em 1985, com First and Last And Always, que chegou a ser lançado no Brasil. Descrito numa revista de rock brasuca da época como “discoteca para vampiros”, o grupo já estava rachado quando das gravações do álbum, em 84. Meses após o lançamento, o baixista Craig Adams e o guitarrista/vocalista de apoio Wayne Hussey saíram para formar o The Sisterhood, cujo nome aproveitava a fama do Sisters. Eldritch judicializou a questão e Adams/Hussey foram proibidos de gravar sob aquele nome.

Hussey e Adams escolheram a alcunha The Mission, convidaram Mick Brown (bateria) e Simon Hinkler (guitarra), clarearam o gótico e em novembro de 1986 estrearam com God’s Own Medicine, que gerou o delicioso hit Severina. Nunca sucesso de massa ou apreciado pela crítica, o The Mission passou a segunda metade dos 80’s e o começo dos 90’s indo decentemente bem nas paradas e turnês, com sua bombástica superprodução típica da época. Britpop, grunge, desavenças internas, envelhecimento, hiatos tornaram o The Mission perceptível apenas para sua base de fãs, contumazes oitentistas ou para quem segue imprensa musical mais específica, mas os álbuns de vez em quando aconteciam.

Comemorando o trigésimo aniversário, os britânicos lançaram seu décimo LP dia 30 de setembro. Another Fall From Grace soa como se gravado em 1986. Com Mike Kelly na bateria, o quarteto fez seu melhor álbum em décadas. Dispensando o excesso melodramático, a banda voltou com peso sem exagero e tem hora que lembra até U2.

Another Fall From Grace começa com a faixa-título que já abre o empoeirado (não no mau sentido; os góticos devem adorar velharia de sótão) baú de tiques góticos: baladona arrastada com bateria pesada à Doktor Avalanche, mas não mais eletrônica; baixo lúgubre e grosso à Joy Division; violão de 12 cordas dedilhado. A voz de Wayne engrossou e quem o ouviu pela última vez em Severina ou Tower Of Strenght estranhará um pouco, mas são 30 anos nas cordas vocais. Mas, ele ainda consegue cantar legal e quando precisa vai do sussurro ao berro. Em vários momentos, lembra Bono Vox.

A energética Met-Amor-Phosis diz que há uma nova estrela negra brilhando nos céus, alusão ao álbum derradeiro de David Bowie, cujo vocal grave foi amplamente apropriado por gerações de góticos. Será que o único desvio da cartilha gótica comercial, Phantom Pain, também deve ao último álbum do Camaleão? Sua eletrônica em borbulhas e seu sax de free jazz dissonante lembram alguns climas de Darkstar, mas fazem o The Mission soar meio King Crimson gótico. Louvável e aventureira para uma banda tão idosa e com decrescente base de fãs, não necessariamente interessados em mudança no rumo de seu grupo favorito, quando todos já se aproximam ou passaram bem dos 50. Interessante, mas se o álbum fosse nessa toada seria meio tedioso. Mas, o resto de Another Fall From Grace é como um coturno velho, confortável de usar, mas não detonado, porque a produção evitou soar datada. É quase como se uma banda mais jovem gravasse influenciada pelo Sisters/Mission biênio 85-6.

As letras mantêm os fantasmas, noites escuras e tempo climática e emocionalmente cinzentos. Within The Deepest Darkness (Fearful) é Na Mais Profunda Escuridão (Amedrontado). Não precisaria explicar mais, mas compensa ouvir a lúgubre balada que tem sussurros e gritos abafados de Martin Gore (Depeche Mode) e Gary Numan no fundo. Só mesmo a pose gótica do The Mission para transformar viagem pelas estradas californianas em depressão à Poe, como em Can’t See the Ocean for The Rain.

Para se juntar à galeria das mulheres idealizadas do Romantismo pós-tardio dos góticos, que além da mais popenta Severina, nos deixou Charlottes (The Cure), Marions (Sisters of Mercy) e Rebeccas (Big Eectric Cat), o Mission nos apresenta Jade, que com sua colcha de teclados, baixo e guitarras dedilhados, jamais dorme só, mas também não pode existir. E se estamos numa cruza de Sisters com Mission safra 85-6, vocalizações à Severina não poderiam faltar, cortesia de Julianne Regan, na intensa balada Never’s Longer Than Forever. A fixação pelo orientalismo zeppeliniano, culpa de muitos dos micos pagos sonicamente no auge da banda, reaparece no teclado de Bullets and Bayonets, felizmente em tom mais discreto. A letra é sobre regicídio, revolução, quer mais Lord Byron?

Em meio a tantas power ballads e mid-tempos, o único rock acelerado é Tyrany Of Secrets, certamente um dos pontos altos dos shows daqui para frente e melhor faixa de Another Fall From Grace. Wayne ainda tem gogó para urrar nesse cruzamento perfeito de First And Last And Always e God’s Own Medicine. Dá vontade de vestir preto, chapéu, óculos-escuros e dançar encarando uma parede num porão gótico enfumaçado no escuro inverno do norte inglês.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/musica// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Roberto Bíscaro
Site Meter