blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Não há fúria como a de uma mulher traída

Série da BBC, na Netflix, mostra quão violenta pode ser a reação de uma mulher à traição conjugal.


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Lá pela metade do segundo capítulo de Doctor Foster (2015) anotei mentalmente: se escrever sobre a série da BBC, não cair no chavão de dizer que nem no inferno existe fúria tão descomunal quanto a de uma mulher desprezada. Não se passaram dez minutos e a própria protagonista Gemma Foster lê a citação da peça de William Congreve. Além de me permitir ser clichê, o uso da batida fala de Zara, em The Mourning Bride (1697), marca bem a linha fina pela qual caminham os cinco capítulos: vontade de ser inteligente, mas frequentemente resvalando para o já muitas vezes visto e para o melodramático. Isso não significa que seja ruim, apenas que não é o Cenas De Um Casamento que aspira a ser. Doctor Foster é um drama para TV muito do assistível; o último capítulo então, é uma cacetada.

Gemma Foster (Suranne Jones, perfeita) é uma médica trabalhadeira e praticamente sustentando a casa, porque o marido Simon está envolvido num grande projeto imobiliário na pequena cidade onde vivem. Gemma é meio arrogante, não tem tanto tempo para o filho, mas é competente e aparenta estar sempre no controle. Mas, o casal se ama. Até que ela acha um fiozão de cabelo loiro num cachecol do marido. No começo o espectador fica em dúvida se não é coisa da cachola da médica. Isso não importa muito e nem o desenrolar, algo óbvio. O que conta é a reação da Doutora Foster e é aí que reside um dos pontos mais fracos. Em um momento ela é racional e intelectualizada, nem bem instaura-se a suspeita e já a vemos tornar-se íntima de uma paciente que quer remédios para dormir (ela troca medicamentos por informações) e dirigir desvairada pela urbe.

Talvez fosse proposta mostrar como nossa capa de razão é facilmente esgarçável. Se for isso, precisaria ter resolvido um pouquinho melhor no roteiro, mas não duvido que espectadores vários devam ter utilizado essa abordagem. O que não dá para disfarçar é o determinismo moral simplista do tipo “homem trai; mulher tem vontade, mas consegue segurar” e nem a tendência do criador Mike Bartlett de verbalizar mais as supostas “faltas” de Gemma. Ainda bem que isso é relativizado no desenlace, especialmente na reação do filho, ao final do capítulo derradeiro.

Defeitos há, mas quem gosta de um bom drama com lances noveleiros domesticados e boas atuações com sotaque britânico, sucumbirá perante Doctor Foster. Infantis ou não, é engajador observar as reações e maquinações de Gemma; a cumplicidade de quem supõe manter-se neutro, mas ao silenciar escolhe um lado; a facilidade com que reputações são manchadas. Doctor Foster é muito sobre instabilidade rondando superfícies aparentemente tranquilas, em mais de uma esfera. E a cena em que Gemma solta os cachorros é para se ver mais de uma vez.

O sucesso inesperado fez com que a BBC anunciasse segunda temporada para este ano. Enquanto ela não chega, a primeira está na Netflix, com dublagem em português e tudo, para quem não curte legenda.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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