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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Não é mais progressivo, mas segue competente

Kansas é uma das bandas-madrinha do rock progressivo norte-americano. Já voaram alto nas paradas e venderam muito. Ano passado, depois de 16 anos, voltaram com novo álbum.


Kansas_2008.jpg

Embora quando se fale em rock progressivo as cenas britânica e italiana sejam as mais lembradas, não dá para descartar a norte-americana, que mesmo não tendo produzido banda-influência modeladora tipo Yes e Genesis, teve produção underground farta, ainda que em sua maioria clones, como Starcastle ou Cathedral. A vastidão territorial, diversidade cultural e dinheiro correndo na parte norte da América garantiram que até hoje descubramos “novos” grupos, que produziram único álbum com 500 cópias, ora disponível no Youtube ou em algum blog especializado em pérolas prog perdidas.

Mas, a terra do Tio Sam teve sua fatia de estrelato prog também. O Kansas é o exemplo mais bem-acabado de rock progressivo acessível e altamente vendável daquelas plagas. Na segunda metade dos 1970’s, venderam muito e sucessos como Dust In The Wind tocam até hoje em rádios especializadas em Adult (ou Album, como originariamente) Oriented Rock (AOR), aquela música inventada nos 70’s para execução nas ascendentes FMs e que se caracteriza por produção limpíssima, fusão de estilos como hard rock e prog, enfim, a domesticação da libido roqueira para cidadãos “responsáveis” de meia-idade ou jovens bem-comportados. O diferencial do Kansas no mar de prog sinfônico de então, foi calibrar a sisudez britânica de ELP e Yes com sonoridade roqueira do Meio Oeste, onde se localiza o estado que lhe dá o nome. Álbuns como Leftoverture (1976) e Point Of Know Return (1977) devem constar da discoteca de qualquer fã sinfônico e servem de bússola para entender melhor o que seria o rock de arena oitentista. E olha uma banda prog ianque virando influência modeladora!

A decadência do rock progressivo, saídas e (re)entradas, egos e hiatos retiraram o grupo do imaginário midiático, embora ainda façam turnês, ora em conjunto com bandas como Styx e Foreigner, ora sozinhos, como agora, quando percorrem tudo quanto é cidade pequena, feira agrícola e centros de arte em seu pais comemorando os 40 anos de Leftovertures e promovendo The Prelude Implicit, lançado em outubro. Com tantas mudanças na formação, compensa estabelecer quem são os atuais membros: Ronnie Platt (vocal e teclados), Phil Ehart (bateria e percussão), Billy Greer (baixo e voz), Dave Manion (teclados), David Ragsdale (violino e guitarra), Zak Rizvi e Richard Williams nas guitarras.

Guitarra dupla dando variedade na textura, outros dois capazes de pilotar teclados, violino. Muito promissor para fãs de prog sinfônico. Há que dizer logo, porém: o Kansas de The Prelude Implicit é AOR e nem na faixa mais longa torna-se sinfônico de verdade. Ser AOR não é defeito, desde que bem executado e os coroas saíram-se com bela dezena de canções no estilo. A versão Deluxe tem duas a mais, mas são covers, que nada acrescentam, se bem que poderiam ter trocado a instrumental Section 60 pela cover Oh Shenadoah.

The Prelude Implicit remete aos bons e velhos anos 70/80, evitando os excessos deste último, como a irritante bateria eletrônica. Isso não quer dizer produção antiquada, apenas que o Kansas não traz nada apelativo para as novas gerações; daí talvez o álbum ter passado como poeira ao vento para a grande mídia. Ronnie Platt estreia bem no vocal, lembrando sem imitar, uma galeria de cantores de hard e rock de arena. O destaque tem que ir para o violinista David Ragsdale, que faz miséria em quase todas as faixas.

With This Heart abre com bateria tribal urbana e ostenta trechos totalmente assobiáveis e que grudam, pelo menos até que viciemos em ouvir outro álbum. The Prelude Implicit tem mais de um momento assim; bem agradáveis e que dão vontade de acompanhar. Em Visibility Zero, a guitarra começa comendo solta, mas logo vira power ballad com solaço de violino. The Unsung Heroes é acústica balada Bon Joviana, com pegada gospel transubstanciada em anos 50. Rhythm In The Spirit tem riff guitarreiro de espírito rock e órgão anos 70, mas as pausas para fôlego – que introduzem delicioso refrão grudento – atestam que é rock bom moço. Refugee é sensível oração acústica que ao mesmo tempo lembra o clássico da banda, Dust In The Wind, e Skid Row ou símile no fim dos 80’s.

The Voyage Of Eight Eitghteen deve ter sido planejada para agradar a remanescente ala de fãs fanáticos por prog sinfônico. É a mais longa, com 8 minutos e pico, tem mudança de andamento e oportunidade para todo mundo solar, enfim, canção prog sinfônica-estereótipo até na estrutura. Nenhum momento é marcante, porém; todo o estoque de melodias lembráveis foi usado em outras faixas, mais AOR. Na verdade, essa é um AOR mais longo. Não é ruim, mas não qualifica o Kansas como bom prog. Camouflage tem tom de rock arrastado, a passo que Summer é rapidinha de estalar dedos, pura diversão início dos anos 80. Crowded Isolation abre com cordas acústicas, vira galope tribal de baixo até estabilizar-se como power midtempo.

Fazia 16 anos que o Kansas não lançava material inédito. Não fizeram feio, mas pena que tão pouca gente ouvirá. Há uns 30 anos, entraria nas paradas com algum single ou mesmo o álbum.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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