blog do albino incoerente

falando sobre música, cinema, TV e literatura

Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos.

Tempos de Costura e Guerra na Netflix.

Duas minisséries espanholas para quem ama romance com um pouco de suspense, em produções de época.


o_tempo_entre_costuras_credito_pipo_fernandez.jpg

Maria Dueñas conseguiu êxito literário ao misturar personagens fictícias com reais em seu alentado livro El Tiempo Entre Costuras (2009). Gente de verdade, como Rosalinda Fox e Juan Luis Beigbeder, servem de trampolim, justificativa e muleta para uma personagem fictícia brilhar. O canal Antena 3 adaptou a obra, em 2013, e os dezessete episódios estão na Netflix.

No final da década de 1930/início dos ‘40’s, Sira Quiroga, madrilenha humilde, enfrenta dificuldades, se muda para o Marrocos com bofe aproveitador e, depois de (sub)traída, se reinventa como modista de luxo e vira espiã, auxiliando os britânicos contra os sinistros alemães, que queriam forçar a Espanha franquista a entrar em guerra.

A Netflix deve ter feito reengenharia nos capítulos, porque lembro de um resenhista espanhol reclamando dos usuais setenta minutos médios de cada episódio, como é o costume lá. Aqui, felizmente estão com duração de quarenta e poucos.

Tempo Entre Costuras funcionará muito bem para amantes de novelões europeus, lentos e convencionais. Tem encontro com pai desconhecido e a clássica trama folhetinesca da gata borralheira, que vai da lama ao lamê.

O roteiro carecia de um bocadinho mais de interesse nos primeiros capítulos, antes da fase glam, com personagens que nada contribuem, como aquela gente chata da pensão marroquina e a biba que só existe para justificar Sira.

Quando Quiroga vira costureira de sucesso entre grã-finas, tudo melhora. Entra muita piteira, turbante e modelões, que a atriz Adriana Ugarte sabe manejar com maestria caruda. Ela é um sonho glam de idealizados anos dourados. Se você acha que Sira Quiroga já é meio chique, que tal Arish Agoriuq, nome adotado quando espiã? Puro exotismo.

A Guerra do Rife, também chamada de Segunda Guerra Marroquina, ocorreu de 1920 a 26 entre a Espanha e forças marroquinas das tribos rifenhas e Jebala. Esse é o pano de fundo para a simpática bondade das damas-enfermeiras protagonistas de Tempos de Guerra.

A Rainha em pessoa encarrega uma duquesa de montar corpo de enfermeiras entre moças privilegiadas de Madri para servirem em um hospital em Melilha, cidade marroquina, que ainda hoje pertence à Espanha. Enfrentando realidade tão dura e adversa como a guerra, essas mulheres tornar-se-ão pró-ativas, ficarão mais experientes e bem menos frescas; terão preconceitos derrubados e quererão ser felizes, acima de tudo, independentemente da opinião e pressão alheias. A trezena de episódios de Tempos de Guerra é pura novela global de época, das 18:00, com uma ou outra ceninha mais sangrenta, porque, afinal, há uma guerra rolando. Mas, prevalecem os dramas individuais de algumas das enfermeiras, não de todas que embarcam. Isso por questões de tempo diegético, mas também, porque quando precisa matar alguma, que não seja nenhuma daquelas com as quais nos importamos. A noção geral é de que a guerra é ruim a todos e um dia terminará e a escolha de Melilha nos anos 20 é mais para dar aspecto de “época” e cor local a essa fantasia.

Nada disso desmerece Tempos de Guerra. Para quem curte um bom novelão para esquecer dos problemas do dia-a-dia, é ótima pedida. Tem tudo que um folhetim requer: amores (aparentemente impossíveis); irmã malvada; alívios cômicos; mãe megera e até penhasco que aparece volta e meia para nos lembrarmos dele e alguma resolução não parecer arbitrária demais, quando for usado para despencar alguém. Como há uma guerra, pode ser que uma hora ou outra o cenário seja destruído por uma bomba para ficarmos roendo as unhas por quem morreu.

Pena que o fim seja aquém das expectativas, precipitado, reticente até. Como não se anunciou segunda temporada, faltaram destinos mais explicativos para cada personagem.


Roberto Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário, doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo. Desde 2009 luta pelos direitos das pessoas com albinismo no Brasil, além de escrever sobre filmes, livros, séries e discos..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/cinema// //Roberto Bíscaro