blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Mulheres oitentistas que não cessam de brilhar – parte 1

Em um mundo de “estrelas”, cujo brilho dura bem menos do que os quinze minutos preconizados por Andy Warhol, conforta saber que mulheres que tiveram suas fases áureas nos longínquos anos 1980, ainda produzem coisas boas.


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Uma Polaca do Batuque

No início dos 80’s, na Inglaterra, Basia Trzetrzelewska trabalhava no mundo da moda. Em 1982, juntou-se ao Matt Bianco, que fazia jazz-pop, influenciado por bossa nova, jazz e ritmos caribenhos. Com Everything But the Girl, Working Week e outros, foram juntados pela crítica britânica sob o termo New Bossa.

Em 1987, a moça levantou voo solo. Time And Tide (1987) e London Warsaw New York (1989) ganharam discos de ouro na Europa e EUA. A fórmula foi a mesma: produção lisinha e limpa, ênfase em bossa nova, samba, pitadas de Caribe. The Sweetest Illusion (1994) falhou e Basia ficou anos sem lançar álbum de estúdio. Houve um ao vivo na Broadway, em 1995, e diversas participações em projetos de outros artistas, como na radiante Springtime Laughter, Spryo Gyra.

Seus álbuns sempre pecaram nas baladas, que tendem a ser faceless. Mas, a produção polida e a brejeirice das canções mais espevitadas movidas a samba e latinices garantiu-lhe vendas espantosas no mercado adult contemporary, na geração passada.

Basia hibernou anos e agora grava pelo selo Shanachie Records. Dia 18 de maio saiu Butterflies.

O suingue big band de Be Pop sapecamente embala declaração de seus princípios estéticos: não importa a moda, seja qual for a prioridade das gravadoras, essa polaca do batuque sempre será rumba, jazz, samba, salsa e afins. As onze faixas atêm-se a essa declaração de independência, mas ouvidos atentos notarão a diminuição da tecladaria datada. Essa escolha conferiu mais organicidade e melhorou as canções lentas, tornando-as mais personalizadas. Butterflies tem piano jazzy; Where’s Your Pride possui clima meio balada 50’s; Liang & Zhu clima de standard estadunidense, com discreto ar oriental. Título e letra referem-se ao trágico casal lendário chinês, conhecido como Butterfly Lovers.

Fãs do Matt Bianco adorarão a lentidão caribenha de Show Time. Butterflies prossegue a perene parceria entre Basia e Danny White e nessa faixa convidaram o vocalista do Matt, Mark Fisher, para uma canja.

Bubble, a abertura, é jazz com guitarra bluesy e o amor de Basia/Danny por sambinhas não morre: Matteo, No Heartache e Pandora’s Box são releituras de nosso ritmo nacional, que alguns críticos estranjas chamam Brazilian Jazz. Pandora’s tem forte odor a Sérgio Mendes e seu Brasil 66.

Com voz galhardamente resistente ao tempo, Basia melhorou sua fórmula em Butterflies.

Uma discípula de Burt Bacharach

Outra que batalhava no mundo da moda era Corrine Drewery, que também cantava com grupos alternativos. Na segunda metade dos 80’s/primeira dos 90’s Corinne Drewery e Andy Connell, gravando sob o nome Swing Out Sister, tiveram sucessos, como Breakout, Am I The Same Girl e La La (Means I Love You).

Conforme os álbuns se tornavam mais sofisticados e retrô, com mais orquestrações e menos electronica, o sucesso comercial decrescia. A partir de Shapes And Patterns (1997), o duo lançava material primeiro no Japão e só depois no resto do mundo. Há coisa que só saiu na Ásia, onde se mantiveram populares por mais tempo, como nas Filipinas e centros onde havia comunidades de fãs de lounge, retro pop, exotica e outras burtbacharices.

Hoje, praticamente invisível até no mercado nipônico, o Swing Out Sister lança material primeiro via serviços tipo PledgeMusic, como é o caso de Almost Persuaded, cofinanciado por fãs e disponibilizado para download em dezembro, de 2017. O álbum teve lançamento via gravadora, somente em meados de junho. Em seu blog The Blue Moment, Richard Williams definiu Almost Persuaded como escapada para um mundo neo-Bacharachiano de elegância romântica. Perfeito. Incapazes de criar um universo como o Mestre, o SOS logrou construir um planeta dentro dele.

