blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

a série norueguesa que moscou odeia

Okkupert imagina uma invasão russa objetivando controlar a indústria petrolífera do rico país europeu.


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Até os anos 70, a Noruega era Europa de segunda classe, tipo Grécia. A descoberta de petróleo no Mar do Norte mudou tudo: com níveis de corrupção talvez menores do que em certos países nossos conhecidos, parte substancial do dinheiro foi investida para subsidiar indústrias auxiliares/complementares à da exploração marítima de petróleo. Assim, o país escandinavo passou a ganhar não apenas com gás e combustível, mas também exportando tecnologia e serviços. O resultado é uma nação com cofres transbordando.

O escritor de Scandi Noir Jo Nesbø teve uma ideia: o que aconteceria num futuro próximo, caso o Partido Verde assumisse o poder e cessasse a produção de petróleo e gás, deixando a Europa na mão? Essa é a premissa dos 10 capítulos da primeira temporada de Okkupert, exibida pela TV norueguesa em outubro de 2015. A tecnologia norueguesa encontrara no tório um substituto limpo e renovável para o petróleo. Assim, para livrar o planeta do caos do superaquecimento, o Primeiro-Ministro Jesper Berg paralisa a exploração petrolífera. A União Europeia retalia apoiando uma invasão russa da Noruega. Os Estados Unidos não intervêm, porque àquela altura já eram autossuficientes na produção de energia.

Occupied é thriller político (in)tenso, escuro e cheio de detalhes, mas para desfrutá-lo, você terá que perdoar/aceitar o absurdo geral da premissa. Imagine que a Noruega pararia a produção/exportação de petróleo/gás sem antes construir a infraestrutura necessária para substituição pelo tório, até porque ela entupiria mais ainda os cofres de dinheiro. Imagine que os EUA ficariam inertes vendo a Rússia aumentar seu poderio na rica e estratégica Europa.

Se você consegue olvidar isso, Okkupert é de alta qualidade. A riqueza de detalhes certamente será mais percebida se o espectador for escandinófilo e/ou gostar de História. O tório existe mesmo e foi descoberto por um norueguês; os dois países europeus individualmente citados no complô são França e Suécia, remetendo a metáforas com a 2ª Guerra, quando ambas nações tiveram governos colaboracionistas com os nazistas; a Noruega jamais quis participar da União Europeia (houve referendo em 1972 e a população disse não). Mas não tema, caso você apenas queira uma série que mantenha o interesse: o programa não necessita de notas de rodapé ou padece da chatice de mil explicações. Uma das possíveis leituras de Okkupert são as consequências de um governo inapto/inepto. E olha um certo país que bem conhecemos se aproximando da Noruega! Também faz de Jesper Berg uma personagem algo ridícula, mas Henrik Mestad está incrível, como o resto do elenco multinacional da minissérie mais cara da história norueguesa.

O governo russo protestou, porque retoma os tempos da Rússia malvada da Guerra Fria. Exatamente, e mesmo com endosso da Europa “democrática” e os EUA traindo bonito, o foco da vileza recai sobre os russos invasores. Nada como ter má fama cuidadosamente construída por décadas e ganhar mais tempo diegético.

Como se vê, há pano para manga extralonga em Okkupert, mas no fundo, o mais excitante é a história absorvente, o crescendo da presença do inimigo no dia-a-dia da população, a mudança de colaboracionistas por conveniência em resistentes clandestinos e a tensão contínua da dezena de capítulos.

Em outubro, de 2017, foram ao ar os oito capítulos da temporada segunda. A essa altura, a produção já era badalada a ponto de estar nas grades da Netflix de diversos países.

O foco mudou do tema ecológico como desencadeador da invasão, para a possibilidade de expulsão de força inimiga/opressora, sem uso de violência. No mundo ficcional de Okkupert, ocupações militares e resistência a ela são engendradas sem muito derramamento de sangue ou luta armada. Guerra do bem, polida, travada nos tribunais da União Europeia ou mediante flash mobs combinados em aplicativos desenvolvidos por hackers, que anseiam por uma Noruega livre, porém sem o inconveniente da destruição de patrimônios ou perdas de vidas.

Discutir a factibilidade desse tipo de resistência não é escopo de uma resenha, então isso fica para analistas geopolíticos. O que importa aqui é que como suspense político, Okkupert continue funcionando. Jesper Berg agora é o líder da oposição, exilado na Suécia e sua ex-amante Anita Rygh assume como Primeira-Ministra em estilo bem golpista. Com a anuência da EU e descaso inverossímil dos EUA, a importante Noruega passa a ser bem parecida com certos países latino-americanos com governos fantoches. Mas, tudo continua lindo, limpo, farto, e, claro, frio. Durante toda a temporada, vemos traições, mudanças de lado, tudo meio sem fundamento e improvável, mas, se você suspender a descrença, é bem aderente.

Algumas personagens perdem um bocado a razão de ser e bem poderiam ter sido eliminadas ou redirecionadas. Por exemplo, o envolvimento de Bente Norum com o russo Nikolaj certamente paraleliza o que passou na Segunda Guerra com noruegueses que se deitaram com alemães. O ostracismo social a Bente é apontado, mas não explorado, até porque o foco da temporada é briga de cachorros-grandes.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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