blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Mantendo a tradição de Jack, o Estripador

Ainda capitalizando na fama/infâmia de Jack, o Estripador, a série britânica Whitechapel traz casos policiais tão amalucados que é muito difícil não viciar e ver de maratona.


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Whitechapel é um bairro londrino tornado mundialmente famoso/infame, nas últimas décadas do século XIX, devido a uma série de assassinatos de mulheres, atribuídos a Jack, The Ripper. O Estripador aterrorizou Londres; a caçada policial deu início a práticas forenses mais profissionais; a mídia atingiu frenesis de cobertura, inclusive inventando fatos que se tornaram senso-comum; a atenção sobre a horrendamente pobre vizinhança chamou atenção para a brutal desigualdade social no então império mais rico do planeta. Whitechapel era pura favela charcosa em meio à pretendida pompa e circunstância vitorianas.

Por essas razões, Jack o Estripador deve ser o serial killer mais famoso da história. Antes e depois houve quem matasse muito mais – nunca se soube quem foi Jack; muito menos se foi um ou mesmo homem ou quem matou todas as moças de Whitechapel – mas a figura não tem tido paz desde então. Teorias estapafúrdias, livros, documentários e filmes vem à tona constantemente. Só nesta década, pelo menos 3 séries britânicas relacionam-se aos Assassinatos de Whitechapel: Ripper Street, Penny Dreadful e Whitechapel.

Entre 2009 e 2013, foram exibidos os 18 episódios das 4 temporadas de Whitechapel, pela ITV britânica. Composta por histórias independentes abrangendo 2 episódios, Whitechapel se passa no bairro londrino dos dias de hoje, mas não deixa de reverenciar seu habitante mais ilustre: a primeira história é de um imitador dos crimes do Estripador. A polícia relutantemente pede ajuda a um Estripadologista (ripperologist, no original) e a insânia começa.

Whitechapel é absolutamente despirocada e a doideira só aumenta com o passar das tramas. Tem sinagoga secreta, gêmeos gangsteres, bruxas, suínos vitorianos produzindo raça mutante no vasto esgoto da capital britânica, assassino à slasher film e isso é só a ponta do novelo, para não entediar leitores, nem entregar a diversão tão facilmente. No mais das vezes, os elementos sobrenaturais são dados como ponto de partida e funcionam como motivadores de sustos e risadas, mas a maldade em Whitechapel é sempre bem humana, concreta e nojenta (prepare o estômago). Mas é tão demasiada e mirabolante que adquire delicioso tom de diversão mesmo. Como nos divertimos com tanta violência?

No centro de todas as investigações, a improvável dupla DI Chandler e DS Miles, auxiliados por DCs que não permanecem uniformes em todas as temporadas, mas ganham algum interesse pessoal, embora dê para viver sem eles de boa. Legal mesmo é ver o metrossexual patologicamente obcecado por limpeza e muito TOCado Chandler, com seu sotaque highbrow, tendo que descer aos fétidos esgotos para examinar cadáver parcialmente devorado por ratos. Não é sua ideia de diversão? Acredite, é menos chocante do que descrito; a reação dele dilui muito da nojeira.

Whitechapel é tão maluca quanto a maior parte das teorias sobre Jack, o Estripador, que, se existiu como homem/mulher só, deve estar rindo de satisfação no inferno, ao ver que sua memória não foi esquecida. A Netflix brasileira tem todos os episódios em seu catálogo.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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