blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Quando a Netflix decepciona

Quatro minisséries frustrantes na gigante do streaming.


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Residue (2015) é sci-fi distópico em desnecessários três capítulos: o material daria para um episódio de cinquenta minutos.

Numa Londres do futuro – mas igual a de agora – uma explosão na noite do ano novo condena meia cidade à quarentena. Há versão oficial, mas uma fotógrafa começa a suspeitar de algum grande abafamento governamental acerca de algum fenômeno paranormal escondido. Teoria da conspiração sobre nosso grande inimigo, o governo central.

Esse leitmotiv gerou e ainda parirá centos de sci fis distópicos; beleza se forem divertidos. Mas, em Residue nada acontece e o fim, além de não resolver nada, é previsível e frustrante de dar vontade de pedir o dinheiro da Netflix de volta, porque foi ela quem investiu nessa bomba.

Entre o começo promissor e o final-nada, há recheio de idas e vindas que passam por locais que não sabemos direito se é a zona de quarentena, porque, afinal, tudo é deserto e independentemente de estarem quarentemados ou não, há eletricidade e placas de neon. Há conversas tão interessantes quanto uma planilha de Excel em branco e um baile de máscaras com música industrial – que não serve para coisa alguma, a não ser mostrar que “somos série pseudo-moderna e cabeça de ficção-científica distópica”.

Imagine versão bossa-nova de God Save the Queen, dos Sex Pistols. Versos como God save the queen/The fascist regime/They made you a moron/A potential H bomb malemolementemente sussurrados e acompanhados por minimalista violão joãogilbertiano. Não dá? É algo desse quilate o desastre em câmera lenta e som baixo da francesa Le Chalet (2017).

Numa aldeia propositalmente isolada por um acidente (única cena boa de todo o show), pessoas indistinguíveis umas das outras são eliminadas e aos poucos descobrimos o segredo do passado que deflagra o massacre. Provavelmente por timidez orçamentária, a TV francesa pegou conteúdo slasher e formatou-o como drama interpretado por atores que anunciam que alguém está morto como se dissessem que vão à vendinha da esquina comprar duzentos gramas de provolone.

Slasher precisa gerar suspense, mesmo que inflacionado, e ter mortes criativas. Le Chalet não tem nada: numa das mortes, a guria tropeça, cai para trás e bate a cabeça numa pedra; parece fan video de franquia slasher de sucesso. A música de abertura é ótima; voz de criancinha cantando canção de ninar que fala em massacre. Mas, a trilha incidental causa tanto suspense, quanto a versão bossa-nova dos Pistols causaria.

Além de toda a sensaboria e canastrice, Le Chalet ainda dá trabalho mental para separar o que se passa no presente e o que ocorreu, que explicará o ocorrente. Quem quiser investir tempo, sinta-se alertado. E preparado para descobrir quem mata, lá pelo terceiro capítulo. Mas isso não ajuda muito, porque não sabemos qual(is) do grupo é/são e nem se está(ão) lá. Mérito para a minissérie, que poderia ter sido quitute slasher, caso tivesse injeção de capital para adrenaliná-la.

A “linda aldeia nas montanhas” não passa de um monte de casa de madeira no meio do mato. Qualquer produção nórdica tem florestas muito mais sensacionais e séries francesas como Le Mystère du Lac (2016) são ambientadas em locais que dão de dez. Por que a Netflix não usa o dinheiro das mensalidades para comprar séries francesas decentes, como Missions ou Lanester?

Em fevereiro, a japonesa Re:Mind (2017) entrou no catálogo. O título é brincadeira vocabular. Re: é usado como diminutivo de regarding to/referring to, permitindo tradução meio como Sobre a Mente. Mas, também é o verbo remind, uma das formas de se dizer lembrar. No começo, Re:Mind atiça. Na véspera da formatura do ensino médio, onze garotas acordam encapuzadas, ao redor de uma mesa solenemente posta, numa sala decorada ao exagero. Descobrem que têm os pés presos num alçapão. Do teto, de vez em quando caem bichos escrotos e líquido gosmento. Segredos e podres começam a emergir e a cada lembrança de bullying, as luzes se apagam e uma menina some.

