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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Os Beatles do pop eletrônico

O lançamento de caprichada caixa de DVDs/CDs ao vivo é excelente oportunidade de celebrar o impacto do Kraftwerk na música contemporânea.


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Se fizerem um genoma da música popular contemporânea, acharão o cromossomo K, do Kraftwerk. O grupo alemão influenciou até a guitarra roqueira de Neil Young, em seu álbum de 1982. Aprende-se isso no documentário Kraftwerk and the Electronic Revolution (2008). Se as quase 3 horas de programa tivessem sido produzidas posteriormente, possivelmente teria se referido ao Coldplay usar o riff de Computer Love para construir Talk.

Quase uma hora transcorre até chegar ao Kraft. Os documentaristas fornecem vasto background histórico e estético da Alemanha do pós-guerra até os 70’s, da música eletrônica, concreta e pop, incluindo alguns aspectos de um tipo de música popular germânica chamada schlager, esvaziada de sua artificialidade de sacarina pela secura e planura estudadas dos vocais da banda. A terraplanagem do terreno é tão minuciosa que até a influência das trilhas sonoras de filmes de ficção dos anos 50 e 60 é mencionada.

Quando falando sobre o grupo, o programa revela as conexões e contradições planejadas entre o visual retrô - remetente a um passado que a Alemanha queria esquecer - e o conteúdo revolucionariamente moderno/futurista da sonoridade. Focando a década de 70/começo dos 1980’s, Kraftwerk and the Electronic Revolution cartografa a mudança de visual dos próprios integrantes, de pseudocientistas, passando por sarcásticos almofadinhas do período social democrata à desumanização robótico-computacional oitentista, que resulta praticamente no desaparecimento dos membros do Kraft, especialmente quando já não mais dão conta de serem vanguarda.

Em termos musicais, o filme alinhava os conceitos e resultados obtidos desde o experimentalismo dos primeiros álbuns, até o oitentista Computer World. Quem imaginaria que o conceito de Autobhan (1974) tem a ver com os Beach Boys?

Os ultrafechados Florian e Ralf não participaram do documentário não autorizado. Karl Bartos – participante de todos os álbuns fundamentais – conta sobre influências, alguns processos de composição e sua consciência do impacto do Kraftwerk na cultura musical contemporânea. Elogios à garotada inglesa que utilizou as deixas para criar algo – como o Human League – e discreto dardo envenenado no pobre Gary Numan.

Para não iniciados, Kraftwerk and the Electronic Revolution pode ser longo demais, mas há que se ter em mente a importância desses alemães pertencentes à rarefeita casta de artistas capazes de definir a sonoridade de uma época.

Na semana de 26 de maio, comemorou-se com merecido foguetório o cinquentenário do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, que irrigou parte do pop contemporâneo, especialmente uma vertente que amo, o rock progressivo. Parabéns aos Fab Four pela conquista, mas passei a semana ouvindo os Beatles da música eletrônica, o Kraftwerk.

Infinitamente menos conhecidos do grande público, o quarteto germânico virou o cromossomo K do genoma da música pop eletrônica. Não há subgênero que escape à influência de Ralf Hütter, Florian Schneider, Karl Bartos e Wolfgang Flür, que se espraia também pelo punk e várias subdivisões da música negra, como o hip hop. Não é exagero dizer que não passa mês sem que a batida de Tour de France ou Numbers seja sampleada. Decerto há jovem fazendo electro meio sem saber quem é o Kraft, mas usando suas inovações tecnológicas e/ou samples.

Em semana tão simbólica para o cancioneiro pop, escutar os alemães ao invés dos veneráveis/venerados britânicos não foi birrinha infantil ou desejo de fazer heresia cultural. É que o Kraftwerk lançou precisamente no dia 26 de maio uma supercaixa em vários formatos, chamada Kraftwerk 3-D: The Catalogue.

Da formação clássica resta apenas Ralf Hütter, quem dá as cartas pra Henning Schmitz, Fritz Hilpert e Falk Grieffenhagen. Homem de negócios de primeira e cônscio de que o Karftwerk é instituição, Hütter decidiu que entre 2012-16, tocariam a discografia completa em respeitosos museus, óperas e centros culturais ao redor do globo. Duas observações:

a) Por completa, entenda-se que a banda há décadas desconsidera Kraftwerk I (1970) e II (1972) e Ralf und Florian (1973), assim a discografia oficial inicia-se em 1974, com Autobahn. Nem sei se os 3 LPs rejeitados encontram-se em catálogo.

b) Por completa, entenda-se que Hütter reduziu o tempo de faixas e fundiu outras, porque se tratava de encaixar o material em shows.

Foram séries de espetáculos elogiados como extravagâncias tecnológico-visuais em 3-D, em locais badalados como o MoMA (Nova York), o Tate Modern Turbine Hall (Londres), as óperas de Sydney e Oslo, a Fundação Louis Vuitton (Paris) e a Neue National Galerie (Berlin). No repertório, os álbuns: Autobahn (1974), Radio-Activity (1975), Trans Europe Express (1977), The Man-Machine (1978), Computer World (1981), Techno Pop (1986), The Mix (1991) and Tour De France (2003). O material realmente seminal corresponde ao período de 74-81, quando os reservados teutônicos influenciavam até o Camaleão do Rock.

Caso você não tenha paciência para ver shows, pode optar pelo formato de 8 CDs, com 42 faixas. Poderiam ser menos CDs, uma vez que o mais longo não passa de 38 minutos, mas certamente a banda desejou manter a simbologia dos álbuns individuais. E o departamento comercial da Parlophone, cobrar mais.

Puristas sonoros, as reações da plateia foram eliminadas das gravações, inclusive aplausos, então é como se fosse um ao vivo no estúdio. Melhor, a tecnologia mais avançada de hoje permite algumas filigranas e efeitos impossíveis à época dos álbuns. Além disso, algumas canções estão com arranjos distintos; outras mesclam a versão original com a constante no álbum The Mix, caso de Radioactivity; outras mais rápidas, como Airwaves.

Fãs mais idosos poderão estranhar um bocadinho os vocais, que tentam soar como os originais, mas mesmo bem parecidos, diferem um pouco, mas qual trabalho ao vivo soa idêntico? Isso é procurar pelo em ovo, porém, porque tudo que amamos está lá: as vozes robotizadas; aquelas lambadas agudas de sintetizador fustigando deliciosamente o tímpano; a percussão seca e eletrônica, mas com o sangue quente africano; o rigor inexorável metalizado da música simulando trem; as minissinfonias eletrônicas; a repetição hipnótica de arranjos minimalistas ou complexos; contadores Geiger e estática alçados à condição de música e, sobretudo, aquela visão, hoje fracassada, de como soaria um futuro atômico-espacial de metrópoles de neon.

Kraftwerk 3-D: The Catalogue é necessário e pertinente companheiro diversificador para os álbuns originais. Serve como catálogo de bolso pela redução dos tempos de execução; serve como introdução para as gerações desconhecedoras da Luz e da Verdade da Usina de Força.

Serve, porque é Kraftwerk.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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