blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

AS DIVAS DE NOVEMBRO

Três expoentes do soul/R’n’B lançaram sólidos álbuns em novembro de 2017. Pena que uma delas não esteja mais entre nós.


Syleena.jpg

Syleena Johnson teve infância e adolescência muito musicais, mas o começo de carreira não foi tão fácil. Seu pai é o soulman Syl Johnson, que nunca estourou - mas foi regravado por Al Green e os Talking Heads e sampleado por meio mundo -, e por isso não incentivou a filha. Syleena também teve nódulos nas cordas vocais, precisou de cirurgia e anos de fono. A despeito dos contratempos e falta de incentivo, Johnson não desistiu e já tem discografia considerável, diplomas universitários em música e nutrição e colaborações com queridinhos do hip hop atual, como Kanye West e R. Kelly. Como várias de suas colegas de subgênero, participa de reality shows pra ganhar visibilidade.

Lançado dia 10 de novembro, de 2017, pela Shanachie Records, The Rebirth Of Soul foi produzido pelo paisão e o caráter old school de Syl impregna o álbum, irretocável em sua dezena de reinterpretações de clássicos do R’n’B dos anos 50 aos 70. Tudo gravado ao vivo em estúdio, como nos velhos tempos, atestando o profissionalismo, fogo e paixão da vocalista e da banda de veteranos escalados por Syl.

Impressiona como Syleena flana com exuberância e assertividade por diferentes facetas do espectro da rica black music norte-americana. Desliza pelo deboísmo Motown de Make Me Your e We did It. Chora de amor ainda meio à moda dos anos 1950 em There’ll Come a Time e Lonely Teardrops, mas o registro da dor amorosa é distinto nas duas. Vai para o ativismo black power, se perguntando em tom de “qual é, mané?” is It Because I’m Black, regravação do papi, aliás.

Sem medo de comparação com plenas e absolutas da soul music, cospe fogo na arethiana Chain Of Fools e rasga o coração em I’d Rather Go Blind, consagrada por Etta James. Syleena resolveu encarar as orquestrais e magistrais interpretações de Gladys Knight e Curtis Mayffield para The Makings Of You. Só ouvindo pra crer no madrigal milagroso que resultou. Não deve nada, talvez até supere a de Curtis.

Sharon Jones tem sido creditada como uma das responsáveis pelo revival do funk e da soul music vintage, que pode ter tido seu álbum mais conhecido mundialmente no trabalho de 2007, de Amy Winehouse. Aliás, os Dap-Kings, que acompanhavam Sharon, forneceram os vocais de fundo de Back To Black, a canção.

Jones nasceu na Georgia, mas foi criada em Nova York, onde trabalhou em prisões e como segurança armada. Nada de escola de talentos em Londres ou gritaria em show de calouro; era ralação pesada mesmo, com a música como bico, até que em 96 gravou seu primeiro single e só no começo dos 00’s, seu álbum de estreia, já aos 46 anos.

Depois disso foi estrelato merecido com indicação ao Grammy e colaborações com gente como Lou Reed. Mas, em 2013, apareceu um câncer, que retornou com força em 2015. Foi em meio a desgastantes sessões de quimioterapia, que gravou Soul of a Woman, com seus inseparáveis Dap Kings. Quando se sentia melhor ia para o estúdio e até fazia shows. Sharon deixou o planeta em 2016 e em 17 de novembro do passado ano, saiu Soul Of a Woman, onze canções que deixam a doença de lado.

Mas, o poder simbólico dessa enfermidade e a morte de Jones quase inescapavelmente nos levam a atribuir sentidos pessoais mesmo a afirmações em contextos mais politizados, como na fogosa abertura de Matter of Time, onde ela canta que não dispõe de muito tempo. A letra urge a união da espécie humana e liberdade para todos, mas quem consegue ouvir sem pensar que a intérprete estava dolorosamente cônscia de sua própria situação?

