blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Caça às bruxas à escandinava

O filme finlandês A Noiva do Diabo já vale se servir para lembrar que a caça às bruxas não foi fenômeno apenas católico e medieval


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A Idade Média e a Igreja Católica não infrequentemente são as únicas associadas à caça e morte às bruxas. Embora a Inquisição envergonhará eternamente a Santa Madre Igreja, a Reforma Protestante foi responsável por um banho de sangue e carne queimada em várias partes da Europa, já na Idade Moderna. Dramaturgicamente, os mais famosos julgamentos por bruxaria são os de Salem, cidade norte-americana nas cercanias de Boston. Arthur Miller e Hollywood se encarregaram disso.

Na protestante Europa setentrional, houve ferozes e interesseiras perseguições a hereges, em sua maioria mulheres. Estimativas que chegam a muitas dezenas ou centenas de milhares de óbitos, sem contar as torturas. Na Escandinávia, os julgamentos e execuções de quase cem mulheres, em Vardø (1621), são o primeiro caso registrado de histeria maciça provocada pelo temor às forças satânicas.

Ano passado, a diretora Saara Cantell tematizou a primeira caça sistemática às bruxas na Finlândia, ocorrida em 1666, na ilha de Åland, a meio caminho com a Suécia. Embora na Finlândia a maioria dos condenados por bruxaria tenha sido homens – grande exceção – A Noiva do Diabo apresenta o familiar cenário de mulheres pobres e/ou meio doidivanas acusadas de pactos diabólicos, os quais confessam por livre e espontânea tortura.

Um juiz sueco metido a proto-Iluminista chega à ilha e choca-se com a fluidez com que a fé cristã se entrelaça com crendices e superstições pagãs. Saber que a Finlândia era famosa em toda a Europa por sua suposta feitiçaria e que pertencia à Suécia enriquece o contexto interpretativo, pois a caçada aos costumes religiosos não-cristãos também está imbricada em relações colonizador/colonizado, não explicitadas pelo filme. Enquanto Nils Psilander crescentemente acredita e aplica nos indefesos sua vontade de acabar com a corrupção moral (inflamado discurso anticorrupção, flexível trampolim para arbitrariedade), a adolescente Ana apaixona-se pelo marido de uma amiga e não hesita em denunciá-la.

Além da belíssima cinematografia, A Noiva do Diabo se sai melhor na parte histórica, digamos. O roteiro mostra como interesses pessoais, inclusive do clero, conduziam mulheres à m/corte. Tiozão estupra vigem, daí denuncia como bruxa a mulher que ameaçava expô-lo publicamente. Nossa milenar misoginia é escancarada e dói constatá-la.

A parte a que se propõe o título, porém, fica léguas a desejar. Ana e o amante não têm química, porque quase nem aparecem juntos; não dá para empatizar direito com ninguém e por aí vai. A impressão é que Cantell queria falar sobre a situação sócio-histórica e usou o tal caso como mera desculpa. Se tivesse optado por entregar a alma ao incidente de perseguição religiosa, apenas usando os motivadores das denúncias para que as entendêssemos melhor, A Noiva do Diabo seria superior e provavelmente teria outro nome.

Como ferramenta pedagógica para despertar interesse de aluno, A Noiva do Diabo vai além de propiciar óbvio projeto multidisciplinar de História e Geografia. Em tempos onde mídia e redes sociais suspeitam, julgam, condenam e apedrejam tudo na mesma reportagem/postagem, podemos realmente olhar com superioridade aqueles caçadores de bruxas do passado?

A Noiva do diabo consta do catálogo brasileiro da Netflix.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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