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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Mulheres oitentistas que não cessam de brilhar – parte 2

Em um mundo de “estrelas”, cujo brilho dura bem menos do que os quinze minutos preconizados por Andy Warhol, conforta saber que mulheres que tiveram suas fases áureas nos longínquos anos 1980, ainda produzem coisas boas.


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Leia a parte 1 da matéria.

A filha do roqueiro Filha do roqueiro cinquentista/sessentista Marty Wilde, Kim Wilde estreou em 1981, com o single Kids In America e daí em diante tem tido carreira com altos e baixos. Nunca foi estrela de primeira grandeza global, mas alcançou altas posições em paradas euro-nipo-australianas e já abriu turnês para majors como Michael Jackson e David Bowie. A britânica expandiu suas atividades e tem se mantido na mídia não apenas porque de vez em quando lança música, mas também como autora de livros de jardinagem e apresentadora de programas sobre.

Alguns brasileiros reclamam que o país não tem memória, não valoriza seus artistas mais antigos. Parece que o Reino Unido é igual: há décadas, os álbuns de Kim não saíam em sua terra natal. A exceção ficou por conta do lançamento de março, Here Come the Aliens.

Com capa-homenagem aos filmes de ficção-científica dos anos 1950, Here Come The Aliens traz doze canções pop, quase unanimemente eficazes e até pegajosas, cantadas por uma voz que ou está preservada em formol ou foi tratada em estúdio. Parece a mesma dos 80’s.

Sem perder o pé na década que a pariu e à qual pertence sua base de fãs, o power pop de Wilde e seu irmão Ricky é mais enraizado em sua fase Blondie do que na sua era Madonna. As guitarras de vez em quando rugem, como na abertura 1969 ou em A Different Story. E não é porque o público restante de Kim deva ser prioritariamente cinquentão que não possa balançar o traseiro com popões atuais como Kandy Krush, referindo-se ao popular jogo e a Cyber Nation War, meio industrial carmina-burânica, sobre recalcados que se aproveitam da internet para destilar ódio.

Pop Don’t Stop é dueto com mano Ricky, cujos acordes iniciais farão os mais idosos se lembrarem de Video Killed The Radio Star, antes de se transformar no que sugere o título: pop viciante. Yours Till The End tem reconfortante clima Duran Duran, com baixo gordíssimo à The Promisse, do Arcadia e um lalalá que você pode tentar substituir por ‘the reflex”, para se divertir. Stereo Shot remete ao Johnny Marr de How Soon Is Now. Solstice é balada que iluminaria estádios com isqueiros, em 1987, mas soa contemporânea pela produção. Here Come the Aliens enfileira delícias po(l)pudas como Birthday e Addicted To You, que imploram para serem dançadas.

O defeito é Rosetta, a faixa de encerramento. Cinco minutos de sensaboria pseudo-etérea que anestesia a sensação de um álbum até então vibrante. Pena que não termine com Rock the Paradiso, que ensaia abertura meio neopsicodélica à The Mission/The Cult.

O vozeirão que não ganhou destaque Nos 80’s, idolatravam-se britânicas branquelas que tinham vozes fortes, geralmente associadas a negras. Helen Terry e Alison Moyet são as mais cotadas. Curiosa, mas não acidentalmente, a negra Jaki Graham teve sucesso comercial moderado com os três álbuns lançados pela EMI, na década. Nascida em Birmingham, em 1956, Graham sempre foi admirada pelos pares pela voz quente, mas nunca esteve nos topos das paradas, embora tenha tido canções populares na Europa, Ásia, Oceania e até na parada dance da Billboard. Como nunca foi de massa, seu nome nem é lembrado nos revivalismos oitentistas.

Jamais parou de fazer shows, mas raramente lançava material, até que dia 6 de julho, surgiu When A Woman Loves, pela JNT Music. A miudeza da gravadora não precisa afugentar: há no Spotify.

Ainda adolescentes ou com meros vinte e poucos anos, cantávamos com Kylie Minogue sobre os “old days/remember the O’Jays”. Puro boca para fora, porque tanto nós, quanto ela, não vivêramos a época idealizada pela letra dos então já velhuscos Stock, Aitken and Waterman. Chegou nossa vez - e de Jaki Graham - de rememorar o tempo da juventude há tanto para trás. As catorze faixas são totalmente oitentistas, felizmente sem os excessos de bateria eletrônica e tecladeira que deixam tão datado tanto do de então.

Esse saudosismo entrega a maior delícia do álbum: o disco-funk irremediavelmente dançante Get It Right, sobre retornar aos bons tempos do decênio, quando todas canções eram tão maravilhosas. “Do you remember? I remember.” Outra que celebra a década e voltar a festar é o charm All Night Long (1985).

When a Woman Loves remete o tempo todo a tempos há muito escorridos. É o electrosoul midtempo da faixa-título; são os urban souls de News For You e Stop the Ride (super Steve Wonder fase 80s, com gaita e tudo); ou as baladas, como Through the Rain, Someone Like You, Song For Me e Ready For Love. O álbum é tão encharcado do espírito do auge de Jaki, que Leftover Tears soa como os anos oitenta faziam música inspirada no soul deslizante do final dos 60’s. Tem pop soul dançável, como Sometimes, e R’n’B domesticado, como em Eye To Eye e sua guitarrinha blues.

Muito bem cantado e produzido, When a Woman Loves não reavivou a carreira de Graham, mas agradará em cheio quem jamais superará a magia dos anos 80.

A indecisão Meli'sa Morgan também não foi sucesso de lotar estádios, durante seu período mais fértil: anos 80 até o meio dos 90’s. Solo, ou com grupos como o High Fashion, a nova-iorquina entrou apenas uma vez na Hot 100, da Billboard, embora tenha frequentado paradas dance, adult contemporary e R’n’B, ou seja, sempre foi conhecida em nichos. Pena. Sua voz é incrível e a técnica impecável. Além de ter cantado com grandes como Whitney Houston e Chaka Khan, Morgan estudou na Juliard.

Há treze anos sem lançar, o silêncio felizmente foi quebrado dia 13 de julho, com Love Demands, que saiu pela Goldenlane Records, pequenina, mas no Spotify. Love Demands está matematicamente dividido em seis números com clima oldie, anos 50 e 60 e seis com sabor moderno, quase contemporâneo.

A metade oldie é a primeira. Tem R’n’B com madrigal vocal arrasante (How Can You Mend a Broken Heart); blues (Never Loved a Man), delícia deslizante à Motown (Love Is Here and Now You’re Gone) e baladas meio cinquentistas R’n’B (I’ve Been Loving You Too Long e Nothing Can Change This Love). Há clima reggae em It’s Not Unusual. Tudo com vocais irretocáveis.

A parte moderna tem material inédito e participação de rapper na melódica The Only One. Climas de perigo e urgência hip hop são referenciados de leve em repetitivas batidas, como em Holla e Decisions. Tudo bem mansinho, como a infiltração trap no arranjo de No More, a mais contemporânea de Love Demands.

É essa parte que contém a mais sem-graça: Can’t Explain. Sintomático, quando se parte do princípio de que a base de fãs restante para Morgan deve ser cinquentona, e, por mais moderninha que seja, está mais próxima de gostar da sonoridade da parte vintage. Dificilmente, millenials curtirão a parte tencionando ser moderninha, por ser tépida demais. Desse modo, Love Demands é honorável esforço, muito bem feito, mas que não satisfará ninguém 100%.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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