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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

O legado de prince

Prince se foi deste planeta ano passado, mas sua influência permanece, como atestam dois álbuns recentes de cantoras por ele apadrinhadas


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2016 foi cruel para a música pop: perdemos Bowie, George Michael e Prince, só para citar os casos em que a mídia fez mais estardalhaço (merecido). O multi-instrumentista de Minneapolis pertence àquele seleto clube de alteradores culturais, como Beatles, Smiths, Kraftwerk, Bowie. Especialmente nos anos 80, algumas de suas canções definiram a sonoridade do momento. Tomaria tempo e espaço demais demonstrar a influência ou tentativa descarada de cópia em cima de Prince.

Álbuns que não foram sucesso de massa, como Dirty Mind (1980), exerceram influência incalculável com sua mistura de funk, new wave, rock. Guitarra e sintetizador. Jimi Hendrix com Sly and the Family Stone. Álbuns não tão inspirados, nem tão comercialmente exitosos, como Controversy (1981) trazem petardos de pura libido. Ouça os gritinhos finos e o vocal “másculo” de Sexuality, embalados pela malvada batida funk. James Brown com(o) diva funk-soul.

Prince é:

1) mistura de estilos e atrevimento polimorficamente perverso. Borrando, cruzando, não se importando com, transgredindo fronteiras musicais e de gênero. Homem, mulher, hetero, gay, bi, o que é/era Prince? Ele sabia que pop é pose e libido.

2) controle despótico e ultraindividualista da obra: em muitos álbuns, ele tocava todos os instrumentos. Nos shows, a banda tinha que seguir à risca suas imposições de visual. Se não, ele despedia. Na era da inauguração da MTV, o visionário sabia da importância da imagem. Elvis, The Pelvis, também, ou alguém duvida que o rebolado demoníaco e as costeletas exageradas não eram formas de diferenciação geni(t)ais? Os dois jogam na mesma liga do panteão pop.

Quando a gravadora ameaçou não lançar Kiss, funk minimalista, o artista mandou um recado: não lancem e não lhes darei mais singles. Claro que a canção foi lançada e... alcançou o número um, além de ser uma das coisas mais criativas da carreira.

3) coragem e talento para experimentar. Em 1984, depois que When Doves Cry estava mixada, ele simplesmente eliminou o baixo, que, junto com a bateria, geralmente são os definidores da levada na canção pop. Segundo consta, teria mormurado: “ninguém vai acreditar nisso”. E assim foi. A canção é uma das coisas mais chapantes da década, com sua locomotiva sexy-edipiana de sintetizador, guitarra serrada e aquele timbre da bateria eletrônica que Prince inventou e caracterizou muito dos 80’s.

Para aprender isso e muito mais, recomendo com veemência o documentário Prince: The Glory Years, que coloca suas lentes de aumento precisamente na década em que o Príncipe imperou. A ênfase é em canções, não álbuns, que, claro, são citados, mas de cada um deles, um par de pérolas são pinçadas e comentadas.

O tom predominante é de babação de ovo, mas reconhece-se, por exemplo, que Nothing Compares 2 U só importa porque Sinead O’Connor a reinventou em 1990.

E talvez você nem sonhe que Prince sonha canções, mas foi assim com Manic Monday (1986), hit meio neopsicodélico das Bangles. Prince sessentista? Sim, o músico foi influenciado pelos Beatles e Joni Mitchell.

O documentário termina com Batdance, seu último – e maior – single de sucesso arrasa-quarteirão. Dos anos 90 em diante, Sua Alteza deixou de lançar tendência, embora não tenha parado de compor canções memoráveis. Experimente Chelsea Rodgers, do álbum Planet Earth (2007), e veja se consegue não mexer os pezinhos.

Como quem é rei jamais perde a majestade, Prince continua(rá) influenciando o cenário pop. Vejamos dois álbuns que tem sua marca d’água

Judith Hill excursionara com astros do porte de Michael Jackson, Elton John e Steve Wonder antes de cair nas graças de Prince e gravar com ele seu álbum de estreia, Back In Time (2015). Se o título já não deixasse claro o saudosismo, bastaria constatar que a faixa de abertura, As Trains Go By, abre chiada como pré-diluvianos discos de vinil. E olha que esse funk midtempo é a canção que mais elementos modernos tem! A faixa-título, que fecha o álbum, é meio 90’s e isso também é uma das épocas menos saudosistas da coleção. O restante é um amálgama de funks anos 70, que podem ser midtempo, como My People ou Turn Up ou de descadeirar, como Jammin In The Basement, ou de incendiar a genitália como Wild Tonight.

Há o jazz sexy de Love Trip, que os fãs de Gal Costa perceberão pertencer à dinastia d’A História de Lili Braun, do Grande Circo Místico. Há blues com guitarra rebolante (Cry, Cry, Cry), retro-soul (Cure) e baladas: mais pesadas e trip-hoppadas, como Angel In The Dark ou leves com delicadeza de cordas e teclas, como Beautiful Life.

Tudo muito bem feito, com voz forte, participação de Prince em diversas canções, Back In Time não se aventura, mas entrega o que mais importa: boa música.

A dinamarquesa Ida Nielsen estudou baixo na Escola Real de Música, em Copenhague, e tocou em duas bandas de apoio de Prince: 3rdeyegirl e The New Power Generation. Alcunhada Bassida ou Ida Funkhouser, lançou seu terceiro álbum, Turnitup, em agosto de 2016, apropriadamente em memória do gênio baixinho.

E que tributo! Turnitup abunda em pop-funk incandescente, especialmente nas faixas mais rápidas, mortalmente sensuais. Heart Of Stone - funk com percussão de samba e rap, cheia de gemidos e gritos marotos – é descarga absurda de libido, que deveria ter atingido o topo de todas as paradas e lá estar até hoje. Outras pauladas são Showmewhatugot, com seu vocal dancehall e I Really Think Ur Cute, com linha fatal de baixo, profuso num álbum que em seus momentos mais sexy lembra o trabalho da brasileira Fernanda Abreu nos 90’s e início dos 00’s. Como ficar quieto em Fatty Papa Eddy ou One Time?

O filé de Turnitup são as faixas saltitantes e esse efeito está até nas midtempo como The Librarian e Throwback. Nielsen hibridiza seu funk ao incorporar reggae (Free Ur Mind) e latinidad rumbada em Sorry. As lentas têm um quê indiano (How Many Times e What), embora caminhem em direções estéticas dessemelhantes.

Reconfortante saber que Prince esteja tão bem representado nessa esfera terrena.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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