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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Blondie ainda importa

Blondie lançou álbum em maio e é preciso reconhecer seu legado para o pop atual. Este texto faz isso e discute seus dois trabalhos mais recentes.


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Difícil imaginar uma vocalista que tenha impactado como Debbie Harry, do Blondie. De Madonna a Lady Gaga, passando por (semi-)esquecidas como Dale Bozzio, Wendy James e Tracy Tracy, a coelhinha norte-americana foi símbolo sexo-musical dos anos 70/início dos 80. Mesmo quem não copiou descaradamente o visual de baranga glam de Harry, foi afetada. Christine, dos góticos Siouxsie and the Banshees tem seu quinhão de Blondie, por exemplo.

Fundado em 1974, o Blondie ganhou esse nome porque caminhoneiros e operários da construção civil viviam chamando Debbie Harry assim. Meio despenteada e com o cabelo mal tingido de loiro – ela mesma passava a tintura – a gostosona e seus companheiros, que mal conseguiam tocar afinada ou sincronizadamente, impactaram o movimento punk então nascente, numa Nova York falida, cheia de buracos, apagões e greves de lixeiros. No fétido e agora lendário clube CBGB, Deborah Harry e artistas como Ramones, Television, Talking Heads, Suicide, Patti Smith (que odiava Debbie por perceber nela o potencial de diva) ajudaram a delinear a música pop de gerações.

O documentário Blondie One Way or Another (BBC, 2006) delineia essa trajetória do underground ao topo das paradas mundiais, com as perdas e ganhos inerentes ao processo. O trabalho do produtor é essencial para confecção de gemas pop: a descrição da feitura da clássica Heart of Glass é notável nesse aspecto. Mas, na industrialização da música do capitalismo, esse profissional também pode (tentar) asfixiar uma banda, vendo-a como meros peões. Isso está igualmente bem descrito no documentário.

Quando o Blondie estourou – na Inglaterra, antes de nos EUA – e Debbie Harry tornou-se o tesão da virada 70’s pra 80’s, ela passara dos 30. Blondie One Way or Another mostra como o poder advindo da fama pode ser fugaz. No topo num ano, no poço no outro. Foi o que ocorreu com Blondie, corroído por litígios judiciais, uso de drogas muito pesadas, descaminhos financeiros e azar (uma doença genética num dos membros). The Hunter (1982) - último álbum antes da ressurreição blondiana, em 1999 – vendeu menos de 20 mil cópias! O documentário atribui o fiasco às drogas. Correto, mas também os tempos já eram outros. Basta ver o exagero do cabelão tipicamente oitentista de Debbie Harry na capa do álbum: ela não mais ditava a moda, mas a copiava. Ambições por carreiras-solo também não ajudavam muito, embora ninguém tenha tido sucesso sozinho.

Blondie ainda faz turnês e lança álbum de vez em quando e deixou legado respeitável para a música e cultura pop. Heart of Glass será sempre uma canção pop perfeita. E Debbie será sempre desejada quando os vídeos forem assistidos.

Recheado de depoimentos de integrantes da banda e outros músicos, Blondie One Way or Another não santifica Debbie Harry e dá razoável dimensão de parte da história da menina adotiva que fantasiava ser filha de Marilyn Monroe e se transformou em seu equivalente no universo da música popular.

Tamanha importância resulta em fardo pesado e expectativa alta quando se lança um álbum, especialmente quando Debbie Harry já estava quase setentona. Blondie teria alguma relevância à altura de seu quadragésimo aniversário? Não estaria coroca para o universo tão jovem do pop-rock? No começo de maio de 2014, o grupo lançou CD duplo, que tentava responder a essas perguntas. Blondie 4(0)Ever é dividido em 2 seções: Greatest Hits Deluxe Redux e Ghosts of Download e foi editado pela gravadora Nobel Id.

