blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

os filhos do estupro

No fim da Segunda Guerra, uma médica francesa atende freiras grávidas num convento da Polônia, estupradas por soldados. Agnus Dei é sólida estreia da diretora Anne Fontaine.


Agnus.jpg Como se não bastasse o horror de ser estuprada, mulheres amiúde são culpabilizadas pela violência. Se usasse saia mais longa, se não estivesse em tal lugar a tal hora, enfim, um monte de absurdos que de propósito esquecem que estupros acontecem também a caminho da igreja com roupona tapando quase tudo. A cultura do estupro é tão arraigada que as próprias vítimas introjetam a culpa.

Imagine (seria tão bom não ter que...) ser violentada quando se pertence à instituição que prega a castidade, como a Igreja. Este é o drama do solene e correto Agnus Dei (2016), da diretora francesa Anne Fontaine, disponível na Netflix.

Freiras de um convento polonês pouco tem a celebrar com o término da Guerra, em 1945. “Visitas” de solados alemães e depois dos “libertadores” soviéticos deixaram sete delas grávidas e outras tantas com doenças venéreas. Mulheres despreparadas até para mostrar partes do corpo que não sejam o rosto e mãos; treinadas para abominar contato carnal e automaticamente prontas a se culpar por ele e crentes em um ser supremo - que as devia proteger, mas falhou miseravelmente na tarefa - encontram-se em situação de potencial e funesto opróbrio social. O roteiro não toca nesse ponto, mas mulheres que mantiveram relações com os invasores foram hostilizadas barbaramente no pós-guerra, não importando muito a consensualidade dos atos. Os rebentos resultantes também sofriam as consequências. Na supercatólica Polônia, freiras grávidas não teriam a menor chance.

Baseado em fatos, Agnus Dei mostra como uma médica francesa comunista e ateia da Cruz Vermelha consegue ganhar a confiança e ajudar essas mulheres que não se deixavam nem tocar no começo.

Ponto forte do roteiro é não cair no sentimentalismo barato; Agnus Dei é austero, lento e quieto e não coloca a Dra. Mathilde como heroína toda poderosa perante as indefesas e bobas freiras. Ela também é mulher; está no mesmo barco, não importa se crê ou não, se curte comuna ou não.

Sem nenhuma inovação formal ou firula de inverter tempo da narrativa, a estreante Fontaine fez um filme redondinho – ainda que o roteiro de vez em quando podia dar mais detalhes ou discussões – bem ao estilo “europeu” de cines de arte ou festivais de antanho.

Sintonizada com o tema pesado e o rigoroso inverno polaco, a paleta de cores de boa parte de Agnus Dei é mortiça, cheia de tons frios, gélidos, sepulcrais. Quando chega a primavera e a solução para o problema, as cores esquentam um bocadinho, junto com a música.

Ainda que longe de ser grande película, Agnus Dei trata de tema mais necessário do que nunca, num ambiente onde empatia pela dor do outro parece estar virando artigo de subversivo.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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