blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Impressionante jornada sinfônica ao vivo

O veterano Renaissance retorna com um álbum lindíssimo.


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Dá para contar nos dedos as bandas de rock progressivo que cravaram álbuns em posições top nas paradas de sucesso. Genesis, Yes, Jethro Tull, Pink Floyd, Emerson, Lake and Palmer; alguma mais? Vários grupos do subgênero são lembrados até hoje, mas seu sucesso comercial não passou do circuito cult.

O britânico Renaissance encaixa-se nessa categoria. Tiveram seus álbuns lançados no Brasil nos anos 70, eram conhecidos por fãs de prog ou música mais sofisticada, mas, sucesso comercial nunca tiveram. Nos EUA ainda atraiam multidões na superpovoada região industrializada do nordeste, mas na nativa Inglaterra passaram quase batido a não ser por um modesto número 10 na parada de singles, com Northern Lights, em 1978.

A luxuriante mistura de folk, música erudita, rock e jazz, os vocais agudos de Annie Haslam produziram grandes discos: Prologue (1972), Ashes Are Burning (1973) e Scheherazade and Other Stories (1975). A guinada New Wave e brigas internas desmancharam o frágil Renaissance, que passou anos na geladeira ou fraturado em dois.

Desde que Annie Haslam e Michael Dunford revitalizaram o Renaissance, em 2009, a banda não parou mais de fazer shows. O falecimento de Dunford não deteve a veterAnnie, que até lançou material inédito de estúdio, em 2014.

Ano passado, os britânicos excursionaram pelo norte dos EUA e em diversos espetáculos tocaram com a Renaissance Chamber Orchestra. Mediante crowdfunding (vaquinha) entre fãs, conseguiram verba para financiar que uma das performances fosse filmada e lançada em CD duplo e DVD.

Assim, há algumas semanas saiu A Symphonic Journey, registro da apresentação no Keswick Theater, na cidade de Glenside, na Pennsylvania, dia 27 de outubro, de 2017. Este texto trata do CD duplo apenas.

Com carreira de décadas e repertório imenso, ficam lacunas, como a ausência de Northern Lights. Talvez, no lugar de Island pudesse estar a deslumbrante Ocean Gipsy. Enfim, eles não conseguiriam agradar a todos os fãs.

O Renaissance é o protótipo da banda de rock progressivo, que serve de alvo perfeito para detratores que sempre se queixaram da ausência de rock na fórmula. De fato, o único momento mais roqueirinho é a derradeira Ashes Are Burning e mesmo assim, porque é a hora em que cada músico tem seus segundos de brilho individual, então, há uma guitarra mais proeminente. Mas, o piano é jazz e o predomínio, claro, é orquestral.

Fãs do lado estritamente sinfônico não terão do que reclamar. A instrumentação é suiçamente precisa e a voz da setentona Annie Haslam impressiona pelo alcance e cristalinidade. A folky At The Harbour, com seu delicado arranjo, destaca à perfeição essa voz. Para quem gosta de virtuosismo aqui e acolá, Haslam ainda tem fôlego, como no apoteótico final de Mother Russia. Essas canções foram feitas com pretensões orquestrais, então os oboés e cordas caem perfeitamente. Mother está imperial, assim como A Song For All Seasons, Prologue e A Trip To The Fair, esta última também alvo perfeito para os acusadores das letras do prog sinfônico não passarem de desculpa para variações instrumentais. Que seja, mas é lindo.

Felizmente, foram incluídas faixas do renascimento desse milênio e que se encaixam muito bem aos clássicos sinfônicos dos 70’s. A longa e variada Symphony Of Light e a maviosa Grandine Il Vento demonstram que o Renaissance deveria lançar mais material inédito de estúdio. Sem se preocupar em ser “acessível”. Os fãs que restaram esperam outro Scheherazade & Other Stories.

Até porque já tentaram ser mais concisamente pop e de nada adiantou em termos de vendagens e paradas de sucesso. Há quarenta anos, um par de álbuns trouxe umas coisas mais tocáveis em rádio, tentativas que A Symphonic Journey não esquece, porque produziu gostosuras folk como Carpet Of The Sun e Kalynda, delicada balada pescada do desnorteado Azure d’Or (1979), no qual o Renaissance buscava em vão um novo rumo, após o terremoto disco music e o tsunami punk.

Ainda é muito prazeroso jornadear com o Renaissance.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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