blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

a criada chilena

La Nana é uma pequena joia do cinema chileno, tratando da relação patrões-empregadas domésticas e com magistral atuação da atriz Catalina Saavedra.


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Resquícios do passado escravista latino-americano podem ser facilmente detectados em nossas relações sociais, especialmente no caso do relacionamento entre patrões e empregadas domésticas, quase sempre dúbio e muito complicado. Ao mesmo tempo que os sapatos e roupas passados dos filhos da patroa para os da empregada são sinais de solidariedade, também são lembretes da hierarquia de classe. Ademais, como recusar ir á casa da patroa no domingo – fora do horário de serviço, portanto – para arrumar a bagunça do jantar de sábado à noite com os amigos, quando a senhora deixa-lhe levar para casa as sobras? Lealdade, amor, ódio, admiração, revolta. Não se trata de apontar mocinhos ou bandidos, apenas de registrar o complexo do fenômeno.

La Nana (2009) é um filme chileno que trata dessa atmosfera latino-americana do serviço doméstico onde as barreiras entre vida familiar e profissional são borradas, com consequências no mínimo estressantes, para ambos os lados.

Raquel vive com uma família de classe média há 23 anos. Julga-se “da família”, afinal, criou as crianças, é autônoma para ralhar com elas quando preciso e estabelece sua rotina como lhe apetece. Mas, faz as refeições na cozinha e a família lhe fecha a porta na cara, quando quer tratar de assunto particular. Entretanto, dentro dos padrões latino-americanos de relacionamento servente-patrão, pode-se dizer que a família a trata “bem’: a patroa recusa-se terminantemente sequer cogitar a dispensa da serviçal, em face de escaramuças domésticas. O diretor Sebastian Silva é de uma sutileza extrema ao mostrar esse amor que fecha portas e faz festas de aniversário, chamando a homenageada ao toque duma sineta.

Aos 41 anos e dedicando-se de corpo e alma aos patrões, Raquel é infeliz e somatiza a anulação de seu eu, padecendo de fortes dores de cabeça e desmaios. A tensão entre amor e ressentimento é grande demais para não deixar sequelas físicas na criada virgem e desvinculada de sua própria família.

A patroa decide contratar ajudante para Raquel, que, a despeito da estafa, sente-se ciumenta, traída e ameaçada. Resultado: torna a vida das colegas de trabalho um verdadeiro inferno, trancando-as para fora de casa e fazendo toda sorte de birras, que sobram até para um gatinho trazido pela filha da patroa, com a qual Raquel estava em atrito. Raquel também não é santa! Silva não cai na fácil e mendiga dicotomia bem versus mal.

A chegada de uma coempregada que literalmente peita Raquel, mostra a ela como é importante, saudável, desejável e profissional manter vida privada á parte da dos patrões, que, afinal, jamais serão sua família. Da constatação de que podia e devia ter vida própria, nascerá Raquel mais leve, que fará até jogging ouvindo mp3 player.

La Nana é triunfo da sutileza e da inteligência. Filmado praticamente quase todo numa locação (a casa), com câmera na mão, balançando e se enfiando na cara dos atores - deformando-as e mostrando suas rugas e imperfeições, mas acima de tudo, suas expressões – o filme dá a impressão de um desses vídeos caseiros, sem trilha sonora e com letreiros de abertura e final feitos não profissionalmente no computador.

Fundamental para esse sucesso é a devastadora performance de Catalina Saavedra. Ela não deixa pedra sobre pedra, sendo capaz de comunicar a intrincada gama de emoções da personagem com maestria, mas sem fogos de artifício.

La Nana provavelmente não agradará aos que querem câmera “certinha”, ações mirabolantes e diálogos-cabeça. As falas, ações e enquadramentos são do cotidiano, e possuem sua força, que por vezes passa despercebida.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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