A produção conjunta da TV Tokyo e da Netflix não deve ter saído muito caro: é quase toda filmada no interior escuro do misterioso cativeiro. Os capítulos preservam a curiosidade, porque queremos saber quem as sequestrou, como desapareciam num piscar de lâmpadas. Também seguram a tensão, com música incidental nervosa e as revelações dos pecados das gurias, que envolvem grupo justiceiro no Twitter e escândalos sexuais.

A frustração de Re:Mind vem na resolução, que não responde às perguntas mais óbvias. Aprendemos quem raptou, mas é pífio e não ajuda um capítulo ridículo, que contextualiza história que já dava para entender. Queríamos saber onde as gurias estavam, como tudo se passava. Na época em que mágicos explicitam os segredos por trás das ilusões, queremos conhecer a mecânica das coisas. Não gostamos de dúvidas, afinal, investimos tempo nos capítulos e queremos conclusão.

Na Inglaterra neoliberal de Thatcher, White Gold (2017) pretende-se como sátira do capitalismo selvagem dos anos 80, década dos yuppies e da extravagância, em resposta à recessão pós-Crise do Petróleo.

Os programas habitacionais da Dama de Ferro permitiram que a classe-média baixa realizasse o sonho da casa própria a preços módicos. Para turbinar as moradas, havia centenas de empresas amigas lançando todo tipo de produtos, um deles janelas isolantes, feitas de um novo tipo de plástico, o Ouro Branco do título. Eram essas marcas de status que realmente endividavam os “babacas”, nos termos de Vincent Swan, vendedor-mor de uma revendedora de janelas, que caracteristicamente jamais se dá conta que é tão babaca como os de que zomba.

Vincent parece saído de Glengarry Glen Ross. Vestido e gingando para parecer cool, é a Lei de Gerson oitentista: trapaceia os companheiros, trai a esposa. Brian (Buckley) e Martin (Thomas) são seus colegas de trabalho, versões “adultas” de seus personagens bem mais divertidos da deliciosa The Inbetweeners (também na Netflix; essa, vale ver).

White Gold se vende como sitcom, mas é desprovida de graça, seja pastelônica, seja irônica. Sai-se bem em caracterizar a cupidez, mas não causa risadas ou sorrisos. Também não é drama, porque realizada em chave supostamente cômica. O resultado são histórias até interessantezinhas, para ver com cara de nada.

Outro problema é o protagonista antipático; uma das coisas mais difíceis de resolver, porque é pedir para a audiência empatizar com um canalha. Quando bem-escritos e atuados, criam-se personagens memoráveis. Para ficar nos 80’s, mas em chave dramática, como esquecer de JR e Alexis, respectivamente de DALLAS e Dynasty (mencionados em White Gold)? Mas, eles tinham carisma, vestuário mirabolante, enfim, eram gente que amávamos odiar. Tem mais: esses vilões sempre caíam, - quando caíam – de pé; praticamente tinham superpoderes. Swan não passa de salafrário de classe-média, que quer se dar bem, mas em última instância se estrepa tanto quanto os demais, embora mantenha a pose. É comédia, alegarão, mas daí, sobrepõe-se o problema anterior: como o tom cômico azedou e não dá nem para rir dele, Vincent Swan não resulta mais do que um sujeito apenas terrivelmente antipático. E de nada ajudam as tiradas direcionadas ao telespectador, ao estilo do outrora interessante House Of Cards.

A salvação é a trilha-sonora, repleta de Duran Duran, Police, Ultravox, Culture Club, The Cure, Haircut 100 e tanta coisa mais. Compensa montar playlist e ouvir só as canções, sem aguentar o cara de fuinha.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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