blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Representações do conflito Israel versus palestinos

Triste e perigoso, o conflito entre árabes e judeus tem custado muitas vidas, mas também gerado filmes e séries. Vejamos dois exemplos recentes.


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O doutor Amin Jaafari vive o sonho integracionista em Tel Aviv: palestino cercado de amigos judeus, bem-casado, recipiente do “Oscar da medicina israelense”, sequência de abertura de O Atentado (2013), dirigido por Ziad Doueiri, coprodução França/Qatar/Bélgica/Egito.

Na manhã seguinte à premiação, Tel Aviv é abalada por ataque suicida a um restaurante, resultando na morte de uma dúzia de crianças, estratagema do roteiro para tornar a situação mais radical. E eis que o Dr. Jaafari descobre que a mulher-bomba é ninguém menos que sua idealizada esposa. A partir daí inicia-se peregrinação de descobertas político-pessoais. O médico tem que lidar com a demolição de seu mundo particular e de sua inocência social. Para que estrangeiros possamos agonizar com o ponto de vista do médico, o roteiro teve que pedir licença poética para construí-lo provavelmente inocente demais para quem vive no caldeirão fervente da contenda entre judeus e palestinos, que pressupõe atentados terroristas, massacres, rixas seculares e disputas territoriais às quais vemos pelos noticiários.

O ataque, então, acontece física, emocional e identitariamente a Amin. Como será de agora em diante, seu relacionamento com os amigos judeus? Até que ponto esses são realmente amigos? Como o viúvo receberá e lidará com as reações dos israelenses? Afinal, Amin é a exceção que não se enxerga ou é percebida como tal. Quantos outros palestinos bem-sucedidos e socialmente tolerados vemos no filme?

Procurando respostas, Amin viaja para a cisjordânica Nablus e percebe que nada entendia sobre sua posição em qualquer um dos lados rivais. Os roteiristas Doueiri e Joëlle Touma simplificam demais a conversão da bela Siham em terrorista e pedem demais do pobre Jaafari em seu relacionamento pessoal (como culpa-lo por não atender o celular, quando está prestes a subir ao palco para receber os louros?), mas como o fulcro da película está na (im)possibilidade de (co)exisitir sem tomar partido, há que se relevar esses traços.

O Atentado tenta apresentar argumentos de ambos os lados, ainda que não esteja em seu escopo situar o ódio étnico historicamente. Sem didatismo ou proselitismo explícitos, propõe questionamentos que cabem ser respondidos pelo espectador. Mas, será que existe solução? Será que todo judeu é um pouquinho árabe e nenhum árabe pode negar ser um bocadinho judeu, como diz Amin em seu discurso na premiação?

Vez ou outra a TV israelense fornece aos norte-americanos inspiração para adaptações. Os originais de sucessos como In Treatment, Homeland e Hostages são israelenses. O pequeno país asiático infelizmente é mais afamado pela perene e sangrenta luta contra palestinos. De 2015, a dúzia de capítulos da primeira temporada de Fauda acresce material ficcional de qualidade às narrativas sobre o conflito.

Doron é ex-agente de um grupo da elite antiterrorista israelense convidado a se desaposentar para eliminar de vez Abu Ahmed, líder do Hamas que se acreditava morto por Doron, só que não. Típico de série, Doron faz doce no começo, mas assim que aceita, tudo e todos a seu redor e de Ahmed envolvem-se, numa espiral de violência e caos (fauda em árabe). Tem mulher-bomba, criança como mercadoria de troca em sequestro, traição; infidelidade conjugal, em suspense crescente a cada episódio, atingindo clímax de roer unha no derradeiro, que deixa uma deixa perversa, perigosa e fanática para a confirmada segunda temporada.

Fauda usa os elementos convencionais de thriller político/de espionagem em um ambiente propício para ambivalências. Árabes e judeus estão grudados – para nós estrangeiros nem dá para distinguir – e mesmo dentre os grupos há rachaduras. Claro que sendo israelense, vemos mais as cisões no lado árabe, mas estes não são representados como animais selvagens sem motivação ou “amor”. Nem os judeus são ungidos sem defeitos. Em Israel houve quem reclamasse disso. No caso do Brasil, há quem reclamará que a dublagem da Netflix apenas do hebraico sub-repticiamente traz o espectador para o lado judeu, afinal o árabe falando sua língua com legenda soa como “o outro”.

Conhecendo melhor Doron, difícil mesmo negar que a empatia fique com ele, até porque algumas atitudes do lado árabe não são nossas escolhas primeiras como ocidentais. Temos mais a ver com o lado israelense na informalidade das relações, na postura perante a mulher, até na tolerância com um baseadinho. Mas a série é sob o ponto de vista israelense, isso nunca pode ser olvidado. Com um elencaço em ambos os lados – que ingrato fazer os papéis de Abu Ahmed e Walid, mas os atores conseguem projetar mais do que máquinas de vingança e fanatismo – Fauda prende a atenção não apenas pela trama eficiente, mas pela locação tão distinta das séries anglo-americanas/europeias. Também é muito legal perceber diferenças culturais tipo, como aqueles homens se tocam/beijam ao passo que as mulheres, não! Tão diferente da distância masculina nas séries ianques ou nórdicas. É bom sair do circuito das séries norte-americanas de quando em vez para olhar o distinto. Aprender que quando alguém morre por Alá é chamado de shahid (mártir). Infelizmente, vivemos num mundo onde isso existe, por que não saber? Se essas informações e olhares sobre o diferente vêm numa série absorvente, melhor ainda.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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