blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Angelina Jolie, ativista

A estrela usa seu prestígio para produzir/dirigir filmes socialmente relevantes.


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A despeito da tediosa sequência de esquisitices e escândalos, Angelina Jolie tem um lado admirável: usar seu prestígio para possibilitar projetos fílmicos de empoderamento feminino. Vamos dar uma olhada em três produções muito boas e que têm o dedo de Jolie. As duas primeiras estão no catálogo da Netflix brasileira.

First They Killed My Father (2017) foi dirigido e roteirizado por ela, em parceria com Loung Ung, autora do livro que relata todas as barbaridades mostradas.

Para causar efeito dominó de caos no sudeste asiático, os EUA secretamente encheram de bomba o “aliado” governo do Camboja. Com a derrota no Vietnã, os norte-americanos queriam mesmo era que o circo pegasse fogo. E como pegou! O comunista Khmer Vermelho aproveitou a fraqueza do governo central e tomou o poder, iniciando guerra civil e ditadura genocida que ceifou um quinto da população cambojana. O roteiro de Jolie enfatiza o horror da ditadura, mas corretamente aponta que um dos culpados pelo triunfo vermelho no Camboja dos 1970’s foi precisamente o país que mais propaganda anticomuna propaga.

Mas, as espetaculares mais de duas horas de diegese centram-se nas agruras experienciadas por uma menina vilipendiada de todo jeito. Jolie ama mostrar histórias de garotas que superam seus traumas e fantasmas, depois de terem comido cobras e aranhas, literalmente no caso de First They Killed My Father (FTKMF).

A história de Loung Ung é de arrepiar. Menininha ainda, com seus cinco anos, é obrigada a deixar o conforto de sua casa de classe média na capital cambojana e inicia dantesca odisseia, marcada por fome, brutalidade e opressão nos campos de “correção”, mantidos pelos déspotas fanáticos do Khmer, que usam o comunismo como desculpa para descontar recalques e impor sádicas vontades e disciplinas.

Com uma câmera na não, que filma na maior parte desde o ponto de vista da pequena Loung, Jolie dá aula magna de enquadramento, perspectiva, diversificação de foco de primeira para terceira pessoa, recurso que paraleliza o intercalar de segmentos de sonho/devaneio, com suas mudanças cromáticas.

Por ser dramática demais, com suas minas terrestres explodindo mães com crianças e gente esquálida de desnutrição, FTKMF não necessita se escorar em melodrama hollywoodiano, tampouco se esforça para edulcorar a experiência.

Provavelmente não se pode dizer que Loung Ung tenha superado o genocídio que testemunhou, mas seu relato certamente comove e inspira.

A Ganha-Pão (2017) é coprodução Irlanda/Canadá/Luxemburgo, da qual a ex-Sra. Pitt é uma das produtoras-executivas. The Breadwinner é totalmente girrrrrl power: baseado num best-seller de Deborah Ellis; roteirizado pela própria e Anita Doron e dirigido por Nora Twomey.

Desta feita, Jolie financiou denúncia contra a torpeza machista Talibã, que seu país de origem ajudou a criar, quando injetou grana nos fundamentalistas que lutavam contra a invasão soviética no Afeganistão, em 1978. Capitalistas, comunistas, cristãos, muçulmanos, os próprios afegãos; todo mundo ajudou a destroçar o pobre país asiático.

Exaurido pela guerra e oprimido pelo Talibã, cada um se vira como pode na capital Cabul. Mas, se você for mulher é praticamente impossível sobreviver, se não tiver homem para chamar de seu. Além de não poderem estudar ou expor o rosto em público, elas sequer podem sair de casa desacompanhadas. Nem para comprar remédio ou comida. Nem que não tenham marido ou filho, porque morreram na guerra. Ilógico; mas quem disse que torpeza tem lógica? Para se certificar de que a “decência” seja mantida, prepotentes jovens talibãs circulam de metralhadora em punho, abusando autoridade para os que são menos que eles.

