blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

O samba não deve morrer

Artistas da nova geração da MPB não apenas gravam samba, como o oferecem para download grátis.


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Em meados dos anos 1970, Alcione lançava seu álbum de estreia, que trouxe o sucesso "Não deixe o samba morrer", composto por Edson Conceição e Aloísio Silva. O chamado ritmo nacional tem enfrentado galhardamente sucessivas modas musicais, algumas, inclusive, variações do samba “tradicional”, como o pagode.

Dia 16 de abril, o Brasil perdeu uma de suas sambistas mais tradicionais e queridas, Dona Ivone Lara. Triste, mas é a lei da vida: sucessão de gerações. Depois da dor da perda, o que importa é o legado dos que se foram.

Pelo visto, a Marrom não tem com o que se preocupar. A despeito das naturais perdas, há toda uma nova safra de sambistas ou de artistas que dialogam muito bem e respeitosamente com esse subgênero.

Abaixo, breve seleção de álbuns de samba, que podem ser baixados legal e gratuitamente nos sites dos artistas.

Quem aprecia vozes femininas suaves e melodiosas cantando bossa nova e sambas de raiz, de roda, canção e variações, deveria conhecer Andiara Freitas. Nascida no Rio Grande do Norte e atuando pelo Nordeste (mas, não só), desde fins dos anos 1990, Andiara tem dois álbuns.

Em 2014, saiu Samba da Minha Terra, onde interpreta compositores de seu estado natal. Em 2016, seu escopo aumentou e isso se reflete no título: Todos os Sambas. Nesse trabalho, Freitas canta compositores de várias regiões, além de receber convidados. Ambos trabalhos estão em seu site:

https://www.andiarafreitas.com.br/

O samba de Douglas Germano é denso e algo soturno, às vezes. Meio neurótico, com letras até sobre acidentes de trabalho. Decerto, porque o batucador de caixa de fósforo (tem nos álbuns) é nascido, criado e formado na megalopolitana São Paulo, onde a pegada é mais tensa mesmo.

Germano já foi gravado por Elza Soares e indicado ao Grammy Latino. Individualmente, tem dois álbuns. Orí é de 2009 e tem batidas João Bosco e Nogueira; influências perceptíveis. Mas, Germano também deve curtir os afrossambas e outros subgêneros.

Isso fica ainda mais evidente no seu segundo solo, Golpe de Vista (2016). Tem hora que evoca flamenco, mas o cerne é samba, mais tenso e nervoso que o do álbum de estreia e temperado com saxofone e trompete, além da amalucada caixa de fósforo e do cavaquinho febril. A produção às vezes equivale a um wall of sound de cordas sambadas.

Em seu site, além desse dois álbuns-solo, você também baixa de graça o de seu Duo Moviola, de 2009. Com Kiko Dinucci, Germano soltou um samba bem paulistano, que casou Adoniran Barbosa com o vanguardismo de Itamar Assunção. Letras bem-humoradas e sacadas. Quem curtia Premeditando o Breque, gostará.

http://douglasgermano.com.br/discos/

Em 2016, A Troça Harmônica estreou com álbum adorável, resenhado aqui.

Ano passado, Chico Limeira lançou álbum-solo homônimo. Seus choros e sambas de vários estilos vêm com discretos elementos de outros subgêneros, como guitarra fazendo a vez do bandolim em uma ou outra faixa e órgão meio psicodélico, meio de inferninho “brega”. Nada gritante que altere ou “desfigure” o samba, mas Limeira soube bem como traduzir em samba as tantas influências musicais que rapazes solucionados trazem hoje em dia.

O álbum está disponível aqui para download grátis:

https://onerpm.com/disco/album?album_number=9935172604&pagin=1

Para os mais aventureiros e vanguardistas, a pedida é o inquietante Sambas do Absurdo (2017), colaboração entre Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis. Oito faixas chamadas Absurdo, diferenciadas por um número.

Tem hora que o álbum poderia ser descrito como Leila Pinheiro numa bad trip. Só que bad, nesse caso, nada tem a ver com a qualidade da música, letras ou interpretação, que são excelentes. Bad no sentido de que em alguns Absurdos, Campos pulveriza o samba e o infesta com samplers, súbitos barulhos lúgubres, guitarreiros nervosos. Mas, não é barulheira rock: é MPB avant-garde, claustrofóbica, às vezes; doce, outras.

Sambas do Absurdo pode ser baixado na página de Juçara Marçal.

http://jucaramarcal.com.br/sambasdoabsurdo.html


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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