blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Adeus, Adam West, meu eterno Batman

Impressões ao rever o clássico seriado de TV, décadas depois da infância.


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Dia 9 de junho, o ator Adam West faleceu devido à leucemia, aos 88 anos. As novas gerações talvez nem façam ideia de quem tenha sido o norte-americano, mas quando enviei o link da notícia para um amigo de 55 anos, sua resposta veio célere: “esse era o Batman de verdade”. Para quem cresceu no Brasil nos anos 1970, penso que essa máxima será muito comum. A despeito das dispendiosas produções hollywoodianas, nosso Homem-Morcego predileto e definitivo ainda é aquele que vivia feliz com seu Boy-Magia, digo, Menino-Prodígio, na colorida e psicodélica Gothan City de baixo orçamento, dos anos 60.

Quando eu tinha entre 8 e 12 anos, adorava o seriado do Batman. Creio que a última vez que assistira a um episódio, devia ter aquela idade, depois nem sei se as emissoras transmitiam a Dupla Dinâmica. Na meninice, percebia o show como de aventura, sem nenhum toque de humor. 35 anos mais tarde, vi os 120 episódios que constituem as 3 temporadas, originalmente transmitidas pela ABC, entre 1966-68. Que díspar a recepção quando estava cerca de completar meio século. Consegui entender um par de coisas sobre esse fenômeno de audiência.

A série tinha o poder de agradar crianças e adultos. Agora compreendo que nós maiores somos fisgados pelo humor impagável, que flerta com o nonsense. Imagine: Batman e Robin entram numa boate e uma moça aproxima-se do morcegão para xavecá-lo e ele diz que quer passar despercebido. Com aquela roupa? É um disparate atrás do outro; as lições de moral que para adultos funcionam como piadas, porque dadas em situações fora de cabimento, enfim, como Bruce Wayne e Dick Grayson, Batman, a série, possuía duas identidades.

Enquanto os EUA passavam por momentos turbulentos devido às manifestações crescentes contra a Guerra do Vietnã e a radicalização do movimento pelos direitos civis, a branca Gothan City do milionário Bruce Wayne – que na série não era atormentado, afinal, vivia com seu “pupilo” Dick (uma das gírias inglesas para pênis) – só tinha que se preocupar com excêntricos vilões malucos.

Astros de cine com carreiras em baixa geralmente interpretavam tais papeis. Na época, a TV estava longe de ter o status atual. Ator ”sério” fazia sucesso no teatro ou nas telonas, mas quando a carreira não decolava ou estava a despencar, descolar uns trocos na telinha era opção boa; por vezes a única. A relação de famosos de então é extensa: George Sanders como Mr. Freeze, Ann Baxter como Zelda, ambos do clássico A Malvada. Burgess Meredith deixava a Broadway de vez em quando para faturar como Pinguim. Quem lembra que nos anos 90, Burgess ressurgiria como o pai de Jack Lemmon, em Dois Velhos Rabugentos?

As duas primeiras temporadas lembram serials muito concisos. Histórias divididas em dois capítulos, sendo que ao final do primeiro os heróis encontravam-se em situação de perigo mortal e no episódio seguinte safavam-se no último instante, de forma estapafúrdia.

As interpretações vão ficando cada vez mais canastronas. Será que os produtores perceberam que o público adulto via Batman pelo seu caráter cult de quanto pior, melhor? Ou os atores eram ruins mesmo? Nunca vi Burt Ward em outro papel que não fosse Robin, então não tenho parâmetro de julgamento. Mas, meu instinto insiste que era mau ator mesmo. Mas isso pouco importa, porque os personagens marcaram tanto, a ponto de tipificar os atores, que jamais conseguiram papeis após o esmagador sucesso do seriado. West e Young sempre viveram, em parte, às custas e em função de Batman e Robin. Talvez fossem ótimos atores, afinal, porque para mim também não há outro Batman além de Adam West e Robin que não seja Burt Young.

Impagável como as identidades secretas de Batman e Robin não foram reveladas um sem-número de vezes. Bastaria arrancar a máscara de Robin, que aliás, não cobria nada! Mas que fã do Super-Homem, por exemplo, poderia tirar sarro disso? Clark Kent tinha apenas óculos como disfarce...

E o bat-fone chamando a atenção na mansão de Bruce Wayne? E a voz idêntica de Bruce e do Homem-Morcego, será que o Comissário Gordon nunca se tocou? Episódios há em que ele fala com as duas personagens em sucessão!

O cinto de utilidades é legendário e motivo de escárnio devido aos desatinos que carregava, mas não é que Batman se saiu melhor do que muita ficção-científica “séria” no quesito antecipação de porvir tecnológico? O computador da bat-caverna, mesmo cuspindo papeizinhos primitivos, muitas vezes cumpre funções hoje realizadas pela internet ou pelo Google e um par de vezes um telefone móvel mostrou aos sessentistas o que seria um celular, que viria ao mundo apenas nos 80’s.

As cores são superlativadas, os diálogos hiperbólicos em trocadilhos, assonâncias e aliterações. Tudo em Batman é psicodelia sem o menor pé no real; parece que roteiristas, equipe e elenco estavam eternamente viajando lisergicamente em uma torrente de ácido. Camp, sim, mas também louvável renovação televisiva, porque se tratou de incorporar um pouco da linguagem de certos quadrinhos, vide os clássicos letreiros pow! Sock! Wham!, exibidos durantes as lutas.

Santa overdose, Batman! Toda piada perde a graça e exagero enjoa. Lição que aprendi vendo Batman como adulto: o público deve ter saturado de dois episódios por semana e na terceira temporada as aventuras resumiam-se a episódio único. Como o orçamento despencou, as aventuras constituíam-se num trololó sem fim, e nem a adição da Batgirl salvou a série do cancelamento. A Mulher-Morcego era Yvone Craig, falecida em 2015. Quando terminei a maratona, não tinha saco para outro episódio por um bom tempo, décadas talvez.

Mas, a canção-tema provou ser mesmo um clássico. Ouvi o surf-rock, que foi até regravado pelo punk The Jam, as 120 vezes e nada de enjoar!


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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