blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Não compre esta casa

Vende-se Esta Casa é composto de clichês e clima que promete, mas não cumpre no final.


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Dia 19 de janeiro, a Netflix adicionou produção própria de suspense/horror a seu catálogo: Vende-se Esta Casa, escrito e dirigido por Matt Angel e Suzanne Coote e estrelado por Dylan Minnette, o sofredor Clay, de 13 Reasons Why. Parece que o ator está se especializando em interpretar sofredores, porque aqui ele também come o pão que o diabo amassou. O problema é que para o telespectador, esse pão está murcho e sem gosto.

Depois de ver seu pai ser atropelado, Logan e sua mãe não têm mais dinheiro e topam passar temporada numa enorme casa isolada no frio norte estadunidense. A propriedade é da tia de Logan e está à venda, por isso, de vez em quando ele e a mãe teriam que desocupá-la para que potenciais compradores (ou curiosos...ou mal intencionados...) o visitassem, daí o título original, The Open House. Coisas estranhas começam a acontecer na casa, especialmente após a primeira dessas visitações. Será que alguém ficou lá? Será fantasma? Será que mãe ou filho está perturbado e surtou psicoticamente? Ou será só promessa, que no fim não se cumpre? Aposte nesta alternativa.

Vende-se Esta Casa é inteiramente composto de clichês de diversos sub-subgêneros do suspense/horror, nas suas variações de filmes de casa mal-assombrada; home invasion films, além das pequenas cidades povoadas por gente esquisita. Vende-se Esta Casa nem mostra a cidade, embora um indivíduo diga que há muitas crianças lá. Onde, se nem casas vemos?!

Tem porão labiríntico; escada com degrau quebrado, cujo defeito é convenientemente esquecido logo depois; e, sobretudo, um par de personagens bem estranhos, mas típicos de filmes assim: a velha vizinha amigavelmente intrometida e o bofe simpático, sempre pronto a oferecer ajuda e presente em encontros acidentais. E qual a função dramática deles? Se alguém descobrir, me conta. É tudo apenas clima: é celular e cumbuca com pipoca que desaparecem, é silhueta sinistra e é lentidão narrativa. No ato final, tudo se acelera. Na falta de algum grande desfecho, apela-se para a velocidade e um minuto de tortura, afinal, vivemos em um mundo pós-Jogos Mortais, então essa influência se mistura com a de Os Estranhos. Quem não tiver dormido até então, ouvirá som de dedos quebrados. Vende-se Esta Casa não tem fim decente e despreza possíveis caminhos para os quais aponta. Por que afirmar que o pai não se preocupava com a família, mas não provar ou ter efeito na trama? Por que criar uma mulher que parece fantasmagórica para nada?

Por que a Netflix investiu em roteiro tão fraco, ao invés de usá-lo para incorporar a seu catálogo produções independentes de horror, bem superiores a Vende-se Esta Casa?


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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