blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Para roer as unhas à francesa!

Três minisséries maratonáveis de suspense policial, na Netflix.


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Até não muito tempo atrás, a França era mais famosa por seu cinema, do que por sua TV. Não falta quem diga que vivamos uma espécie de Anos Dourados da produção televisiva mundial.

É (mini)série boa para todo lado e a França tem desempenhado importante papel nessa arena cultural. Séries policiais e de mistério como Lanester e Le Mystére du Lac; dramas políticos, como Les Hommes de l'ombre ou sociais, como a minissérie Paris; ficção-científica, como a recente Missions. Os atuais campeões mundiais também têm batido um bolão nas telinhas.

Com menos velocidade ou abundância do que desejaríamos, a Netflix brasileira vem acrescentando produções francesas a seu catálogo. Três que entraram na grade este ano são thrillers policiais de roer as unhas de nervoso.

No início dos anos 90, a região de Paris foi aterrorizada pela Louva-a-Deus, assassina em série que copiava o modus-operandi de predadores, para chacinar homens dissolutos, culpados de alguma coisa, tipo maus tratos. Em 2017, alguém começa a copiar seus crimes à perfeição detalhista, por isso, a polícia pede ajuda à sóbria e elegante serial killer, confinada à perpetuidade prisional. Ela aceita auxiliar, desde que seu filho investigador policial esteja à frente do caso.

Essa é a premissa da semi-desvairada minissérie A Louva a Deus (2017), incorporada ao catálogo da Netflix com dublagem e tudo, então não há nem a desculpa da preguiça de ler legenda para não ver. Os seis capítulos contém reviravoltas satisfatórias para qualquer fã de thriller de assassino serial. Tem “aberração” sexual, revelação de abuso e irmandade, enfim, estamos sempre ocupado digerindo algum dado novo.

No fundo um drama de reconciliação entre mãe e filho – e isso desacelera um pouco o ritmo, mas não diminui interesse – A Louva a Deus sub-aproveita o leitmotif dos modos de matar do mundo animal. Somos informados que apenas uma morte parece que é o método tigrino de conseguir o jantar, e só. As mortes são elaboradas, mas poderiam ser mais explicadas, para entendermos direito o padrão. Isso não estraga a diversão, porém; é mais questão estrutural mesmo.

A ficção tem criado assassinos seriais capazes de prever situações e manipular eventos e pessoas à distância com tal minúcia, que surpreende como algum pobre policial mortal consegue capturá-los/eliminá-los. A meia dúzia de capítulos de Glacé (2017) acrescenta Julian Hirtmann a essa lista de doidivanas genais e, neste caso, tão gélidos quanto a paisagem que o cerca.

Nas alturas nevadas dos Pirineus, o cadáver decapitado de um cavalo acintosamente indica que o crime simboliza algo mais, pelo modo ritualístico como está disposto. Para investigar, entram e cena a capitã local Irène Ziegler e o capitão Martin Servaz, da divisão de Toulouse. Por que um policial de outra cidade fora designado para lidar com ocorrência, aparentemente tão mundana, mesmo sendo tão mórbida? Quando o DNA do serial killler Julian Hirtmann é detectado na cena do crime, as coisas se complicam, mas começamos a levantar hipóteses: Servaz fora o responsável por sua captura. Mas, como o DNA podia estar ali, se Hirtmann se encontrava trancafiado em hospital psiquiátrico nas cercanias da cidadezinha montanhesa?

Na tradição invernal do Nordic Noir, da qual é afiliada, Glacé traz um par de policiais problemáticos e atormentados, investigando crimes horrendos em ambiente cenicamente espetacular, mas enevoado e frio. Servaz adoece progressivamente e a capitã Ziegler não é a geladeira emocional que aparenta no início.

De desenrolar lento, e por isso meio hipnótico, Glacé repercute sua gelidez não apenas no cenário, mas nas vidas das personagens. Para quem aprecia fugir do ritmo alucinado da maioria das produções comerciais norte-americanas, é uma ótima pedida.

Desde as donzelas em perigo dos clássicos, jovenzinhas sequestradas/violadas/mortas alimentam a ficção. Na era dos serial killers pós-Hannibal Lecter, mocinhas nunca estão a salvo e maníacos alvejando machos é raridade. O Bosque engorda o cânone das cidades idílicas assombradas por bicho-papão de garotas indefesas, mas com segredos. Quando a adolescente Jennifer desaparece, abrem-se as comportas de sordidez em vilarejo lindo, frio e Noir, rodeado por densa floresta, guardiã de segredos e cabanas desconhecidas. Há uma professora encontrada na porta de uma cabana, há o incompreendido bobo da aldeia, enfim, O Bosque é fórmula para entreter. E o faz muito bem.

A meia dúzia de capítulos dialoga com sua compatriota e também formulaica Le Mystère du Lac (2016), reverencia a influente Broadchurch (como isso não está na Netflix brasileira?) e, claro, o Nordic Noir, até com minúscula adição de elemento sobrenatural (o lobo branco numa floresta carente desses animais), como em Arne Dahl.

E que a Netflix brasileira siga incorporando séries europeias a seu catálogo: nós, amantes da diversidade cultural, agradecemos.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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