blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Clássico do Rock Progressivo Contemporâneo

Para fãs da era de ouro do rock progressivo inglês nos anos 1970, o Big Big Train lançou um par de LPs que não deixa nada a dever aos clássicos do subgênero.


Big-Big-Train-English-Electric-Part-Two.jpg

A maior parte do tempo, desde sua fundação, em 1990, o Big Big Train (BBT) percorreu trilho independente no prog rock, o que significa que tendia a ser ainda menos conhecido do que as já pouquíssimo divulgadas bandas atreladas às pequenas gravadoras que atendem o subgênero. Sorte que há a fiel comunidade progressiva ao redor do globo – cheia de blogs, newsletters, fanzines – mas quem não assina mailing lists ou visita sites especializados regularmente, corre o risco de não os conhecer.

Em 2016, a banda lançou Folklore, que com canções estupendas como The Transit Of Venus Across The Sun e Brooklands constou de várias listas de melhores álbuns prog e garantiu-lhes prêmio de melhor grupo do ano, no equivalente ao Grammy do mundo do rock progressivo.

Imediatamente antes de Folklore há os dois volumes de English Electric, lançados, respectivamente, em 2012-3. Experimente digitar o nome no Google para ver como o Big Big Train é minusculamente reconhecido. Aparece muita matéria sobre o LP homônimo de 2013, do OMD. Nada contra os synth-poppers oitentistas - Enola Gay e Electricity são deliciosas – mas não há quase nada sobre seus conterrâneos progressivos. E olha que o par de álbuns mereceria muito mais atenção, porque é irretocável.

O núcleo-duro da parte 1 do English Electric do Big Big Train foi gerado pelo Genesis, mais especificamente por Trespass (1970) e Nursery Cryme (1971). Tamanha minúcia mostra como os ingleses dominam bem o subgênero em que atuam e a perícia para operar dentro de escopo bem definido e reduzido de escolhas e mesmo assim não soar caricato ou repetitivo. A abertura, The First Rebreather, põe todas as cartas genesianas à mesa: depois de solo de flauta gabriélico e virada de bateria típica de Collins, entra austero e certeiro solo de guitarra digno de Steve Hackett sentado, lendo partitura. É bem Trespass, mas aí entra o toque de subversão apenas possível para conhecedor profissional da tradição prog: usar maneirismos do baterista e guitarrista empregando sonoridade de um álbum em que ambos ainda não se haviam juntado ao Genesis. Harmonias vocais, muita coisa lembra o Genesis, só falta na na na na na ao final (ouça Upton Heath, que há!). Mas, como English Electric é para quem tem paciência para detalhes de fone de ouvido, o ouvinte também fluente em idioma prog notará arpejos e barulhitos tomados de outros quadrantes.

Quem ama aqueles preciosos anos do início dos 70’s, quando o prog folk gestou pérolas infelizmente quase esquecidas como Amazing Blondel e Gryphon, não deixará de sorrir com a doçura dos banjos de Uncle Jack. Seu tamanho reduzido, lembra banda prog da época tentando fazer single para encravar no Top Ten.

Britânico, adjetivo inseparável de English Electric. Não é à toa esse título. A sonoridade e as letras recheadas de referências a sebes (o álbum termina com Hedgerow...Sebe!), campinas, ravinas, igrejas, sinos, remetem a certa sonoridade imagética típica do prog lá produzido. Peter Gabriel conta que durante as gravações de Selling England By The Pound – em uma propriedade rural no interior da Inglaterra – a banda parava para tomar chá. Como não reconhecer esses estereótipos pelo passeio paisagístico de Winchester From St. Giles’ Hill? É nela que está o melancólico madrigal trançado por flauta árcade e piano gotejante, que precede momento mais rock de guitarra e teclado. Feche os olhos e imagine caminhada colina acima, o atingir o cume e a descida.

Outro estratagema comum para o Genesis eram as historietas sobre gente estranha. O BBT tem falsificadores de obras de arte e garotos na escuridão, além do bucolismo pastoril. A vigorosa e viciante Judas Unrepentant encaixa-se nas categorias de historinha e de grande canção prog de todos os tempos.

Em um álbum repleto de tubas, bandolins, pistões, violinos e trombones – além dos teclados da sonoridade do prog clássico – não se corre perigo de cair no marasmo. Em Summoned By Bells, quando parece que a coisa vai ficar repetitiva, o clima muda, meio que prevendo o caminho de algumas canções mais Genesis anos 90 de Folklore, tudo ganha musculatura, o piano adota tons jazzy e David Longdon canta pelas estranhas, o que se repete em A Boy In Darkness. Aqui, o BBT prova vez mais que não é mera cópia neo prog do Genesis; a orquestração épica tem flautas iradas à Jethro Tull, mas os contemporâneos proggers ingleses não são amadores: usam elementos da tradição para criar som deles.

8 faixas de qualidade técnica e artística irretocável:

A parte 1 de English Electric saiu em setembro, de 2012 e a 2, em março do seguinte ano. A homonímia e o reduzido intervalo entre os lançamentos qualificam-nos como álbum duplo, projeto do qual muitos artistas saem chamuscados. Manter a criatividade num LP simples já é barra, imagine preencher dois. Foi nessa brincadeira que o Yes despencou do favor da crítica, com Tales From Topographic Oceans (1973). Mas, o BBT estava num frenesi de ideias, porque as sete canções mantêm o alto nível da parte 1

Quintessencialmente britânico outra vez, o folk por vezes evoca hinos religiosas em igrejas anglicanas rurais, como em Swan Hunter, mesmo que as letras dessa parte invoquem mais uma Inglaterra pós-Revolução industrial, com minas de carvão, estaleiros e ferrovias. Mas, não se preocupem que há agricultores e sebes! Os músicos transbordavam de melodias lindas, a ponto de rechearem Keeper Of Abbeys com fragmentos de música viciantes, além de duelo sensacional de cítara, flauta, guitarra e violino. Um dos pontos altos, para se ouvir repetidamente. E quer coisa mais British que abadia? Downton Abbey, Northanger Abbey... A derradeira Curator of Butterflies é para não dizer que BBT é clone de Genesis. Sua emocionante garota que talvez tenha se jogado do penhasco é prog contemporâneo da melhor qualidade, com DNA próprio.

Tudo muito bom, mas exceto por Keeper Of Abbeys, tudo é ultrapassado pela monumental East Coast Racer, que abre English Electric Pt 2 com seus quase 15 minutos e meio e é uma das grandes canções progressivas da história. Sobre um lorde que bateu recorde de velocidade em Maria-Fumaça – quer mais britânico do que trem, na terra do Trainspotting? – a canção tem dinâmica e estrutura irretocáveis. Os trechos que representam o ganhar de velocidade são levados por percussão e pianos fluidos; sente-se o movimento, e vez mais o BBT prova seu próprio estilo de prog rock. Conhecedores sabem que estamos na tradição corrediça de The Cinema Show, mas reprogramada por uma geração contemporânea ao Radiohead.

Invisível para a grande mídia, o rock progressivo vive período fecundo e as duas partes de English Electric engrossam a considerável lista de obras-primas do subgênero sinfônico.

A discografia do Big Big Train está no Bandcamp:

https://bigbigtrain.bandcamp.com/


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/musica// //Roberto Bíscaro
Site Meter