blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

A DOUTORA FOSTER CONTINUA PERTURBADA

A segunda temporada do bem-sucedido drama da BBC segue demolidora


Doctor.jpg Estereotipicamente, britânicos são percebidos como posudos, fleumáticos. A aspiração a ser mais do que se é chamou-me bastante a atenção na climática primeira temporada de Doctor Foster (2015), sucesso da BBC disponível na Netflix.

Dois anos depois, a estatal inglesa exibiu a meia dezena de capítulos da segunda temporada e a sensação permanece: a densidade psicológica pretendida convive com fartos elementos de melodrama e até cenas sem função, como a médica acendendo cigarro na conclusão de um episódio, sob trilha-sonora à Revenge. Que diabos a ignição de um cigarro tem de decisivo?

Tudo parecia ajeitado na vida de Gemma Foster e de seu filho Tom, depois que Simon se escafedera da cidade com sua nova esposa, muito mais jovem. Eis que de repente, o ex-marido retorna com sua loirinha mignon, numa supercasa com piscina e disposto a enxotar Gemma da urbe. Ao ser confrontada com a volta do ex, a médica surta e seu ódio de mulher traída e de morar numa casa menor aflora, provando que 2 anos não foram suficientes pra cicatrizar as feridas. Daí, começam as escaramuças entre Simon e Gemma, com muita coisa infantil, mas isso não é defeito, porque está de acordo com a imaturidade desses 2 narcisistas doidinhos.

De Congreve passamos pro universo inspirado pelas tragédias burguesas do norueguês Ibsen. Existe um estado de aparente tranquilidade, quando um forasteiro chega e desequilibra tudo. Mas, como estamos num mundo pós-lacaniano, as personagens se machucam muito, então Doctor Foster ás vezes poderia ser descrita meio como Ibsen encontra Albee.

No começo quieta, como na temporada inicial, a tensão escala na segunda temporada, cuja tragédia verdadeira é a cegueira absoluta de Gemma e Simon pros efeitos devastadores que sua guerra pós-conjugal tem sobre o filho adolescente Tom, literalmente empurrado e puxado por entre os pais. Simon é decididamente o vilão de Doctor Foster, mas não dá pra isentar Gemma de muita culpa nesse cartório de vaidades.

Para o espectador, a fúria e crueldade infantis de Gemma e Simon também podem resultar devastadoras. Decididamente middlebrow, Doctor Foster voltou tão amargamente divertida quanto a temporada um.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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