blog do albino incoerente

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Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Reino Eletrônico

Dois veteranos da eletrônica inglesa retornaram com força total


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Desde os Segundos Verões do Amor (o de 1988 e 9 são assim denominados por não poucos), a cena britânica da música eletrônica tem sido mais criativa que a do rock. Enquanto nos 90’s, o Oasis recopiava maneirismos dos Beatles, o Underworld fazia electronica com inteligência. Não iniciados chama(va)m tudo de techno, mas Chemical Brothers, Aphex Twin e The Prodigy sempre foram bem além da mera repetição bate-estaca para ficar maluco em rave ou malhar na academia.

O Orbital surgiu em 1989, formado pelos irmãos Paul e Phil Hartnoll. Até o nome é associado à subcultura das raves, nascida com a acid house. O nome oficial da rodovia M25 é Grande Via Orbital de Londres, e era ao longo dela que ocorriam as diversas festas (legais e ilegais) frequentadas pelos irmãos Hartnoll no final dos anos 80.

Paul e Phil produziram gente como Bjork; viraram queridinhos da crítica; popularizaram a música eletrônica através da inserção de suas canções em trilhas de filmes, comerciais e games.

A partir de 2004, sua história ficou chata de narrar, porque tem muito acaba e retorna. Suficiente dizer, que dia 14 de setembro, os manos Hartnoll lançaram seu nono álbum de estúdio, o primeiro em meia dúzia de anos. A edição convencional tem nove faixas, mas no Spotify só tem a deluxe, com 17. Ainda que 84 minutos de electronica instrumental possam ser overdose para neófitos, para fãs, Monsters Exist mata a fome.

Desistindo do formato das longas canções abrangendo antigos lados inteiros de LPs, o Orbital não passa agora dos oito minutos. Bom para desacostumados, porque mais acessível. A qualidade não caiu muito; claro que o período imperial ficou para trás, mas o duo fez trabalho rigoroso. Os monstros do nome do álbum e da faixa-título podem ser nossas criações ou Mitos trumposos externos; irmãos Hartnoll não fugiram de alusões políticas.

Tudo começa com a excelente faixa-título. Gotas de teclado, sucedidas por baixo lúgubre e percussão eletrônica seca e marcialmente austera. Momento de certa calma e fluxo continuo de várias melodias nos teclados. Ainda não é o melhor Orbital, mas já inquieta pelo método e rigor.

Hoo Hoo Ha Ha é Orbital no seu mais típico; timbres puláveis, espertos, que brotam e somem e reaparecem ao longo dos concisos 4 minutos, cuja cereja do bolo é cômica linha de cornetinha.

Esse aparecer e reaparecer de estruturas é frequentemente despercebido por detratores da música eletrônica, que a acusam de repetitiva. Há mesmo aquelas que só batem estaca e enchem, mas profissionais como Orbital, netos do Krafftwerk, recheiam seu som de mudanças estruturais, que o ouvinte precisa prestar atenção. Exemplo é a parcialmente saltitável P.H.U.K, que tem baixo rebolante e barulhinhos à Pocket Calculator. Os já na meia-idade netos ingleses aprenderam muito bem com o vovô germano a fazer soar igual, apresentando alterações sutis, que tornam esses 7:25 minutos quase frustrantes, porque a faixa merecia mais uns dez.

A belezoca Tiny Foldable Cities tem cheiro de Daft Punk, mas identidade Orbital. Ideal para perceber a complexidade desse som: note como por trás de vários timbres cristalinos e agudos, espreita teclado surdo, grave, ameaçador. Música não precisa ter letra para contar história.

The End Is Nigh é a coisa mais modernete de Monsters Exist. Óbvio que Phil e Paul não podem/querem mudança radical, afinal, já bateram a casa dos 50. Mas, os teclados encaixam-se nos padrões cool da moçada nova que faz techno meio pantanoso. Orbital sem perder sua vibe, mas se adaptando.

Com um título desses, o álbum não podia evitar momentos densos/tensos. The Raid nem parece deles, com aquele vozeirão à Darth Vader falando coisas deprês; gritos estilizados, discursos inflamados, tudo embalado por moroso instrumental ameaçador. Gothic electronica, encharcada por torrentes geladas de teclado sombrio. Para provar que são cientificamente sérios e fechar com chave d’ouro, os Hartnolls convidaram o físico britânico Brian Cox, que fala durante minutos sobre o fim do universo, de como a vida é fugaz, sobre instrumental que lembra fantasmagoria ambient, às vezes.