Entendamos as letras como for, o vital é conhecer esse trabalho luxuosamente orquestral, onde coabitam números explosivos - como Sail On, que não deixa dúvida de que Jones era fã de James Brown – com baladas em diferentes registros. Just Give Me Your Time vem em estrutura R’n’B mais minimalista; Come And Be a Winner é chique até o fundo d’alma. Paul Weller mataria por essa melodia, no auge do Style Council.

Os vocais em These Tears (No Longer For You) e Girl (You Got To Forgive Him) têm que ser ouvidos para serem cridos. Na primeira, a intensidade progride à medida que a melodia orquestrada à anos 70 avança e na segunda, que abre imperiosa, majestática, ela e o coro interagem num jogo complexo de frases que uma começa, o outro acaba. Maldito câncer, nos privar desse descomunal talento, quando precisamos tanto!

A última canção derreterá os corações mais empedrados. Call On God é um spiritual sobre encontrar Deus, estar pronto para visitá-lo. Embora composta há décadas, dá pra separar a mensagem da terminalidade da vida de Sharon, que bem no finalzinho – ouça com fone de ouvido – soluça ou ri? Soul Of a Woman é tão devastador, quanto belo.

Nascida em 1939, vida e carreira de Mavis Staples misturam-se com a ascensão do rhythm and blues e do gospel como influenciadores e geradores de música pop, bem como com o movimento pelos direitos civis, do qual a amiga pessoal de Martin Luther King foi trilha-sonora.

Staples jamais conheceu outra vida senão a de cantora, senão a da estrada. Já aos onze anos, cantava com a família em igrejas da região de Chicago, onde também participavam de programa semanal de rádio. The Staple Singers tiveram certo sucesso radiofônico e viraram superestrelas no circuito gospel, excursionando por toda parte durante anos. Quando o maridão lhe deu a escolha de seguir a carreira ou ficar em casa cuidando de família, em 1964, Mavis respondeu com bom pontapé no traseiro e desde então não quis mais casamento. Nem com Bob Dylan, que lhe pediu a mão. Os dois permanecem amigos, inclusive, excursionado juntos, em 2016. Como artista-solo, seu primeiro trabalho saiu em 1969 e desde então tem colaborado com gente do calibre de Prince; cantado com roqueiros, tipo Arcade Fire e sido sampleada por meio mundo. Há alguns anos, iniciou parceria com o branquelo Jeff Tweedy, líder do Wilco.

Bem avançada na septuagenaridade, Mavis não dá sinais de querer parar e dia 17 de novembro, de 2017, saiu seu décimo-sexto álbum solo, If All I Was Was Black, produzido por Tweedy, que compôs quase todas as dez canções e ainda dueta em Ain't No Doubt About It.

As raízes de Tweedy justificam o country/blues/folk rock da faixa-título e de números como Who Told You So, o dueto e Try Harder. Ao contrário das outras duas divas novembrinas, Staples optou por produção nada orquestral, onde menos é mais. Isso funciona em quase todo o álbum, exceto em No Time For Crying, que poderia ter mais peso funk para combinar melhor com a mensagem ativista da letra. Do jeito que está, a canção fica parecendo mais longa do que realmente é, porque meio monótona.

Desencantada com a vitória do racista Trump, a profusão de fake news e a escalada da violência contra afrodescendentes, não dá para esquecer o conteúdo político das letras, ainda que bem genéricas. Sonicamente essa tensão relatada em palavras não encontra melhor transliteração do que na abertura, Little Bit, onde guitarras duelam em cada lado de seu ouvido. Mas, os instrumentos não estão em chave rock metal, e sim, mais pra blues.

Staples não vem irada; está nervosa e desencantada, mas letras como as de We Go High (Michele Obama, hello!), Build a Bridge e da gospel Peaceful Dream, têm quê super Kumbaya anos 60. Será mesmo que quem espalha notícias falsas não sabe o que faz, como afirma We Go High? Esperemos que tendo vivido e militado em dias bem piores para os afrodescendentes, Mavis saiba o que diz.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// //Roberto Bíscaro