blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Impagável sátira à realeza britânica

The Windsors une elementos de soap opera com sitcom e o resultado é hilariante.


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Quem já não lançou mão do chavão de comparar a família real britânica com uma grande novela em tempo/da vida real? O Channel 4 pegou o clichê e desenvolveu The Windsors, que, em suas duas curtas temporadas, mescla elementos de soap opera com sitcom, resultando numa espécie de sitsoap acidamente irônica.

The Windsors imagina Charles, Camilla, Wills, Kate, Harry e membros B da Royal Family como personagens daquelas novelonas típicas do universo anglo-saxão, tipo The Colbys (para ficar num exemplar cujo nome também é sobrenome).

Camilla é a vilã alcóolatra que a todo momento cria armadilhas para derrubar a nora, a boazinha Kate Middleton, que vê o bem em tudo, como seu idealista maridão Príncipe William, que pilota helicóptero para ajudar os súditos, mas é tão fora da realidade que se espanta quando lhe dizem que são as próprias mães que alimentam os filhinhos e não as babás.

E são assim os 12 engraçados capítulos que a Netflix adicionou ao catálogo em dezembro de 2017, inclusive com o especial de Natal, quando até Camila ajuda a salvar o data, com referência a Charles Dickens e tudo. The Windsors não é nada intelectualizada, que não fique dúvida, mas é terrivelmente gargalhável, especialmente quando se conhecem algumas especificidades como a chiqueza de se alongarem as vogais, daí não dá para aguentar o sotaque das inúteis princesas Beatrice e Eugenie, impagáveis vivendo na órbita bem externa da Família, que titio Charles, na vida real, está limitando a apenas o seu núcleo. Basta notar as aparições mais recentes no balcão de Buckingham para ver como diminuiu a gentarada.

Mesmo que esses detalhes sejam desconhecidos, dá muito bem para entender e rir das origens ciganas de Kate, do analfabetismo de Harry, do total nonsense de Charles, da biscatice viperina de Pippa (a maneira como pronunciam Pippa, beeeem posh, é risível).

Apenas a Rainha e a finada Diana são poupadas, claro que por razões bem diferentes. O Príncipe Philip não aparece, mas, como sempre será um estrangeiro, sua avançada idade não impede que seja alvo do deboche. Suas missivas endereçadas a distintos personagens são lidas de vez em quando e constituem show de vulgaridade vocabular a parte.

Quem já não se perguntou se a família real assiste ás representações de si mesma? Durante The Windsors, entre risadas, difícil não conjeturar se viam o show que os pinta como bando de sanguessugas inúteis, mas que trazem um montão de turistas à Inglaterra e movimentam o comércio das canecas comemorativas.

Mesmo que algum deles assista, deve ficar muito triste em uma de suas férias na Suíça, pagas pelo contribuinte.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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