O primeiro disco traz regravações de alguns sucessos do grupo. A ideia deve ter sido aproveitar as condições superiores de produção para aprimorar as faixas, porque os arranjos estão iguais e os vocais são imitados dos originais. Debbie jamais foi Amy; seu poder e carisma não estão em ter voz magnífica. A regravação também deve ter pretendido “melhorar” os vocais. Mas, refazer vocais imperfeitos por uma cantora perto dos 70 anos, que perdera alguma capacidade para agudos, como se nota em Heart of Glass? Certamente mais limada, a produção perde, porém, o charme de rudeza punk dos originais. E para que reler Maria, de 99, deixando-a virtualmente idêntica? Greatest Hits Deluxe Redux funciona como curiosidade para ouvir vez só e continuar escutando os originais.

Ghosts of Download é um bocadinho mais interessante: 15 canções novas e uma cover. Blondie deixou o rock de lado e orientou seu trabalho para um prisma mais pop dançável. O grupo teria cacife para recrutar colaboradores de primeira linha, mas trabalhou com artistas latinos bem menos populares no hemisfério norte. O resultado é gostosa infusão de latinidad eletrônica como na brejeirice de I Screwed Up ou na discreta cumbia villera de Sugar on the Side. Euphoria abre com repique à Olodum, antes de dar uma cumbiada. Take it Back é deliciosa cavalgada dance e Rave palpita de pulsação pulante. A Rose by Any Name me lembrou Good Boys, do álbum The Curse of Blondie (2003), mas um tiquinho desacelerada.

A regravação do clássico oitentista Relax, do Frankie Goes To Hollywood sintetiza Blondie 4(0)Ever. A primeira parte da canção despe-a dos teclados dos britânicos para fazer a melodia aparecer só no piano, mas aos poucos Debbie e seus companheiros aproximam a cover do vibrante original, claro que sem alcançar o esplendor orgásmico dos jorros eletrônicos de Holly Johnson e asseclas. Mesmo sem terem alcançado grandes resultados, Blondie alegrou ao demonstrar que esse pessoal já na terceira idade ainda buscava novidade.

Há que celebrar a resiliência e longevidade de Debbie Harry e sua trupe. Quando a maioria das herdeiras diretas de Blondie está sepultada no alzaimer da memória coletiva cultural de massa, o grupo ainda tem forças para pegar a estrada e lançar álbuns. Depois da escorregadela do LP duplo de 2014, os norte-americanos voltaram com Polinator, 11º trabalho de estúdio, lançado dia 5 de maio.

Louvável a sede de renovação de Ghosts Of Download, mas o álbum falhou em produzir faixa memorável. Polinator equilibra tradição sônica com pitadas de contemporaneidade na produção e canções escritas por queridinhos de agora, tipo Sia, cuja Best Day Ever não se encaixa na categoria memorável, mas interessa para constatar retroativamente como intérpretes como Siouxsie Sioux (por onde anda mesmo?) foram influenciadas por Debbie. No quesito lembráveis para sempre, ouça a guitarra funkeada de Fun e veja se não dá vontade de sair desfilando pela Quinta Avenida; pura ferveção Blondie. O queridinho de outrora Johnny Marr prova que ainda consegue estruturar melodias soberbas e refrães circulares e grudentos, cheque My Monster, um dos ápices do play.

A Nova York do Blondie é o berço da disco music, hip hop e do punk e o poder maior do grupo foi mastigar esses e outros elementos e cuspi-los como algo novo, sem blablablá chato-pedante-chiclete-bananeiro para tentar dar originalidade a um traço essencial ao bom pop. Blondie ia lá e fazia, f***-se.

Polinator obviamente não tem o poder de criar outra revolução estilística, mas o pop canibal urgente que caracterizou o auge do grupo está presente, inclusive se autorreferenciando como em Long Time, que lembrará os mais antigos do clássico disco Heart Of Glass. Já a abertura é rockão com Joan Jett e tudo. Em Gravity a voz pesadamente processada de Harry recebe petardos roqueiros da percussão e chuva de granizo fininho de electronica.

Nessa altura do campeonato é isso que se espera de Blondie: manter a tradição com laivos de (pós-)modernismos. Aos 71 anos, sejamos realistas, nem garantia há de próximo álbum, mas se Polinator for o derradeiro, é boa coda.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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