blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

A downton abbey que não foi

The Halcyon tentou recriar a magia glamurosa e escapista de Downton Abbey, mas não conseguiu.


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Desde o término de Downton Abbey, órfãos e a ITV têm buscado substituta. Os primeiros para sonharem com um mundo de glamour, escapando do saturado cotidiano da perigosa pós-modernidade líquida. A emissora britânica para repetir o sólido lucro de um produto exportável para dezenas de países e licenciável para enxurrada de produtos. Os oito episódios da temporada primeira de The Halcyon, exibidos em janeiro e fevereiro, não tiveram outro objetivo senão fornecer à rede britânica sua nova série de época lucrativa. Criada por Charlotte Jones, The Halcyon se passa num luxuoso hotel homônimo de Londres, no ano de 1940, quando os alemães efetivamente começam a ameaçar a Inglaterra, a Segunda Guerra passa a fazer parte do cotidiano britânico e a capital do antigo império começa a sofrer monumentais bombardeios pela aviação nazista. E pensar que gente poderosa do governo, da Família Real e famosos nutriram simpatias hitleristas. Hoje, isso está convenientemente “esquecido”, a não ser quando, no caso da ficção, precisa-se de elemento negativo para personagem da época. The Halcyon não fugiria dessa regra.

Como em Downton Abbey, Downton Hotel, digo The Halcyon, coloca num mesmo vasto, mas dividido, ambiente, personagens de distintas classes sociais e desenvolve tramas entre eles, com muito conflito folhetinesco. Há relacionamento amoroso intergeracional, interclasses, interétnico, intergênero; dá para escolher a transgressão. Embora alguns desses temas pudessem ter sido aprofundados para tentar fingir certa relevância social à série, The Halcyon tencionava mesmo entreter escapistamente, então tudo é tipo carcará: pega, mata e come. Não há tempo para análise ou problematização, mesmo que rasas. É só novela chique. E taca chantagem, lady esnobe, muitos segredos e, para dar a ilusão de cooperação de classes, o povo da cozinha aparece em sua faina diária.

A produção é esmerada e opulenta, embora a situação seja absurda. O centro de The Halcyon é o gerente, mais poderoso e com maior rede de contatos que os lordes a quem serve. A série foi mesmo feita para sonhar delirando.

Mas, o público inglês fazia checkout do hotel a cada semana e os índices de audiência pioraram. Talvez nem tanto por The Halcyon implorar quase chorando para ser a nova Downton Abbey, mas por ser difícil conectar-se de verdade com alguma personagem. É tudo muito bem atuado, mas não há nenhuma pessoa pela qual desenvolvamos real afeição. Quem não se lembra de diversos nomes de personagens de Downton Abbey? Logo na primeira temporada, milhões já se apaixonaram por Mr. Bates ou The Dowager Countess Of Grantham. E que show mata logo no primeiro capítulo um lorde que poderia ser um vilão delicioso, apenas para seu filho mais velho ser promovido a lorde, mas isso não ter importância alguma no enredo, porque ele passa a maior parte do tempo fora da telinha, alistado na força aérea?

Dá para perdoar a canção-tema, mais para Massive Attack do que para swing anos 40, dá até para simpatizar com Toby ou Emma Garland, mas não para torcer por eles, muito menos amá-los, como ainda amamos Mrs. Hughes ou Mrs. Patmore. Por isso, a ITV fechou The Haclyon e não haverá segunda temporada.

Como ficaram vários fios soltos, porque os criadores não esperavam o cancelamento, não dá para recomendar, a não ser que você precise desesperadamente de uma válvula de escape.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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