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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

as alegres comadres de cranford

Conhecida por suas descrições da pobreza da classe operária britânica, Elizabeth Gaskell criou em Cranford, irônica e enternecedora alegoria numa fictícia aldeota habitada por curiosas senhoras. A BBC também representou esse simpático grupo em deliciosa minissérie.


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Publicado em 1853, Elizabeth Gaskell não idealizara Cranford como um romance. Oito quadros do que viria a ser o primeiro capítulo foram publicados em dezembro de 1851, no periódico Household Words, editado por Charles Dickens. Tamanho o sucesso que Gaskell cedeu e terminou por escrever um de seus livros mais queridos pelo público.

Essa falta de intenção de compor obra mais avolumada e coesa pode ser a explicação para a forma episódica que a obra assume em seus primeiros capítulos, até adquirir forma mais unificada de romance, com sequência linear de ações dando origem a ações seguintes.

Cranford é o nome da aldeia fictícia, situada ao lado da também inventada Drumble, grande cidade comercial e algodoeira (a equivalente à Manchester, de Gaskell). O foco central do romance incide nas chamadas “Amazonas”, que dominam a sociedade cranfordiana. Na fração social “que importa” do bucólico e idealizado lugarejo, os homens inexistem: ou morreram ou trabalham a semana toda na vizinha Drumble. As protagonistas são senhoras de idade avançada, pobres, mas que habitam mundo cuidadosamente construído e codificado para mostrar aparência de aristocracia. Com renda limitada, as senhoras de Cranford têm que se esmerar na economia. Assim luxo e riqueza são considerados coisas vulgares pelas simpáticas madames de meia pataca. Quando uma Lady escocesa de terceira categoria vem viver em Cranford, é aceita pelo grupo facilmente porque não comete a “vulgaridade de ter dinheiro”.

Dentre essas velhinhas, o centro das atenções recai sobre a adorável Miss Matty. Quando o livro engata como romance, é ela ao redor de quem giram as histórias e a simpatia maior da narradora. Quando Matilda Jenkyns perde todo o dinheiro, aplicado num banco, a alternativa é abrir uma loja para vender chá e doces. Há dilema porém: como uma dama dedicar-se-ia a algo tão plebeu quanto lucrar, trabalhar em ou manter estabelecimento comercial? No fundo, a questão é uma que dividia, grosso modo, setores da sociedade inglesa: a aristocracia não trabalha a não ser gerindo suas terras; trabalhar no comércio ou indústria era coisa para a grosseira burguesia. A solução achada no romance é uma de meio termo: Mis Matty abriria a loja, sem admitir que era loja ou que lucraria com o estabelecimento. Acordo tácito entre os habitantes da cidade garantia que a farsa fosse mantida. Aparências mantidas a todo custo por essas senhoras de Cranford, sobre as quais o romance lança olhar entre irônico e enternecido. Claro que a narrativa funciona como parte da missão histórica da burguesia de solapar a derrotada nobreza; isso fica evidente na nuvem de anacronismo na qual Cranford e seus costumes pseudo-gentílicos flutuam.

A narradora é filha de um cranfordiano que abandonara o local e dirigira-se a Drumble para se tornar “vulgar” homem de negócios, o qual é permitido na narrativa apenas quando vem em socorro de Miss Matty, quando de sua bancarrota. A narradora, portanto, é filha da tal classe vulgar que ganha a vida trabalhando, mas mesmo assim, compartilha boa parte do esnobismo falido das amigas mais velhas. Outra pista que Gaskell nos dá para perceber o anacronismo quase comovente em que vivem as personagens. Para completar a ironia, Gaskell batizou sua narradora de Mary Smith: impossível pensar em nome feminino mais “vulgar” em inglês.

A crítica semivelada ao esnobismo e à pseudopompa gentílica, entretanto, trai laivos de fascínio pelo sistema de classes que a burguesia fingia desprezar tanto. Lady Glenmire, a escocesa da baixa nobreza, casa-se com o vulgar Mr. Hoggins, médico local, tolerado pela necessidade que sua profissão lhe outorgava, mas nunca convidado para as festas das senhoras da imaginada elite local, porque era assaz grosseiro: imaginem que cruzava as pernas ao sentar! Lady Glenmire não apenas se casa com o doutor, mas abdica de seu título e passa a ser chamada por Mrs. Hoggins. Escândalo! Mas, que significado passa a ter na narrativa uma personagem assumidamente da classe burguesa cujo sobrenome é Hoggins? ‘Hog’ é um sinônimo para ‘porco”...