Nesses momentos mais lúgubres e “sérios”, Orbital resvala para o comum: qualquer um faria tais faixas. Mas, é a minoria num álbum muito bom.

As oito faixas-bônus trazem pelo menos uma pérola, Kaiju. Carnaval techno, acessivelmente pop, com mocinha gemendo e vocalizando por trás do bate-cabelo. Não há nada mais realmente brilhante, mas quem curte barulhinhos eletrônicos vai se regozijar com a dançabilidade superbem editada de To Dream Again e números mais lentos, mas igualmente criativos com relação ao uso de efeitos e synths, como Anallogue Test Oct 16 e Fun With The system, cujos próprios títulos sugerem que os irmãos testavam possibilidades, sonidos e timbres, por isso o caráter bônus das canções. Embora bela, supérfluo apenas o minuto e pouco de A Long Way From Home, cuja acusticidade de violão combina mais com Steve Hackett do que com o Orbital.

Com relação ao álbum oficial há duas referências: a versão sem falação, de There Will Come a Time, que, infelizmente não é toda composta pela fantasmagoria melancólica dos momentos iniciais e Tiny Foldable Cities (Kareful Remix), que altera para mais convencional a canção. Não acrescenta nada.

Orbital não mais tem poder para estabelecer tendência, mas Monsters Exist é acima de decente. Para iniciantes em electronica, ótima pedida: comece pela maior acessibilidade das faixas menores desse álbum e depois procure as longas gemas preciosas dos anos 90 e início dos 00.

Funkeiros brasileiros deveriam se apressar para aproveitar a grave linha de teclado e a semelhança com o português do baby talk inicial da faixa Boom Boom Tap: tem hora que parece com “tudo bem”, falado bem meiguinho. Parece até homenagem aos momentos Boing Boom Tschak, do Kraftwerk, porque tem linha de teclado agudo-borbulhante super-referencial. Mas, não é homenagem, é sarcasmo: o balbuciar é cortado por seco e duro ‘fuck you”, seguido de célere correnteza jungle.

Lançado no dia de Finados, o sétimo álbum de estúdio do The Prodigy sistematicamente estraçalha qualquer momento de meiguice, com sua agressividade Big Beat. Em mais de uma ocasião durante a dezena de canções, vozinhas finas e momentos que fingem que virarão pop saltitante são soterrados com sirenes de ataque aéreo e artilharia sintética. Títulos como Timebomb Zone e Fight Fire With Fire falam por si, num álbum que não dá trégua ao ouvinte, que, afinal, está numa Londres onde é preciso andar com colete a prova de balas, em certas regiões, de acordo com a nervosa Champions of London.

Poder-se-ia elaborar teia de referências Brexíticas para “explicar” a violência de No Tourists, mas Liam Howlett, MC Maxim e Keith Flint nunca necessitaram de razões pontuais para sua agressividade. O álbum é urgente e rearticula os melhores elementos da carreira do Prodigy num trabalho desinteressado em inovar, mas sem nenhum ponto baixo. À parte os segundos iniciais de Resonate – que trituram elementos de drum’n’bass com dubstep vocoderizado – o resto é Prodigy tradicional, como a cyberpunkice de Give Me a Signal

A faixa-título abre com teclados de fundo que dão a impressão de que o Public Enemy está fazendo trilha para filme de James Bond. Need Some1, a abertura, anuncia o nervo do álbum, com seu teclado lúgubre e baixo/guitarra envolto em pura energia elétrica. Ironicamente, há recorrente sample de Loleatta Holloway gritando “I need someone”, superusado em faixas dance alegres.

Em meio a apenas faixas muito boas, (pelo menos) duas são espetaculares, em termos de dançabilidade violenta, pogueada ou como imaginárias trilhas-sonoras para conflitos campais de ruas pós-apocalípticas: Light Up Tje Sky e We Live Forever são estiletadas na espinha.

O defeito de The Day Is My Enemy (2015) – retorno após sete anos sem gravar – foi sua inconsistente duração: faixas boas intercalavam-se com outras nem tanto. Em No Tourists, o Prodigy voltou conciso, sem adiposidade, todo-poderoso.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
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