blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

O adeus à avó da moderna sitcom

A morte da atriz Mary Tyler Moore clama para que reconheçamos a importância de seu The Mary Tyler Moore Show para a TV mundial.


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Dia 25 de janeiro, faleceu a atriz Mary Tyler Moore, aos 80 anos. Com a TV ocupando espaço tão importante como plataforma de exibição de programas de alta qualidade artística e técnica, faz-se necessário recordar e celebrar o mais importante trabalho dessa comediante. As gerações mais novas provavelmente não suspeitem que parte do cenário televisivo atual é resultado do pioneirismo dos 168 episódios do The Mary Tyler Moore Show (TMTMS), sitcom exibida pela CBS entre 1970-77.

Desbravador, definidor de convenções do formato ainda usadas, bem atuado, TMTMS é prazer que funciona mesmo hoje, quando as insinuações sexuais dos 70’s não chocariam nem um pré-silábico e os preços considerados absurdos em alguns episódios são de graça na segunda década do século XXI, mesmo no Brasil do dólar a mais de três reais. O público talvez boiasse com alusões a Nixon; mas a recessão econômica é tão atual!

Algumas situações resultam desconfortáveis para a era das denúncias de assédio moral/sexual, como quando Ted espalha que estava tendo um relacionamento com Mary – sugerindo mesmo coito – e o conselho que ela recebe do chefe Lou é ”não ligar pra opinião alheia” e a própria não toma atitude, resolve (perdoa) tudo na conversa.

Típico de sitcoms: tudo se resolve na prosa. Murray encasqueta que quer um filho, a mulher não deseja mais engravidar depois de três meninas, eles brigam, Murray sai de casa, percebe que está sendo irredutível e tolo, o casal decide adotar e aparece com um garoto vietnamita já bem grandinho, que uma família não pôde adotar. Tudo em menos de 25 minutos; é a mágica liberal da resolução dos problemas mediante diálogo

Mary Richards é uma trintona que vem a Minneapolis trabalhar como produtora de um telejornal. A novidade – na década da Liberação Feminina – era o protagonismo feminino nessa faixa etária numa personagem que colocava a carreira antes dos relacionamentos pessoais. Não que Mary fosse virginal – ela possuía encontros e namorados – mas não ambicionava arrumar marido, como sua melhor amiga, Rhoda, que apesar do gênio forte e da independência, tinha em mente apenas arrumar um homem para chamar de seu. Pode parecer estranho para as garotas de hoje, mas então, uma mulher de 30 anos solteira, era vista com pena e/ou reprovação social. Mary Richards não ligava; tinha seu próprio apartamento, recebia amigos, saia, trabalhava, era resoluta e independente, mas ao mesmo tempo não temia mostrar seu lado mais frágil. Evitando radicalizações na representação da “nova mulher”, para torna-la palatável para o grande público, TMTMS contribuiu horrores para a rotineirização da imagem da mulher como a temos atualmente.

TMTMS discutiu temas importantes como desigualdade salarial devido ao gênero, greves e sindicatos (isso ocorreria hoje?), relacionar-se com mulheres com bastante “experiência”, a possibilidade de amizade entre uma mulher casada e um homem, um homem ir ao casamento de sua ex-esposa, além de uma personagem ser reconhecida como gay sem polêmica, juízo negativo ou cômico atrelado. O próprio uso do termo gay era meio novidade na época. A produtora de TMTMS – de propriedade da atriz e seu esposo – também não hesitou em contratar roteiristas mulheres para escreverem sobre esses novos tempos. TMTMS fez muita coisa.

TMTMS aperfeiçoou o conceito da personagem secundaria com traços próprios e gostável ou que o expectador ama não gostar ou odeia adorar. Rhoda, Phylis e Lou Grant ganharam séries individuais, as duas primeiras ainda durante a exibição sempre bem-sucedida de TMTMS. Quando as duas amigas de Mary ganharam programas próprios, os roteiros passaram a salientar as vidas e ações ao redor da WJM, pequena estação de TV onde Mary trabalha com o rabugento Lou Grant, o piadista simpático Murray, o âncora canastrão vaidoso e burro Ted Baxter e a ninfomaníaca Sue Ann Nivens (interpretada pela aparentemente imortal Betty White).

E que elenco para encarnar essas e outras personagens! Todos dão banho de interpretação e paparam diversos Emmys, além de terem permanecido em evidência mesmo após o término de TMTMS. A única a jamais emplacar outro sucesso foi Mary Tyler Moore, que tentou diversos shows sem passar da primeira temporada. Betty White brilhou em Super Gatas e ainda há pouco, já nonagenária, estava em Hot in Cleveland; Gavin McLeod foi ser capitão no Barco do Amor e assim por diante.

Até no derradeiro capítulo, TMTMS iniciou tendência seguida por tantos shows, vide The Golden Girls. É o padrão da vitória do menos provável a se dar bem, que, em 1977, nos Estados Unidos pós-Watergate e economicamente recessivos, permite leitura crítica ácida com relação ao estado do capitalismo à época. Martha Kauffman, uma das criadoras de Friends, afirmou que o episódio final de TMTMS inspirou o último capítulo da sitcom mais recente. Não é exagero afirmar que sem TMTMS não haveria condição de possibilidade para Friends.

A abertura ficou tão icônica que a cidade de Minneapolis dedicou estátua à Mary Tyler Moore atirando a boina para cima. A letra da clássica música-tema foi ligeiramente alterada a partir da primeira temporada, para ficar mais assertiva. Na primeira temporada ouve-se “you might just make it, after all”, ao passo que subsequentemente passou a ser “you’re gonna make it ater all”: não é que Mary simplesmente possa conseguir, ela vai conseguir! O fato da aparente desproporção entre o resto da letra com o que a personagem efetivamente realiza acaba funcionando a favor e não contra. Hiperbolicamente, Mary Richards é cantada como alguém que pode acender o mundo com um sorriso, fazer com que um dia insosso valha a pena e conquistar a cidade. Mas, durante sete anos, ela apenas trabalha numa pequena emissora de TV, sequer em função de chefia. Claro que diz muito o fato de o macho Lou Grant permanecer no mando da estação, durante o show todo, mas a aparente modéstia da conquista de Mary torna-a muito mais emptizável para a maioria de nós, que conseguimos mais ou menos o tanto que ela o fez.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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