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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

A Superação do Tio Charlie

Bem-sucedido nos anos 80, Charlie Wilson acabou na sarjeta nos anos 90. Conheça sua história e seu novo álbum.


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Nada incomum entre artistas negros, a carreira de Charlie Wilson começou na igreja em que seu pai era reverendo, em Tulsa, Oklahoma. Com seus irmãos Ronnie e Robert, Charlie se apresentava no templo, e em 1967 formaram grupo secular, a The Gap Band. Nos 1970’s, faziam funk como de costume na época. O sucesso veio apenas em 1979, quando popificaram a sonoridade. Pelos próximos dez anos, a Gap Band foi presença constante nas paradas de R’n’B da Billboard e mesmo na cobiçada Hot 100. Artistas atuais como R. Kelly se dizem influenciados pelo estilo vocal de Charlie Wilson, que deixou a Gap Band em 1992, quando a banda já fora superada por gerações mais jovens, com outros interesses, sons e referenciais.

You Turn My Life Around, seu LP de estreia, não foi bem nem nas paradas R’n’B, atingindo apenas o 42º posto. O que realmente revirou a vida do músico, porém, foram o álcool e o crack. A queda de Charlie Wilson foi tão funda que não demorou muito para que tivesse perdido tudo – ele diz que durante o auge da Gap Band, não faturara tanto assim, na verdade – e se encontrasse na sarjeta, dormindo no famoso Hollywood Boulevard, em Los Angeles. Com os parcos pertences guardados em um carrinho de supermercado, certo dia recebeu a visita de uma prima na calçada, que lhe segurou um espelho para que visse o estado em que estava, mas se recusava a admitir. Charlie desatou a chorar, quando viu a devastação que as substâncias químicas causaram em sua pele e rosto.

Inscreveu-se em programa de reabilitação, onde a assistente social Mahin Tat foi fundamental em ajudá-lo a suportar a abstinência e reintegrá-lo à sociedade. Tão importante seu papel, que os dois se casaram em 1995. Aos poucos, colaborações com artistas surgiam e em 2000 Wilson retomou a carreira-solo com o álbum Bridging The Gap. Desde então, Charlie Wilson continua sóbrio, casado com Tat, trabalhando muito com artistas da moda como Kanye West e Justin Timberlake, lançando álbuns, sendo homenageado pela importância de seu trabalho, frequentando as paradas R’n’B e até lançando a autobiografia I Am Charlie Wilson.

Dia 17 de fevereiro, saiu In It To Win It, seu oitavo trabalho solo, que continua em grande estilo sua história de superação, uma vez que entrou direto na sétima posição da Hot 200 da Billboard. As treze canções não tentam encontrar nova direção para a carreira do sexagenário, nem mergulham numa viagem saudosista audível apenas para fãs dos anos 70/80. In It To Win It é moderna coleção de R’n’Bs e gospels muito bem produzidos, que podem agradar a diversas gerações.

Embora sóbrio há mais de duas décadas, Wilson ainda agradece a Deus como se sua redenção tivesse ocorrido mês passado. Números gospels como Blessed e Amazing God testemunham essa gratidão e a influência religiosa animada de New Addiction secularizam as graças, agora dadas à garota que pode se tornar seu novo vício. In It To Win it é soul autobiográfico, mencionando a infância na igreja, o racismo enfrentado e o professor da faculdade que previu sua queda para a sarjeta. Mas é tudo em clima positivo, de dedos estalando e acreditando que dificuldades podem ser superadas.

Snoop Dogg apelidou Wilson de Uncle Charlie, alcunha que o artista adotou de bom grado. Num LP cheio de convidados, Dogg é um deles na atmosférica Gold Rush, onde faz rap numa canção sobre sexo. E como branquelos tipo Blondie e Malcolm McLaren ensinaram ouvintes branquelos a aceitarem o hip hop nos distantes 80’s, mesmo fãs da época da Gap Band não estranharão em nada os rapinhos de Pitbull na sassaricante Good Time (puro Charm início dos 80’s, tem até woo uh fininho e palma) ou de Wiz Khalifa, na midtempo deslizante Us Trust (My name’s Uncle Charlie...). Robin Thicke, a versão século XXI de blue-eyed soulman à Paul Young, esvazia os pulmões em Smile for Me.

O pináculo das participações, sem dúvida, é Made For Love, duetaço com Lalah Hathaway, que embora soe moderna, não falhará em lembrar os ouvintes mais idosos às grandes baladas black de fim dos 70’s e começo dos 80’s. E de baladas In It To Win It não se ressente: confira Precious Love e as harmonias incríveis de Chills.

É torcer para que a história de superação do Tio Charlie continue rendendo álbuns eficientes como In It To Win It. Ele continuará agradecendo a Deus e os ouvintes a Charlie Wilson.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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