blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

A invasão belga começou! (e tomara que continue)

Eles não são craques só no futebol. A Netflix tem duas séries da Bélgica, que batem um bolão.


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Na matéria do The Guardian declarando a Bélgica como a nova Escandinávia para quem quer TV cult, a diretora Indra Siera revelou que, como orçamentos não conseguem competir com os anglo-americanos, os belgas recorrem à originalidade, inserindo sequências meio doidivanas, surrealices, sonhos, números de dança, enfim, algo que torne seu produto distinto do atual oceano de séries.

Realmente, o pequenino reino vem se projetando como força europeia de séries. Canais como Hulu, Channel 4 e Sky Atlantic tem transmitido shows de lá, positivamente resenhados em jornais culturetes, tipo Variety. Cordon, drama apocalíptico de contaminação viral, foi adaptado pela toda-poderosa TV estadunidense, sob o nome Containment.

A Netflix começou a sintonizar o Brasil com a produção belga, através da adição das elogiadas Tabula Rasa (2017) e La Trêve (2016). Suspenses policiais psicológicos com bastante coisa em comum, como começos lentos e ênfase na (re-)construção da memória. Para quem gosta de ver mais de uma série ao mesmo tempo, seria instrutivo vê-las juntas para captar similitudes. Para maratonistas compulsivos, ambas também são indicadas.

Em Tabula Rasa, Mie é paciente-prisioneira em um sanatório, suspeita de assassinato. Apresenta quadro agudo de amnésia anterógrada, desde que sofreu grave acidente automobilístico: capaz de lembrar tudo do antes, suas memórias do pós-desastre são apagadas diariamente e por isso, a mãe e esposa tem que recorrer a truques mnemônicos.

Esse thriller elegantemente filmado em tons sombrios ou vermelhos (uma areia que deve simbolizar a transitoriedade da memória de Mie), pula o tempo todo entre o presente do hospital psiquiátrico e o passado, a partir de três meses antes do acidente. Como o tema central é a memória, ou sua perda, reconstrução, mistificação, Tabula Rasa tem o espaço devido para cenas meio oníricas e de devaneio, além até de certo clima de filme de terror psicológico e de casa mal-assombrada. Há momentos que não sabemos se é doideira de Mie; se tem fantasma; se há alguém tentando jogar a culpa nela.

Há uma reviravolta de derrubar o telespectador da cadeira, obrigando-o a cambiar toda a perspectiva com que avaliava os fatos. Tabula Rasa tem sido universalmente aclamada e o merece: a trama é muito bem bolada e o nível de deliciosa implausibilidade beira o de thriller espanhol.

O ótimo desempenho da Bélgica na Copa da Rússia mostrou que o futebol é bem popular e valorizado por lá. Não surpreende, portanto, que uma das subtramas de La Trêve envolva corrupção nas apostas futebolísticas, que acaba transbordando para os resultados do campeonato das divisões inferiores.

Não tema quem não aprecia esportes: isso é apenas um dos panos de fundo para uma dezena de capítulos, que, como Tabula Rasa, começam lentos para se metamorfosearem em tensa e surpreendente tragédia humana.

Após sérios problemas em Bruxelas, o detetive Yoann Peeters (curiosamente interpretado por um ator chamado Yoann Blanc) retorna para sua cidadezinha natal, a qual abandonara há décadas, com sua filha adolescente. Basta ele chegar, para que o corpo do jogador de futebol africano Driss Assani seja encontrado barbaramente machucado, boiando no rio.

Praxe em séries detetivescas, diversas subtramas revelam a sordidez da aldeia, enquanto a peculiaridade belga revelada por Indra Siera manifesta-se pela inserção de cenas oníricas, em sua maioria, em chave de pesadelo. Há algo de mais estranho no ar, porém: enquanto Peeters procede sua investigação, cada vez mais descontrolado e drogado, vemos cenas de sessões suas com uma terapeuta. Quando finalmente percebemos como os fragmentos desse quebra-cabeça mental se encaixam, La Trêve nos apresenta sua reviravolta, que ensaia colidir com Broadchurch, série britânica das mais influentes da década, no quesito suspense policial. Mas, La Trêve não seria tão boa, se fosse decalque. Pirueta pós pirueta, os capítulos finais provam que o show bate continência para Broadchurch, mas constrói seu próprio mundo.

É torcer para que a Netflix continue injetando talento belga em nosso menu. Ainda tem muita coisa a ser incorporada: Cordon, Professor T, Salamander, Ennemi Public, Rough Justice, 13 Commandments, Clan, Hotel Beau Séjour e ainda faltam nomes na lista.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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