A menina Parvana vive nesse inferno com seu pai, mãe e irmãos. Seu pai era professor e perdera perna no conflito contra os soviéticos, por isso se viu na condição de vender sobras do que possuía em casa, nas ruas. Discordante do fundamentalismo Taliban, ensinou a filha a ler e a valorizar o poder de contar histórias. Essa dissidência atrai ódio de ex-aluno Talibã, que o denuncia. Quando o pai é preso, Parvana se vê impedida até de conseguir comida, então, faz o que tem a seu alcance: corta os cabelos e se disfarça de menino para ganhar a vida e tentar libertar seu pai.

A Ganha-Pão funciona em vários níveis, porque paralela à história “mundana” de Parvana, há um mito por ela contado aos poucos, à Mil e Uma Noites. No final explosivo, mas modesto – Parvana não tem poder para mudar o sistema, como mentem produções ianques – as duas histórias se unem e complementam.

A animação é deslumbrante; luxuosa em detalhes, que vão do colorido das roupas em Cabul, à paisagem desoladora, mas fascinante, de um cemitério de tanques de guerra e campos minados. Tudo embalado pela excitante trilha-sonora de Mychael e Jeff Danna, que mistura sons “árabes”, com alguma coisa mais ocidentalizada num resultado que dá vontade de adquirir a banda sonora por si só.

Por mais inspiradora que seja a história de resiliência e superação de Parvana, não se deve perder de vista que se trata de uma história mais aterrorizante e triste do que qualquer filme de horror poderia imaginar.

A Ganha-Pão é sobre infâncias roubadas, brutalizadas, onde crianças têm que tomar cuidado com “brinquedos” encontrados na rua, porque podem ser bombas letais. Quando se escuta o espectro do irmão de Parvana dizendo isso em tom de verso mítico, difícil não vir um nó à garganta. Depois, quando uma criança assim vira Talibã, pergunta-se por quê.

O filme etíope Difret (2014) conseguiu certa visibilidade, porque uma de suas produtoras-executivas é Angelina, cujo nome é usado em sua promoção: “Angelina Jolie apresenta...”. Não é culpa dela que o mundo funcione assim, mas é pena que produções africanas sejam tão desconhecidas e precisem de certificado estelar para receberem alguma atenção.

Em amárico, um dos idiomas falados no país, difret tem duplo sentido: ousar ou o ato de ser violentada. A história de Difret é baseada em fatos e aconteceu em meados dos 90’s. Hirut, campesina de 14 anos, foi abduzida enquanto voltava da escola. O raptor era o homem que pedira sua mão em casamento, mas fora recusado pelo pai. Inconformado, ele reúne asseclas e captura Hirut, mas esta consegue escapar e o mata, mas apenas depois de ter sua virgindade perdida, numa sociedade que ainda valoriza demais um hímen. A menor é presa e quando a advogada da capital Adis Abeba, Meaza Ashenafi, sabe do caso propõe-se a ajudar Hirut, que mesmo tendo se defendido poderia enfrentar pena de morte.

Na Etiópia, a tradição seguida em muitas áreas rurais permitia o rapto de noivas em potencial e se essas retaliassem, quem incorria em erro eram as próprias. O embate entre a noção ocidental de justiça e igualdade perante a lei versus tradições autóctones é o centro dessa história inspiradora e que poderia levar a discussões sobre se compensa manter tradições. O caso gerou controvérsia na Etiópia, envolvendo Ministro da Justiça e tudo e ainda hoje não é ponto pacífico, uma vez que autoridades locais tentaram proibir Difret numa tentativa de diminuir a importância do premiado ativismo político de Asherafi.

Roteiro e direção de Zeresenay Berhane Mehari priorizam o conteúdo, não a forma. Difret é estruturado tradicionalmente e cinéfilos formalistas poderão se incomodar com a falta de “sofisticação” na psique de algumas personagens, mas isso é o que menos importa, porque Hirut é bem construída e o filme não apenas é necessário, mas também bem feito e interessante.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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