blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Um dos grandes álbuns de rock progressivo de 2016

A banda britânica Big Big Train demonstrou vez mais sua maestria com o álbum Folklore, que traz pelo menos duas obras-primas do subgênero.


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Durante a maior parte de sua já longa carreira o Big Big Train (BBT) tem sido independente, exceto por um par de anos nos 90’s, quando assinou com a Giant Electric Pea. Também tem sido banda de estúdio; apresentações ao vivo começaram ano passado, em Londres, saudadas pela diminuta comunidade prog.

Fundada no início dos anos 90 por fãs do Genesis, Van Der Graaf Generator e da Neo Prog IQ, o Big Big Train sempre esteve na fronteira entre o Prog e o Neo. A familiaridade com o venerável grupo de Peter Gabriel/Phil Collins não pode ser olvidada. A voz de David Longdon às vezes lembra a dos dois colegas mais famosos e o baterista é Nick D’Virgilio, um dos substitutos das baquetas vagas pela defecção de Collins e que tocou no desastroso Calling All Stations (1997). Não usemos isso contra o batera e nem a similaridade vocal contra Longdon, que está cantando melhor do que jamais, mas os fatos explicam bastante porque alguns momentos do nono álbum – Folklore, lançado dia 27 de maio de 2016 – soam como We Can’t Dance (1991) poderia ter sido, caso Banks/Collins/Rutherford estivessem com tempo para fazer boa música e não consumidos com intermináveis turnês e contagem de dinheiro. Ouça a faixa-título e Wassail e digam se não tem jeitão de Genesis early 90’s.

A beleza do BBT é que a influência genesiana e de outros clássicos progressivos, como Jethro Tull e Renaissance, é ressignificada para criar sonoridade que é da banda, mas claramente pertence a uma tradição subgenérica, a saber, a do rock progressivo de mat(r)iz britânica. Ouça a faixa-título novamente e digam se não tem teclado fase Banks início dos 70’s e música celta, coexistindo com a vibe noventista.

A influência celta deve justificar o folclórico título do álbum. Em Winkie, a pastoralidade é rapidamente substituída por dança de aquecimento para uma batalha entre celtas e saxões. Dá vontade de pintar a cara de azul, calçar os sapatos vermelhos da Kate Bush (ouça a faixa-título de seu álbum de 93 e digam...) e lutar pela Escócia! As canções, porém, nunca são lineares; o mutável clima em Winkie reflete a história do pombo-correio que tem a missão de transportar mensagem que pode salvar soldados ilhados. Quase 8 minutos e meio de extravagância prog e isso nem é o melhor do álbum. Winkieeeeeeeeeeeeeeee!

London Plane, Along The Ridgeway e Salisbury Giant intercalam a melancolia prog tão pastoral britânica de começo dos anos 70 com momentos mais vibrantes – mas não pesados – prenhes de Mellotron, Moog e flautas e de vez em quando piscada para o Yes e o Tull. Como Longdon canta! E ainda nem falei sobre os picos de excelência de Folklore.

O primeiro vem com os mais de 7 minutos de The Transit Of Venus Across The Sun. Quer mais prog do que paralelizar um relacionamento com um fenômeno astronômico? Se você digitar o título da canção no Google, encontrará todas as informações e até vídeos sobre o trânsito venusiano. A canção abre como hino religioso, vira melodia do Genesis fase 12-string guitar e vocal muito Peter Gabriel e segue se movendo numa melodia memorável com harmonias vocais de arrepiar e o orgasmo quando todos esses elementos se unem.

A catarse everéstica fica por conta da dúzia de minutos e meio de Brooklands, épico progressivo que quando se acha que vai acabar, muda o andamento e nova avalanche instrumental soterra o ouvinte numa canção espertamente construída por uma guitarra que não sola quilometricamente sozinha, mas à Steve Hackett costura por baixo unindo e conduzindo tudo. Brooklands é a penúltima faixa de Folklore, que não acaba com essa apoteose, embora pareça duro de crer. Telling The Bees ajuda a baixar o surto de euforia (assim que você despressionar a tecla repeat) com um pequeno milagre início dos 70’s, que logra misturar country com soul e ainda Tony Banks. The Cowboy Junkies encontra Gladys Knight & The Pipes e Tony Banks.

O Big Big Train finalmente conseguiu achar o equilíbrio entre progressivo e neo prog, entre suas influências explícitas e seu talento próprio, entre técnica e emoção. O resultado é um álbum que constou em todas as listas de melhores LPs de rock progressivo de 2016 e ajudou o Big Big Train a levar o prêmio de melhor banda do ano, no Prog Awards.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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