blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Estrela ascendente no firmamento do blues

Em setembro, JJ Thames lançou sua segunda coleção de canções rhythm’n’blues e é promessa de diva no mundo da black music. Conheça seu trabalho.


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JJ Thames nasceu na Motowniana Detroit, mas faz um som super Delta do Mississippi, com influxo de soul music e pitada bem de leve de pop. Sua biografia é cheia de lances-pratos-cheios para a construção da figura da cantora sentida de blues: morou em abrigo para sem-teto com os filhos, já cantou no metrô de Nova York, teve que largar a carreira para ganhar trocados como gerente de restaurante para sustentar os guris. Enfim, a ainda jovem JJ já demonstra na rica voz a carga de poucas e boas por que tem passado.

Longe dos badalados centros musicais de LA e NYC, JJ Thames vive em Jackson, Mississippi e grava pela independente Dechamp Records, por isso não frequenta a mídia grande, mas nos sites de blues e blogosfera alternativa, já é considerada forte promessa de dama.

Em abril de 2014, estreou no mundo fonográfico com Tell You What I Know, cuja faixa-título encerra em tom autobiográfico um álbum composto de blues e souls lentos, em sua maioria. A abertura, Souled Out, não deixa dúvidas sobre a história de e tradição na qual Thames se insere: mencionando Motown (Detroit) e Mississippi e dizendo que contará sua história, a cantora já mostra do que é vocalmente capaz num gospel, sucedido por Hey You, bluesão com gaita rasgada e tudo, daqueles que dá para entender bem porque o rock veio dessa matriz. A sexy I Got What You Need também tem gaita envenenada e é rhythm’n’blues com banjo, o que dá gostinho bluegrass no fundo. My Kinda Man é soul, cuja letra é meio estranha em 2016, por se inserir na tradição da adoração ampla, total e irrestrita pelo soberano macho. Mas, tudo bem, deve ser só postura estética, considerando-se a bio de JJ Thames. Can You Let Somebody Else Be Strong é linda balada gospel, enquanto I’Ma Make It tem seu espírito funk no blues. Tell You What I Know é visceral sem exagerar na gritaria (e JJ Thames tem tórax para isso) e mistura diversos elementos de black music sem soar datado, porque a produção é moderna, mas talvez cru demais para púbico estritamente pop.

Em setembro de 2016, saiu o segundo álbum, Raw Sugar, mais diversificado, porque apresenta algumas canções mais energéticas e agitadas e com uma JJ Thames ainda mais senhora de seu poderio vocal; soltando a voz onde precisa, mas ainda sem cacoetes de diva esgoelante (não que se tenha algo contra). A crueza do açúcar do título pode ser comprovada no bluesão à BB King da faixa-título e de Bad Man, I Don’t Feel Nothing ou Woman Scorned. Um dos trunfos de Thames é manter a “crueza” do blues, mas temperá-lo com aquela diversidade que parte do público mais popificado tanto preza.

Nessas e em outras faixas, sobressai a guitarra do também produtor Eddie Cotton, mas jamais perde-se o foco: o destaque está na multinuançada voz de JJ. Como no predecessor, Raw Sugar abre com um spiritual clamando por proteção divina a uma jornada. Na origem escrava do blues, essas letras sempre tiveram duplo sentido. A viagem pode ser a vida, mas também conta-se que nas plantações de algodão sulistas, os escravos usavam tais canções para combinar ou se referirem a planejadas fugas. Mito ou verdade, não sei, mas é bonito o significado. Ao lado desse blues mais tradicional, lufadas Motown em I Wanna Fall In Love ou a deslizante brisa What’s Going On(ica) de Leftovers, puro Marvin Gaye. A letra dessa contrapõe-se à subserviência ao macho do álbum anterior, posto que Thames canta querer bofe só dela; não se contenta com restos de outra. Essa assertividade já se manifestara no bluesão I’m Leavin’, onde ela abandona um relacionamento destrutivo. O quinhão autobiográfico revela-se na balada Plan B (Abortion Blues), sobre a dureza de se decidir pela interrupção de uma gravidez. Hold Me é uma valsa soul super 70’s e Hattie Pearl é rhythm’n’blues de orgulhar Ike and Tina Turner. Entre tanta coisa boa, o arraso fica para a balada soul Only Fool Was Me, onde Thames e o saxofone estraçalham.

Se seguir na linha ascendente indicada pelo par de álbuns, JJ Thames virará diva do blues, independentemente da grande mídia badalá-la.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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