Nele, existe eternamente um loop temporal que vai aproximadamente de 1967 a 1974. Mas, o som não é cópia vintage e aí reside o Paradoxo do Swing Out Sister: Corinne e Andy conhecem enciclopedicamente o pop, soul, jazz, wall of sound, exotica, funk, bossa e trilhas-sonoras à Valley of the Dolls desse período. Assim, estilhaçam elementos de um ou outro subgênero, pós-modernamente pinçando o que lhes convém e mesclando com outros cacos de sub-estilos para formar um todo retrô, submerso em ondas de cordas sintetizadas. Em Happier Than Sunshine, elementos de funk, jazz e soul foram rearranjados em um mundo deslizante de pura beleza escapista. Em Don’t Give The Game Away, esses estilhaços de estilos aparecem fugazmente e somem, como fantasmagorias.

Almost Persuaded enfileira pequeno milagre atrás do outro, que, para fãs mais antigos e atentos, às vezes remetem a trabalhos anteriores, como I Wish I Knew que retorna para Shapes and Patterns.

O poder do álbum é no atacado, não adianta destacar essa ou aquela. Almost Persuaded é para ser ouvido com seu drinque favorito, fantasiando estar ao lado de seu ícone fashion predile to. Ou se espojando em lençóis de cetim. Se não os possuir, sonhe-os, afinal, como cnbta Corinne Drewery:“if it’s only a dream/then I’m dreaming my life away.”

Rainha, da New Bossa ao eletrônico

Com Anne Lennox e Alison Moyet, Tracey Thorn compunha a trindade de vozeirões femininos da Grã-Bretanha nos anos 80. Helen Terry poderia ser elencada se tivesse feito sucesso sem Boy George.

O contralto de Thorn serviu para a punkice folk das Marine Girls, para a jazzice bossanovada do Everything But the Girl, que nos anos 90 se reinventou como divindade jungle/drum’n’bass. Sempre colaborativa, Tracey já cantou com Paul Weller e Massive Attack; já fez cover de Pet Shop Boys e Bruce Springsteen; já lançou aclamadas memórias; é colunista de jornal.

Com tantos afazeres – sem contar a vida de mãe de família – a inglesa de vez em quando acha tempo para lançar álbuns, embora com largos hiatos. O mais recente datava de 2010.

Dia 2 de março, Tracey Thorn retornou com as nove faixas do conciso Record. Se em Love And Its Opposites, a chanteuse surpreendia-se com tantos divórcios entre amigos e aceitava divertida e estoicamente a diminuição de seus hormônios em comparação com a ebulição dos de seus filhos, em Record canta sobre a divorciada amarga que passa o tempo monitorando seu ex pelas redes sociais, em Face, que sonicamente pertence mais ao álbum anterior. Os filhos já têm idade para sair de casa e em Go, Tracey canta em falsete sobre a síndrome do ninho vazio. Mãe coruja, protetora até a agressividade, Thorn é inteligente demais para reduzir suas letras a odes parnasiano-eletrificadas à maternidade ou às crianças. Na new wavy Babies, ao descrever como é tentar fazer uma criança pegar no sono às três da madrugada, os versos vêm afiados “lay your pretty head now/get the fuck to bed now”. Mas tudo isso só a fez amá-los mais ainda. Se ser mãe é padecer num paraíso, então as letras são meio parnaso, sim?

A idade da cantora (55 anos) e a escolha pelo predomínio da electronica dos 80’s e 90’s garantem que Record não atinja jovens ouvintes casuais e, como no caso da maioria de artistas antigos, pregue a convertidos. Então, os oito minutos e meio extremamente bem produzidos do synthfunk de Sister não afugentarão quem já ama Thorn há décadas. Respaldada pela sempre interessante Corinne Bailey Rae, Tracey dá aula de militância e empoderamento feminino. Não mexa com ela ou com os rebentos, que ela luta como uma garota!

Record é confessional e pró-ativo. No arejado pop oitentista de Air, o eu-lírico se denomina desajeitada, muito alta, invisível para os garotos, ao passo que a também new wavy Guitar, denuncia o garoto que a ensinou a tocar violão, mas fugiu depois de uns amassos. Mas, daí, ela escolhe vê-lo como catalizador (imagine uma letra pop com essa palavra, Tracey é preciosa!) que a propulsionou ao estrelato. É sobre esse papel de rainha que ela se pergunta na pulsação synthdisco contagiante de Queen, abertura de um álbum que também termina perfeito, com Dancefloor, que orgulharia Giorgio Moroder e Neil Tennant.

Record é tão impactante em sua grande maioria que até dá para ouvir de boa o synthfolk de Smoke, com aquela estruturazinha rítmica de teclado de churrascaria. Quando Kate Bush a usou em Delius (Song Of Summer) era moderno e high tech, afinal era 1980. Em 2018, é qualquer coisa menos isso.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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