Aliás, é em função desse sobrenome que uma das frases mais deliciosas do livro foi gerada:

Mr. Hoggins was the Crarnford doctor now; we disliked the name and considered it coarse; but, as Miss Jenkyns said, if he changed it to Piggins it would not be much better.

Outra delícia foi quando Mrs Jamieson (The Honourable Mrs. Jamieson!) deixou de conversar com a cunhada, Lady Glenmire, porque esta se rebaixara casando-se com um plebeu. A sociedade local não achou a rixa prudente, afinal, Mr. Hoggins era médico e todos necessitariam de seus serviços algum dia. E então, a pérola:

Miss Pole grew quite impatient for some indisposition or accident to befall Mrs. Jamieson or her dependents, in order that Cranford might see how she would act under the perplexing circumstances.

Mais do que construtora de sentenças irônicas, Gaskel construiu história inteira que em muitos momentos é encharcada de ironia, embora o final em forma de festança onde todas as arestas estão perfeitamente aparadas, traia – nos recônditos da autora – a vontade utópica de uma sociedade intocada pelo comércio e pelos novos tempos. Utopia distorcida, portanto.

CRANFORD NA TV

Em 2007, a BBC exibiu adorável minissérie em 5 capítulos sobre a fictícia aldeia inglesa à beira da mudança, provocada pela inevitável vinda da linha férrea que a colocaria definitivamente na rota e no mapa do capitalismo industrial. A história centra-se na vida de vários de seus habitantes, suas fofocas, alegrias, tristezas, amores, boatos, enfim, é a idealização de uma pequena cidade às vésperas de "perder sua inocência".

As profundas mudanças que alteraram a vida na Inglaterra pós-Revolução Industrial estão definitivamente forçando sua entrada em Cranford: o jovem médico com suas técnicas novas, os óculos para corrigir astigmatismo, mulheres participando de cortejos fúnebres e começando a trabalhar, cartões impressos para o dia de São Valentino e outras coisas mais. Também os problemas advindos do capitalismo estão afetando a comunidade, como a bancarrota de um banco em Manchester, que afeta duramente a vida de uma velhinha.

O roteiro, porém, é esperto demais para permitir que achemos que a "inocência" anterior fosse assim tão boa. A velha estrutura feudal, que de certo modo ainda imperava na cidade, vê seus dias contados com a universalização da educação e do aprendizado da leitura e a consequente falência do sistema que impunha que cada pessoa teria que seguir os passos de seus antepassados ad infinitum, sem chance de ascensão social ou cultural.

Familiarizados com cine britânico ou as séries e minisséries da BBC reconhecerão bom punhado de rostos familiares. Difícil destacar alguém, entretanto, uma das cabeças do elenco é Judi Dench. E quando tem La Dench, La Dench impera!! Maravilhosa como sempre.

A mini é recheada de momentos muito bem-humorados. Hilariante a sequência em que um gato engole um pedaço de renda e as distintas senhoras tão ciosas do que seria "adequado a fazer", decidem recuperar o ornamento. As caras que fazem são impagáveis. There is lace at stake!

Outro momento delicioso é quase ao final do tocante último episódio. Uma das solteironas está se gabando de que a ausência de marido tornara seu corpo uma fortaleza. Ela diz algo como "este corpo de solteirona não recebeu jamais a visita de um médico". Ato contínuo, aparece em cena o irmão desaparecido de outra personagem, com sua vasta barba e cabeleira grisalhas. A cara que a solteirona faz e o olhão que arregala permitem ao telespectador perceber que ela mudou de ideia rapidinho e que em sua mente seguramente passam ideias de visitações mais, mas muito mais mesmo, agradáveis do que as de um médico!

Cranford é leve, divertida, esperta, tocante e bem produzida. Outro triunfo da BBC.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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